Geral

Conflito entre psicologia e religião

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

O engenheiro, filósofo, psicólogo e espírita Adenauer Novaes estabelece um equívoco na relação entre a psicologia e a religião no cotidiano. Ele critica os métodos utilizados pelas correntes religiosas de tratar o sofrimento humano com empirismo e sem nenhum conteúdo científico. Ele foi convidado pela União das Sociedades Espíritas Intermunicipal para ministrar a palestra sobre “Psicologia do Evangelho” em Bauru na semana passada. Novaes recebeu o JC para falar sobre filosofia, Evangelho, fé e as fragilidades do ser humano. Leia os principais trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - Como o senhor define, como filósofo, psicólogo, espírita, o limite entre o conceito religioso e o psicológico na vida das pessoas? Adenauer Novaes - Há um limite muito claro entre o religioso e o psicológico. A psicologia nasceu na psiquiatria, da psicopatologia e da fisiologia. É uma ciência com objeto de estudo. Hoje a psicologia é a ciência do comportamento humano com várias escolas do processo de ser e viver. E a religião tem o composto transcendental, uma busca de transcendência do mundo com a busca do divino, do sagrado. São objetos distintos de percepção. Esse casamento nem sempre é possível porque há um sectarismo tanto de um lado quanto de outro. Mas há uma distinção muita clara.

JC - A realidade mostra o uso, por leigos, misto da religião e da psicologia para tentar dirimir o sofrimento de pessoas, para aconselhamento. Como o senhor vê o uso leigo desses conceitos tão distintos? Novaes - O aconselhamento, ou atendimento de pessoas em um ambiente religioso sem o devido preparo, sem ciência, só com empirismo ou boa vontade, induz a muitos equívocos. A falta de conhecimento sobre a psique humana é o principal obstáculo. Em alguns casos o atendimento agrava a situação do indivíduo exatamente pela ausência de método científico. Muitas vezes a cura se dá pela auto-sugestão e não pela interferência da religião. O ideal é o encaminhamento das pessoas para o tratamento específico, o preparo das pessoas que atendem nessas igrejas. Ao se identificar com clareza se o problema é apenas de ordem religiosa, essas pessoas já estarão fazendo bem aos outros.

JC - Mas muitas igrejas persistem então nesse equívoco de tratar problemas com empirismo? Novaes - É um grande equívoco. Porque as instituições religiosas não se preparam, em geral, para isso e invadem o campo profissional técnico. Da mesma forma a psicologia também deveria se permitir uma percepção do ser humano mais abrangente do que o faz.

JC - A filosofia costuma fazer uma definição dos séculos por fatos marcantes. Como o espírita e filósofo vê essas avaliações? Novaes - Vejo o século XVIII como o grande, aquele que ainda é presente e norteia o século XXI. Pra mim não ocorreram grandes avanços nos séculos XX. As luzes surgiram no século XVIII, no campo da ciência, da religião. As descobertas do século XX foram só aperfeiçoamentos, só um estágio maior de percepção. A visão de que o século XX é das guerras é uma visão particularizada, porque poderia ser o século hig tech, da teoria sistemíca. Os séculos XIX e XX foram pobres, foram continuidade.

JC - Como o filósofo Novaes reflete sobre o paradoxo da história, do homem que avança sobre tecnologias mas sofre com seu próprio flagelo, com a fome, a morte? Novaes - Vejo que a tecnologia ainda é muito incipiente, muito pobre, mesmo com tantos avanços. O ser humano que vai à Lua com um equipamento tecnologicamente sofisticado é o mesmo ser humano que mata, que rouba, que massacra. Ainda é o ser humano que ainda se desconhece, que destrói, que liquida. O ser humano está saindo para fora do Universo impotente em relação a si mesmo. Está fugindo de si mesmo. Nós ainda vamos avançar para nos conhecermos para ver que temos um legado interno imenso a ser descoberto. Isso são fases. Para entendermos a história é necessário vermos que a Água Americana está pousando. O apogeu americano não dura mais cinquenta anos. Ela vai acabar tendo que aceitar que não é rapina. A pobreza interior do ser humano mata mais que a fome.

JC - O senhor proferiu palestra relacionamento a psicologia do Evangelho. O senhor trata da ciência ou dos conceitos em relação ao livro sagrado? Novaes - Não trato o Evangelho como uma ciência em relação à psicologia. Trato a psicologia do Evangelho como mensagem, como uma crença, um fio, uma linha. A psicologia do Evangelho é a psicologia da pessoa, da alma humana. Não é a psicologia da conduta humana. O Evangelho aponta caminhos para o ser humano se compreender. A Boa Nova, a mensagem, contém uma proposta para que o indivíduo se veja, pra que ele se comporte no mundo. É muito mais do que uma mensagem para que o ser humano seja caridoso, fraterno. Traz no seu bojo uma mensagem para que o ser humano consiga se entender, se relacionar consigo mesmo. É a psicologia da pessoa que olha para dentro de si mesmo.

JC - Se a psicologia do Evangelho remete a este auto-conhecimento, como o senhor vê as diferentes interpretações dos textos bíblicos por diferentes correntes? Novaes - Acho uma riqueza, acho oportuno. O ser humano é diverso, é múltiplo, não é igual ao outro e nem deve ser. Nós fomos criados por Deus e nos desenvolvemos ao longo dos séculos.

JC - Mas não há certo sectarismo por parte de algumas correntes nessas interpretações, que cobram comportamentos das pessoas? Novaes - Há sim sectarismo em algumas religiões, mas isso acaba, não se sustenta ao longo da humanidade. O que é rico e é preciso ser mantido são as diferentes percepções do mundo através das correntes religiosas. São pessoas diferentes que vêem o mundo de forma diferente. O equívoco é que uma corrente queira que a outra tenha a mesma percepção, a mesma interpretação. O aceitável é que o cristão ortodoxo, o evangélico, o espírita, que eles vivam com respeito diante das diferenças. Isso deve ser respeitado. O equívoco é um combater o outro. Um dia, essas diferenças podem encontrar o lado comum.

JC - E como o senhor vê a apropriação da fé como instrumento de um projeto político? Novaes - Vejo de dois modos. O primeiro com preocupação, mas não o suficiente para superar o segundo. Com preocupação porque nem sempre o uso da religião atende a interesses honestos. Alguns se apropriam da fé, exploram as fragilidades e inocência das pessoas, para manipular as massas e isso é ruim e perigoso. Se olharmos para o passado, vamos ver que sempre que o indivíduo manipulou mas massas através da fé levou essas pessoas para o abismo. Mas na medida em que o ser humano crescer, evoluir espiritualmente, vejo que essa relação possa ser usada para levar a mensagem ética da religião a um ambiente desfalcado da honestidade. Se os bons, os de boa índole, não tomarem conta o mau se estabelece. Para isso os bons, éticos, é que precisam criar os mecanismos para a relação adequada entre religião e poder.

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