Enquanto Renato Borghetti empunhava sua “acordeonaâ€, sexta-feira no Sesc, imaginei uma comparação entre a sanfona e o futebol. Mesmo que originário de outro país, o instrumento adotado e recriado pelos brasileiros passou a ser uma griffe da sonoridade nacional.
Antes de comparar os solos de Gonzagão com os dribles de Garrincha, talvez a principal reflexão que o projeto “O Brasil da Sanfona†possa provocar é sobre os caminhos da música brasileira.
O projeto, espécie de circo multimídia da cultura popular, ficou quase um mês no Sesc Pompéia, chegou ao Interior paulista via Bauru e agora segue para Araraquara e Piracicaba.
Na capital, ele foi divido em “Noites do Nordesteâ€, “Noites do Brasil Centralâ€, “Noites de São Paulo†e “Noites do Rio Grande do Sulâ€. Em um esquema mais modesto, a itinerância trouxe duas noites para Bauru.
A “Noite de São Pauloâ€, na quinta, fechou com a sofisticação de Toninho Ferragutti, depois de um divertidíssimo Mário Zan, das ribeirãopretanas Gilda Montains e Meire Genaro, que se aproximaram do erudito, e do quarteto de Gabriel Levy.
Na sexta, foi a vez dos gaúchos, que mostraram intimidade com a sanfona. Acompanhado pela guitarra jazzy de Daniel Sá, Borghetti presenteou o público com versões agauchadas de temas nordestinos como “Baião†e “Asa Brancaâ€.
“Você pode ser popular sem ser bregaâ€, comentou a diretora do projeto, a incensada Myriam Taubkin. Para os que pensam em uma política cultural para Bauru e região o comentário da produtora deveria ser tomado em consideração.
Afinal, quando se pensa em uma cultura popular, ou até mesmo em uma política de cultura para a maioria, quase sempre se descamba para o popularesco e para o kitsh - cultura pretensamente de elite, produzida em série como pastéis na feira de domingo.
Em menção a essas distorções entre o gosto do povo e o gosto da elite para o povo, a frase mais interessante que conheço é de Gilberto Gil: “O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe.â€