Cultura

Vivendo entre passado e futuro

Por Padre Beto | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 4 min

“Ele” possui dois inimigos: o primeiro o pressiona por trás, de sua origem.

O segundo interrompe o seu caminho pela frente. “Ele” luta contra os dois. Na verdade, o primeiro o ajuda na luta contra o segundo, pois o pressiona de trás para frente, da mesma forma o segundo o ajuda na luta contra o primeiro, pois empurra-o de frente para trás. Mas tudo isso entendido teoricamente.

Pois, não estão simplesmente dois inimigos ativos na luta, mas também “ele” mesmo. E quem conhece realmente suas intenções? Uma única coisa é certa, o seu sonho é sair despercebidamente do campo de batalha por um momento, em uma noite, que deve ser escura como nenhuma outra, e graças à sua experiência de lutas, poder neste momento tornar-se juiz destes dois inimigos.

Nesta estranha parábola intitulada Ele, Franz Kafka procura descrever a situação do ser humano em seu interior em relação ao tempo. Aqui duas forças tornam-se presentes em um espaço metafórico na vida do ser humano: o “decorrido” do passado, que o pressiona de trás, e o que “há de ser” do futuro que o assusta empurrando-o para trás.

O ser humano encontra-se na constante relação com estas duas forças, situação que o faz manter-se na existência. A partir de seu nascimento, o ser humano começa, através de seus atos e dos acontecimentos de sua vida, a construir uma história. Ao ser concretizada esta história, ela transforma o presente e ao entrar na categoria do pretérito, ela não se perde simplesmente no esquecimento, mas continua viva na lembrança das pessoas que nela (con-) viveram.

Cada ser humano possui uma descrição de sua vida, sua biografia. Assim, o que somos hoje é decorrência de nosso caminhar até agora. “The past is never dead. It is not even past.” (O passado nunca está morto. Ele ainda nem passou.) afirma com sabedoria William Faulkner. O nosso comportamento e a nossa forma de pensar são, muitas vezes, marcas do passado, resíduos de nossa biografia que foram moldando o nosso ser com o passar do tempo. A forma mais consciente da presença do passado em nossa vida é a memória.

Nela estão ativos vários momentos felizes e tristes de nossa biografia. Mas são os momentos marcantes que dominam nossa memória. Nietzsche tem razão quando escreve que “somente aquilo que não parou de doer permanece na memória.” Os momentos que mexeram conosco, que mais nos alegraram ou que mais nos feriram, nos acompanham durante nossa viagem pela vida. É ilusão pensar que é possível “passar uma borracha” apagando-os da existência.

A única forma de vencê-los é confrontarmo-nos com eles, em um verdadeiro campo de batalha, como escreve Kafka. Caso contrário eles serão sempre fantasmas a assombrar os momentos de solidão. Para Kafka o passado não puxa o ser humano para trás, mas o empurra para o futuro. Assim deve ser a nossa confrontação com o passado.

Seja ele qual for, o passado não deve tornar-se nem nostalgia nem tormento, mas sim aprendizado e impulso para uma nova vida.

Se o passado muitas vezes nos assusta por sua certeza do já acontecido, o futuro muitas vezes nos amedronta pela incerteza do que pode acontecer. Aqui, o ser humano confronta-se com o desafio de construir a sua história, de conquistar a sua felicidade. Diante do incerto surgem as possibilidades do fracasso, o medo diante do novo, a insegurança frente ao risco.

Desta forma, o futuro nos faz muitas vezes caminhar com lentidão, já que recuar ou parar no tempo é impossível. O importante aqui é perceber que o futuro só se constrói no momento presente.

É na confrontação com a realidade do hoje que surge o perfil de nosso futuro. “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. Não vos preocupeis, portanto com dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo” (Mt. 6, 25-34).

A existência do futuro está na dependência de nossa ação e nossa atitude para com o hoje. Aqui duas lições são fundamentais: a primeira é que o meu futuro já está perdido à medida que o medo domina meu presente, “quem vive temeroso nunca será livre” (Horácio). A segunda é que diante do futuro não há receitas ou trilhas pré-estabelecidas.

Sem dúvida, podemos aprender com as nossas experiências do passado, mas cada um deve encontrar para si próprio o verdadeiro caminho de sua felicidade. Como diz um antigo ditado: “Caminhante, não há caminho. Faz-se caminho ao caminhar”. Diante do passado e do futuro, a melhor forma de ser é tornar-se juiz de nossos atos, analisando-os de forma crítica e fazendo sempre uma avaliação de nossa biografia para poder escrevê-la melhor no presente.

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

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