Cultura

Em busca de outro Brasil

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 3 min

Quer saber da última moda? Esqueça as revistas importadas, passe longe de Milão, Londres, Nova York e Paris, o negócio agora é a cultura caipira. Uma mostra disso é o projeto “O Brasil da Sanfona”, do Sesc São Paulo.

Depois de ficar um mês no Sesc Pompéia, a itinerância chegou esta semana ao Interior, via Bauru. Depois disso, segue para Araraquara e Piracicaba.

“Acho que existe uma tendência de que o Brasil passe a se olhar mais. Eu sinto que a sanfona e a viola caipira, que foram deixados de lado nas décadas de 80 e 90, estão voltando e, mais do que isso, participando de todo tipo de som, inclusive do pop, de coisas mais eletrônicas. Já foi incorporado à cultura”, afirma a diretora do projeto Myriam Taubkin, que desde ontem está em Bauru para cuidar da mostra.

Ao lado de Sérgio Roizenblit, responsável pelo vídeo-cenário e da fotógrafa Angélica Del Nery, Myriam fez um trabalho de Hércules. Os três percorreram o sertão do Brasil documentando a música, a geografia humana, a cultura. Além dos eventos em São Paulo e no Interior, o projeto vai desdobrar-se em um CD, um documentário e, talvez, um livro.

Até domingo, o público que for ao Sesc poderá ver uma exposição de fotografias e de instrumentos. A cenografia e a montagem da mostra foram realizadas pelo artista plástico Jejo Cornelsen. “Eu tive dois dias para montar a exposição. Então, foi uma adaptação ao próprio espaço, a escolha das cores, das vitrines”, explicou.

Para Cornelsen, em termos gráficos todos os países do mundo estão antenados com as manifestações populares. â€œÉ uma coisa espontânea, que é genuína por ter essa espontaneidade.”

Para a mostra em Bauru, o artista montou uma réplica de sanfona na praça externa do Sesc. â€œÉ uma arandela, uma luminária à noite”, explicou.

“Noite de São Paulo”

Hoje, às 21h, grandes personagens da música paulista tradicional apresentam o show “Noite de São Paulo”. O arrasta-pé fica por conta de Toninho Ferragutti, Gabriel Levy e Quarteto Original, Mário Zan e a dupla de sanfoneiras Gilda Montains e Meire Genaro.

Para selecionar os artistas, Myriam escolheu representantes de diversos segmentos da sanfona brasileira, excluiu covers e privilegiou o bom gosto. “O que não há é breguice no projeto. Acho que você pode ser popular sem ser brega”, ressalta.

“Se você pegar uma sanfona com um contrabaixo ruim e uma bateria alta não dá para você sentir o instrumento. Eu acho legal você ter um cuidado de sonorização, um cuidado de imagem no palco, trazer um espetáculo bonito.”

Depois dos paulistas, amanhã o projeto segue com a “Noite do Rio Grande do Sul”. Em termos de qualidade musical, a escalação dos artistas não fica atrás dos paulistas. São eles: Renato Borghetti, Gilberto Monteiro, a revelação Luciano Maia e Oscar dos Reis.

Para os fãs da música tradicional, que são muitos, uma dica: Hélder Vasconcelos, sanfoneiro do grupo pernambucano Mestre Ambrósio, montou um estande da sua distribuidora, a Terreiro Discos, e vai vender CDs (R$ 15,00 cada) de sanfoneiros brasileiros em Bauru.

Ele conta que começou distribuindo um disco da sua própria banda, o primeiro do Mestre Ambrósio, que saiu independente, e resolveu ampliar o leque. Hoje, tem um catálogo com 40 ítens, 38 CDs e dois livros. Só coisa fina.

“O avanço tecnológico derrubou com tudo. Hoje você grava um CD com um computador e música. As gravadoras dominavam muito isso porque antes você precisava de muito dinheiro para gravar um disco”, avalia. E vai mais longe: “Gravadora não tem compromisso social. Não tem compromisso com distribuição de música que é referência histórica para o País. O potencial da música brasileira não tem nada a ver com essa estrutura comercial. É uma questão muito mais séria, muito mais profunda. Eu prefiro fazer a minha parte e hoje consigo perceber que é muito mais viável que a gente imagina.”

Serviço

Projeto “O Brasil da Sanfona”. Hoje, 21h, “Noites de São Paulo”. Amanhã, “Noites do Rio Grande do Sul”. Ingressos: R$ 6,00 e R$ 3,00 (matriculados, estudantes com comprovante e maiores de 65 anos). Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 235-1750.

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