Existem atualmente 33 milhões de pessoas vulneráveis em 22 países e territórios, afetadas por crises humanitárias. Como mostra a experiência do Afeganistão, as situações de emergência não desaparecem quando a atenção mundial muda para outro ponto do Planeta. O sofrimento e a morte continuam existindo, estejam ou não nas manchetes dos meios de comunicação. As emergências humanitárias persistem, se inflamam e voltam a explodir e, às vezes, somente o sistema das Nações Unidas é que faz com que a atenção da comunidade internacional se volte para elas.
As conseqüências das emergências sobre a saúde são sérias e, freqüentemente, são sentidas anos depois. Nas guerras e nos desastres naturais, os sistemas sanitários, o saneamento e a infra-estrutura são destruídos, e também se perde pessoal capacitado. As doenças endêmicas se arraigam e se estendem a populações que previamente estavam livres desses males. A menos que os serviços primários de saúde sejam acessíveis, a gravidez se torna perigosa, as doenças contagiosas, como a aids, se espalham mais ainda, e as enfermidades crônicas, como o diabetes, não são tratadas. Então, são essenciais as intervenções a tempo e com medidas de assistência humanitária nos casos de emergência.
Recentemente, visitei a República Democrática da Coréia (RDC), que sofreu durante vários anos uma severa carência alimentar. Um número desconhecido de pessoas morreu de fome e doenças ligadas à desnutrição. Mas a comunidade mundial interveio e proporcionou ampla quantidade de alimentos e outros tipos de assistência, o que ajudou a salvar milhares de vidas.
A propósito deste caso, os jornalistas me perguntam se é prudente manter a assistência humanitária quando não há perspectivas de uma rápida solução para a emergência. É uma pergunta legítima, que reflete a importância de compreender o que a assistência de emergência pode e o que não pode fazer. A ajuda em si mesma não pode “resolver†as emergências. Não é um substituto de ação internacional concertada para minimizar os conflitos. A assistência salva vidas, milhares de vidas, e essa é a justificativa para proporcioná-la. Entretanto, também pode servir para impedir que uma emergência se converta em uma catástrofe maior. Pode preparar o terreno para uma solução sustentável. É uma ponte para a paz, um cimento vital para um mundo mais seguro e mais pacífico.
Devemos ser realistas. Não seremos capazes de dar assistência a todos os necessitados. De fato, as respostas a pedidos efetivos diminuíram nos últimos anos. Somente 50% das necessidades puderam ser atendidas em 2001, enquanto em 2000 esse índice foi de 55% e, em 1999, chegou a 67%. Devemos reverter a tendência. Entre as pessoas particularmente vulneráveis estão as mulheres, em especial as pobres e aquelas em situações em que as normas sociais as discriminam. As crianças e os idosos, particularmente quando estão separados de suas famílias podem também encontrar-se em situação de risco. Também sabemos que em situações de miséria são especialmente vulneráveis todos os que não têm os meios para enfrentar as mudanças rápidas. Por exemplo, as comunidades marginalizadas e as populações deslocadas.
Todos em conjunto temos os conhecimentos técnicos, a capacidade e a obrigação de responder efetivamente a esses formidáveis desafios para prestar ajuda nas crises humanitárias. Porém, é necessário continuar trabalhando juntos e intensificar as alianças entre os organismos das Nações Unidas, os governos, as organizações não-governamentais, os meios de comunicação, as comunidades, as famílias e os sócios privados comprometidos.
No entanto, antes de tudo, devemos ter em mente que nas emergências as vidas se perdem, estejam presentes ou não as câmeras de televisão. Não devemos jamais esquecer os que sofrem devido a conflitos e desastres naturais. Suas vidas estão freqüentemente afetadas pela miséria e sua batalha para sobreviver nunca termina. Dar apoio a quem se vê ameaçado pelas emergências é um dever da comunidade mundial.
(*) A autora, Gro Harlem Brundtland, é ex-primeira-ministra da Noruega, é diretora-geral da Organização Mundial da Saúde - OMS