Saúde

Paciente chegou a pesar 28kg

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 4 min

A.M.C.S., 29 anos, teve anorexia dos 14 anos até os 17 anos. Ela conta que foi muito difícil o tratamento e seus pais e irmãos passaram por sérias dificuldades para lidar com ela. A.M.C.S. disse que, depois de muito tempo de terapia, ela, juntamente com sua psicóloga, concordaram que o fato de ela achar que seus pais gostavam mais de sua irmã porque ela era mais bonita, mais magra, levou A.M.C.S. a desenvolver a doença. Ela deu o seguinte depoimento ao Caderno Saúde.

“Eu sempre achei que meus pais tratavam melhor a minha irmã do que a mim. Hoje sei que isso era coisa da minha cabeça. Eu era mais cheinha, pesava 59 quilos, era tímida e ela era toda linda, com um corpo escultural, segura. Isso me incomodava muito e, cada vez que ouvia meus pais fazerem algum elogio a ela, me sentia desprezada. Eles me elogiavam também, mas eu não dava peso para isso. Só dava importância para as broncas que eu levava. Isso foi me deixando mal, eu ficava cada vez mais insegura também com meus amigos na escola, em todos os lugares. Botei na minha cabeça que eu tinha de emagrecer e ficar bonita como minha irmã. Comecei a fazer umas dietas malucas. Tinha semanas que eu comia só alface. Em outras, eu comia só cenoura e assim fiquei durante várias semanas.

Minha mãe insistia para que eu comesse, então eu jogava a comida no vaso, dava descarga e fazia ela pensar que eu havia comido tudo. Na minha cabeça só passava que ela queria que eu comesse porque estava emagrecendo e ela não queria que eu também fosse bonita. A gente fica meio louca, sabe?

Quando percebi que mesmo comendo pouco, já não estava emagrecendo, (até aí, eu já tinha perdido nove quilos), comecei a fazer exercícios. Saía nas ruas e corria uma hora ou mais. Chegava em casa, ficava mais uma meia hora subindo e descendo escadas. Depois, fiz minha mãe comprar uma esteira elétrica e ficava horas no meu quarto andando e correndo na esteira. Perdi mais quatro quilos e foi quando minha mãe resolveu me levar num médico. Me lembro bem desse dia. Ela dizia para a médica que eu comia e não engordava, só emagrecia. Mas na verdade, eu não comia, jogava a comida fora e ela não sabia.

A médica pediu vários exames e eu enrolei um tempão para fazê-los. Minha mãe foi ficando nervosa comigo. Eu fugia das consultas, fazia chantagens com ela e o tempo foi passando e eu emagrecendo ainda mais. Cheguei a pesar 28 quilos. Foi o fim para minha família que já estava desesperada e brigavam também entre eles por minha causa. Eu me afastei de todas as minhas amigas, não sentava à mesa com minha família. Mal falava com meus pais e irmãos. Fiquei totalmente isolada no meu mundo. Além disso, fiquei metódica com as coisas. Exigia tudo sempre muito organizado e muito limpo.

Fui internada. Me levaram ao hospital à força. Eu não queria de jeito nenhum. No hospital, eu chorava muito e briguei com todo o mundo. Enganava muito as enfermeiras escondendo os remédios, arrancava meu soro. Depois de algum tempo conversando com a psicóloga que ia todos os dias no hospital, eu fui melhorando. Mas no começo eu dizia que preferia morrer do que engordar e, quando me olhava no espelho, mesmo estando esquelética, me sentia imensa.

O tempo passou, eu saí do hospital mais consciente de tudo. Mas levou muito tempo ainda para normalizar minha vida. Hoje, peso 50 quilos. Ainda sou meio paranóica com o fato de engordar, mas não faço mais loucuras. Sei que minha vida vale muito e que tenho que cuidar de mim. Ainda faço terapia e acho que vou fazer sempre. As pessoas que fazem parte do meu ciclo atualmente não sabem que eu tive esse problema. Não conto para ninguém. Eu sei que sarei e não vou mais ter isso. O conselho que eu dou para as meninas que induzem o vômito, que são paranóicas por magreza é de que nada vale a pena. Nossa vida é muito importante e temos que estar saudáveis. A estética é passageira. Um dia todos nós vamos ficar velhos, enrugados e o que realmente vale é aquilo que temos na alma, no coração e na mente. Temos que ser lindas nesses aspectos. O resto eu digo que é supérfluo.”

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