Polícia

Fogo destrói hotel de anos "dourados" das ferrovias

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

Um incêndio destruiu o Hotel Atlântico, localizado na quadra 1 da avenida Rodrigues Alves, ontem à noite. Apesar das proporções das chamas, que se alastraram por quase todo prédio, até a 1h da madrugada de hoje não havia registro de vítimas. Para apagar o fogo, cuja causa ainda não havia sido apurada, os bombeiros tiveram que interditar a avenida nos dois sentidos.

O fogo começou por volta das 22 horas, no quarto 3, segundo o vendedor Júnior Rodrigues dos Santos, 22 anos, que morava no hotel há seis meses. Ele conta que estava em seu quarto, de número 4, quando percebeu o fogo no cômodo ao lado, ocupado por uma moça. “Eu e outros hóspedes chamamos a moça, pedimos a chave da porta, mas ela estava no banheiro e não abriu. Então arrombamos a porta e o fogo já havia tomado o colchão, chegando no teto, que era de madeira”, lembra.

Santos afirma que saiu correndo do prédio, junto com outros hóspedes. “Tive tempo só de pegar umas três camisetas. Perdi dinheiro e documentos”, frisa. Outro vendedor que era hóspede do hotel, Paulo Sérgio Silva, 30 anos, ressalta que todos saíram pela porta dos fundos, com alguns pertences, porque o fogo impedia o acesso à porta principal.

Alguns dos hóspedes, assustados, tiveram que ser levados para o Pronto-Socorro Central. O JC não conseguiu localizar o dono do imóvel incendiado, mas Aparecida de Moraes, proprietária do Hotel Estoril, diz que o estabelecimento era administrado por terceiros.

Maria Conceição Ferreira dos Santos, dona da Pousada Canaã, localizada ao lado do Hotel Atlântico, diz que usou seus dois extintores na tentativa de apagar o fogo, mas não conseguiu. Dezessete bombeiros gastaram cerca de 14 mil litros de água no combate ao fogo, que ainda não havia acabado à 1h.

A maior dificuldade foi a falta d’água no hidrante mais próximo, o localizado em frente à estação ferroviária. Como o trabalho de rescaldo ainda não havia sido concluído, os bombeiros não sabiam a causa do incêndio e as proporções do prejuízo. Entre os hóspedes, porém, a suspeita é que o fogo tenha iniciado com um palito de fósforo usado para acender um cigarro.

A diária do Hotel Atlântico, segundo hóspedes, era de R$ 5,00 com direito a café preto pela manhã. Os hóspedes, a maioria vendedor ambulante e aposentado, foram acomodados em outro hotel das proximidades, o Estoril.

Região é testemunha da história

A região central da cidade, onde, na noite passada, um incêndio destruiu as instalações do Hotel Atlântico, está vinculada de maneira muito forte aos primórdios do Município de Bauru. Isto porque, além da parte baixa da rua Araújo Leite, onde nasceu a cidade, com a chegada das ferrovias, após a primeira década do século passado, o entorno da Estação Ferroviária ficou sendo um dos setores mais movimentados da cidade, tanto pelas atividades comerciais, quanto pela prestação de serviços com bares, restaurantes e hotéis. E havia ali uma intensa movimentação de passageiros de centenas de localidades situadas ao longo das linhas Noroeste, Paulista e Sorocabana.

Em virtude dessa realidade, muitos hotéis foram construídos naquela área, alguns luxuosos para a época e outros com características mais humildes para atender a todos os clientes. Recentemente, para a construção de uma loja de magazine, a cidade perdeu o Hotel Central, um dos mais tradicionais das primeiras décadas do século passado. Mais próximo da gare, no entanto, havia e ainda há o Hotel Cariani, na Praça Machado de Melo, o mais próximo das plataformas. Mas muitos outros verdadeiros palacetes também foram construídos naquele pedaço, como o Hotel Milanez, o Hotel Avenida, de propriedade da família de Gino Bacci, entre outros. Ainda há cerca de duas dezenas desses estabelecimentos remanescentes dos áureos tempos das ferrovias, todos em torno do pátio ferroviário. Alguns, bem-administrados, continuam prestando bons serviços. Mas, com a crise que – pelo menos por aqui – tomou conta das ferrovias, os velhos hotéis, principalmente os mais humildes, também foram levados pelo tempo ou pelo último trem de passageiros. Aqueles que sobraram, cujos hóspedes de muitos anos atrás acordavam com o apito dos trens, vão sendo substituídos pelos ícones do progresso, como o Central, ou eliminados (quem sabe?) pelas chamas de um hóspede que dormiu com um cigarro aceso ou quis fazer o próprio café no quarto com um fogareiro. (B. Requena)

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