Cultura

Celulari espera evolução da cena teatral de Bauru

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 7 min

Edson Celulari nasceu e iniciou sua carreira de ator em Bauru. Em contrapartida, a cidade nunca pôde assisti-lo ao vivo no palco.

Isso porque Celulari resolveu que não mostraria seu trabalho por aqui enquanto não houvesse um espaço adequado. O Teatro Municipal finalmente virou realidade e o ator agora vai quebrar o estigma, não sem muito comemorar.

“Eu fico orgulhoso, porque uma cidade que se preze, que quer crescer, que quer ter uma população e uma juventude inteligente e quer ter pessoas com opinião, tem que ter um teatro”, disse.

E Celulari vem imponente, encarnando o teatro do absurdo do cultuado autor irlandês Samuel Beckett. “Fim do Jogo”, escrito em 1965, expõe de maneira tragicômica a condição humana, num mundo parado no tempo e no espaço, sem passado, futuro ou memória.

Com texto traduzido por Millôr Fernandes e direção de Francisco Medeiros, neste espetáculo, Celulari retorna a parceria com Cacá Carvalho (o mesmo de “Hamlet”, de Shakespeare, e “Don Juan”, de Molière) na produção teatral. O elenco conta ainda com Lafayette Galvão e Malu Pessin.

“Fim do Jogo”, que estreou em setembro no Pará e percorreu os principais centros do País, será visto no Teatro Municipal de Bauru nos próximos dias 26 e 27, 21h e 28, às 20h30. Os ingressos já estão à venda no local.

Celulari conversou ao telefone com a reportagem do JC Cultura. Falou sobre o espetáculo, do início de sua carreira em Bauru e de como torce pelo crescimento das artes cênicas por aqui. Leia a seguir.

JC Cultura - Montar e interpretar um texto de Samuel Beckett exige muito da produção e do ator? Edson Celulari - Um espetáculo assim só vale a pena ser montado se comunica alguma coisa com as pessoas. Não adianta você querer montar Beckett apenas com a idéia de que ele é um autor importante intelectualmente, com seu universo absurdo. Então, você parte para os conceitos das pausas beckttianas, por exemplo, e a pessoa vê aquilo sem saber o que está acontecendo.

JC Cultura - Resulta em algo apenas para o público do meio teatral. Quem não for fica de fora... Celulari - É, e teatro é comunicação, essencialmente, contanto que a pessoa que esteja assistindo entenda o que está acontecendo, que se comunique de alguma maneira.

JC Cultura - Como esse aspecto é trabalhado neste espetáculo? Celulari - A direção é do Francisco Medeiros, mas tudo começou pela tradução, que é do Millôr Fernandes. Ele não perdeu o humor, pois é um texto que tem muito humor. Um humor cruel, duro, que é o ser humano exposto ali, com seus ridículos.

Essa exposição do ser humano coloca o espectador diante de si próprio, então as pessoas riem. O espetáculo tem uma primeira parte que é muito engraçada, risível. A gente traz para cena aquilo que o autor pede, que é o clownesco. Os personagens são palhaços.

JC Cultura - Mas são palhaços com a cara do Beckett... Celulari - Exatamente, são palhaços que, enfim, te colocam no contraste da profundidade do que se discute. Ele (Beckett) propõe isso até com uma certa farsa, um farcesco, para poder contrapor.

Para chegar ao profundo não precisa ser pesado. Ao contrário, tem que ser leve. A peça tem quatro personagens que estão reclusos a um mesmo espaço, confinados ali, num abrigo, onde tudo lá fora terminou.

Não tem mais nada lá fora de vida. Não tem mais passado, não tem memória, futuro, esperança. Um deles é o centro, é o poder, está cego. O nosso poder está cego. Ele criou uma pessoa, que é o assistente dele, um aprendiz, o Clóvis.

Aí, tem os pais do cego, que já estão em duas latas de lixo, e não têm mais as pernas. Então, é uma peça que trata de pessoas que estão mutiladas. Não exatamente física, mas internamente.

JC Cultura - Como o público tem reagido a isso tudo? Você acredita que o espetáculo tem conseguido passar a essência de Beckett para as pessoas? Celulari - A gente às vezes tem uma idéia de que o público não vai entender o Beckett. De forma alguma. A maneira como a gente apresenta o espetáculo traduz a alma do Beckett, sem nenhum nível de apelação. A adaptação é integral ao texto e o público embarca totalmente.

JC Cultura - Existem dramaturgos contemporâneos que criticam Beckett, que o acham ultrapassado. Qual sua opinião sobre isso? Celulari -< Eu nunca ouvi isso. Ele é um autor primoroso, extremamente contundente para os dias de hoje, importante, fundamental, leva à reflexão. É um tipo de teatro que não é, digamos, um teatro popular, mas um teatro muito importante.

Para você ter uma idéia, são quase 80 textos do Beckett montados no mundo inteiro hoje. Não é à toa.

JC Cultura - Que outros autores você compararia com Beckett em importância? Celulari - Ele é único. Ele tem um espaço muito particular, de um universo cético. Essa coisa do absurdo dele... Tem outros autores do teatro do absurdo que não têm essa mesma contundência. A obra dele tem 50 anos e é muito atual. E ele vai com profundidade e ao mesmo tempo no essencial, aí ele vai atravessar o tempo, vai ser eterno.

JC Cultura - Você é bauruense. Onde você morou em Bauru e como foi o começo de sua carreira? Celulari - Eu morei no IPA (Instituto Penal Agrícola), até os meus 12 ou 13 anos, na zona rural. Estudei no Moraes Pacheco, na Bela Vista, e comecei a fazer teatro ali e no (colégio) Preve. Aí veio o grupo do Paulo Neves, que foi com quem eu comecei realmente a fazer teatro. Também fiz teatro com o Ricardo Landi, na Sociedade Italiana Dante Alighieri.

JC Cultura - Você e Paulo Neves até tiveram um reencontro recentemente na televisão, no programa do Faustão... Celulari - É verdade. Aliás o Faustão é cúmplice de uma coisa que aconteceu nessa relação minha com a cidade de Bauru, que é o fato de a cidade não ter, até um tempo atrás, um teatro municipal.

E toda vez que eu ia no Faustão ele cobrava “Tá aí, o Celulari, que é de Bauru, aquela cidade que não tem teatro. E aí, Celulari, já tem teatro lá?”. E eu dizia “não, não tem teatro, enquanto não tiver teatro eu não vou à cidade para apresentar meus projetos”.

E desta vez aconteceu de eu estar com um projeto, o teatro (Municipal) já é uma coisa concreta, está aí na cidade e é muito bacana, eu fico muito orgulhoso, pela cidade.

JC Cultura - E existe uma certa ansiedade em Bauru por sua apresentação... Celulari - Eu digo que fico orgulhoso pela cidade, pelo espaço. Porque uma cidade que se preze, que quer crescer, que quer ter uma população e uma juventude inteligentes, quer ter pessoas com opinião, tem que ter um teatro.

E ter uma freqüência de espetáculos, não só de grupos externos, como o meu projeto, mas que a própria expressão teatral da cidade aconteça nele. Toda grande cidade, hoje, no mundo, sempre foi assim, não apenas hoje, tem o seu teatro, a sua voz. O teatro é uma voz. E é muito bacana que esteja acontecendo isso.

Eu sou mais um projeto e, por acaso, sou filho de Bauru, com muito orgulho. Mas é muito mais importante que a cidade tenha esse teatro.

Serviço

“Fim do Jogo”, de Samuel Beckett, com Edson Celulari, Cacá Carvalho, Lafayette Galvão e Malu Pessin, direção de Francisco Medeiros, dias 26 e 27, 21h e 28, 20h30, no Teatro Municipal de Bauru. Ingressos à venda no local: R$ 25,00 (antecipado até dia 25), R$ 15,00 (estudantes) e R$ 30,00. Avenida Nações Unidas, 8-9.Informações (14) 235-1312 / 235-1072.

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