Filhos criados, netos também, jornada de trabalho mais que cumprida, é hora de curtir a vida. Para a turma da melhor idade não existe dinheiro que pague o prazer que eles têm em se divertir, buscar mais anos de vida e até ajudar ao próximo, quando podem.
A pensionista Maria Noemia Souza Ribeiro é um exemplo invejável de quem terminou uma parte da missão, mas não perde um minuto sequer em busca de viver intensamente. Aos 56 anos, ela é viúva, teve cinco filhos e criou quatro (um deles morreu ao nascer). Netos? “Tenho consciência de nove, com certeza. Mas sabe lá se não tem nenhum solto por aí?â€, brinca e conta que o filho mais velho tem 36 anos e o caçula 20.
Noemia se gaba de nunca ter precisado cuidar dos netos para os pais trabalharem, mas é claro que adora quando eles vão até a sua casa para passar dois ou três dias na companhia dela.
“Eu vivo do jeito que eu queroâ€, anuncia. “Já trabalhei bastante, agora é a minha vez.â€
Mesmo com todo o tempo para usar como quiser, ela levanta cedo para caminhar todos os dias, duas vezes por semana vai na hidroginástica, cuida da casa, faz tricô, crochê e costura, assiste a todas as novelas e ainda tem tempo para fazer trabalhos comunitários e alguns pequenos serviços que lhe rendem um ganho extra. “Vou fazer doces, pães e salgadinhos na casa de um, de outro. Bordo um enxoval aqui, outro ali. Faço tapetes, bijuterias e até sabão. Hoje mesmo fiz um monte de sabão para uma mulher que mora na quadra de baixo. Assim ganho um dinheirinho extra.â€
Muito sacrifício
Noemia é uma vencedora. Com uma pensão equivalente a um salário mínimo e o aluguel de um cômodo nos fundos de sua casa, ela diz viver feliz. Lamenta apenas não ter um pouco mais para ajudar os filhos. Mas mesmo com o dinheiro curto, ela conseguiu comprar uma bicicleta ergométrica, um sonho antigo, e todo os dias faz 20 religiosos minutos de pedaladas. Outra coisa que também consegue com o extra que ganha é, vez ou outra, participar de excursões e passeios de um dia com a turma da terceira idade. Isso quando os gastos com saúde não a impedem.
“Já viajei muito, conheci o mar e comprei o meu terreno para construir este “barraco†(uma casa humilde, de uma água só, muito limpa e bem arrumada, numa rua sem asfalto e muitos buracos no parque Roosevelt) com o meu trabalho. Tinha uma patroa minha que dizia que eu era artista e queria levar minha história para a televisão: a mulher que juntava R$ 50,00 para comprar um terrenoâ€, conta.
Mesmo com dificuldades financeiras, Noemia é capaz de coletar alimentos e entregar cestas básicas para quem não teve a mesma felicidade que ela. “Sou muito honesta e isso é uma riqueza que basta. Não preciso mais que issoâ€, argumenta.
Ela diz ter bastante conhecidos, poucos amigos e nenhum namorado. “Se não for coisa que presta, não quero. Já disse que sou muito honesta e tem tranqueira em toda esquina, filhaâ€, aconselha. Sua diversão é ir aos clubes de terceira idade para jogar bingo, dominó e dançar. “Lá encontro 40 mulheres iguaizinhas a mim e dois ou três homens. A concorrência é grande e eu prefiro ficar sozinha, na minha casa ouvindo música sertaneja, nos finais de semana.â€
Apaixonada pelo marido
Quem também prefere curtir a vida sozinha é a viúva e fiscal de tributos aposentada, Júlia Edméa Morgado, que completa 67 anos no próximo mês. “Nunca quis um namorado. Um dia minhas filhas disseram que iriam me arrumar um. Disse que aceitava se ele fosse mais alto que eu, mais bonito, mais inteligente, ganhasse mais, não tivesse problemas com a família e gostasse muito de passear. Acho que elas estão procurando até hoje. No fundo, no fundo confesso que ainda sou apaixonada pelo meu marido.â€
Mas pode-se perceber que hoje, a maior paixão de Edméa é pela vida, o prazer de viver e fazer coisas que no passado não teve tempo. Cozinhar, ler e reler seus livros preferidos, ir várias vezes ao cinema, fazer crochê, pintar pratos, bater perna, jogar baralho com as amigas todas as terças-feiras, aprender inglês mesmo que seja “uma palavra por mês†e viajar, seja para o distrito de Guaianás ou para a Grécia.
“Eu me aposentei sem grilosâ€, revela. Com um bom salário conquistado durante a carreira, Edméa não teve problemas financeiros e logo após encerrar a carreira de fiscal de renda, assume que virou dondoca. Mas seis meses depois não agüentava mais a vidinha e “pedi a Deus uma ocupaçãoâ€. Ela conta que foi a igreja e rezou muito. Dias depois, se tornara diretora de uma creche na favela São Manuel, onde trabalhou por mais de oito anos.
Felicidade x tristeza
“Eu sou uma pessoa por natureza feliz. Quando acontece uma tragédia, fico triste duplamente, pelo ocorrido e por ter ficado tristeâ€, revela, comentando que muitas vezes a situação das pessoas que viviam ao seu redor não lhe fazia bem emocionalmente.
Deixou de lado o trabalho e voltou a ser dondoca. Com os três filhos educados e formados, mas sem o grande amor de sua vida, a ordem era cuidar de si mesma.
“Cuido de mim e sou esperta. Caminho seis quilômetros toda manhã, faço hidroginástica três vezes por semana e nos outros dias mexo na casa. Os finais de semana são finais de semana.â€
Edméa se gaba de ter uma saúde de ferro ou de 40 anos, como ela diz e de ter vencido o bloqueio de usar camisetas cavadas e shortinhos. É assim que ela sai para caminhar, pega uma cor e previne a osteoporose. Há dois anos fez uma dieta por saúde e hoje comemora o poder de comprar roupas em liquidação e encontrar nas vitrines de grifes os modelos que lhe agradam.
“Se segura a idade de dentro, mas a de fora ninguém segura.†Por isso, a aposentada teme o andar de velho e os sintomas da idade avançada. O medo é tamanho que faz até exercícios para a memória para deixar o cérebro sempre ativo e o resto do corpo também. “Quero morrer moçaâ€, anuncia.
Mas antes deste dia chegar, ela garante que vai viver muito e quem sabe realizar um desejo das filhas Ângela e Raquel: escrever um livro, porque outro dos grandes prazeres da vida de Edméa é contar histórias.
Responsabilidade de avôs
Na contramão de Noemia e Edméa, que podem usufruiu do que é seu, independente de muito ou pouco, 25% da população aposentada paga a conta dos filhos e dos netos. Muitos dos idosos estão empregados e os jovens não. Esta realidade foi constatada no trabalho Envelhecimento da População Brasileira: Uma Contribuição Demográfica, da pesquisadora carioca Ana Amélia Camarano, para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Segundo o resumo da própria autora, a pesquisa buscou apresentar uma contribuição demográfica para o entendimento do processo de envelhecimento da população brasileira. Tem por objetivo principal questionar a relação entre envelhecimento populacional e dependência. Além disso, buscou-se avaliar se as condições de vida do idoso brasileiro de hoje, diferem das do idoso de um passado recente. Isso permite especular sobre o “dinamismo†da relação. Trabalhou-se com os dados das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (PNADs) de 1981 a 1998.
Nos últimos 20 anos, o idoso brasileiro teve a sua expectativa de sobrevida aumentada, reduziu o grau de deficiência física ou mental, passou a chefiar mais suas famílias e a viver menos na casa de parentes. Também passou a receber um rendimento médio mais elevado, o que levou a uma redução no grau de pobreza e indigência. Essas considerações levam à dificuldade de se pensar essa relação entre envelhecimento e dependência como produto de um único fator agindo continuamente. Esse é um fenômeno bastante complexo e sujeito à ação de vários fatores em interação. As aposentadorias desempenham um papel muito importante na renda dos idosos e essa importância cresce com a idade.
Pode-se concluir que o grau de dependência dos indivíduos idosos é, em boa parte, determinado pela provisão de rendas por parte do Estado. Como uma parcela importante da renda familiar depende da renda do idoso, sugere-se que quando se reduzem ou se aumentam benefícios previdenciários, o Estado não está simplesmente atingindo indivíduos, mas uma fração razoável dos rendimentos de famílias inteiras.
Enquanto apenas 8% da população brasileira era idosa em 1998, em 1981 em 26% das famílias brasileiras podia-se encontrar pelo menos um idoso.