Marília - Uma pesquisa sobre as visões do processo saúde-doença pelos brasileiros que trabalham no Japão está sendo conduzida pelo professor Ricardo Shoiti Komatsu, diretor de Graduação e Presidente do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros da Faculdade de Medicina de Marília (Famema), que permanecerá por duas semanas no Japão realizando um trabalho de campo.
O fenômeno migratório de japoneses para o Brasil atingiu seu auge na década de 30. Entre 1908 e 1986, cerca de 255 mil imigrantes chegaram ao País procedentes do Japão. O contra-fluxo migratório de brasileiros, especialmente descendentes de japoneses, ao Japão, passou a ocorrer a partir da década de 80, intensificando-se nos anos 90. Estima-se que cerca de 250 mil decasségui vivam hoje no Japão.
O termo decasségui é uma transliteração portuguesa da palavra japonesa dekasegi, que se refere à prática do estabelecimento temporário de uma pessoa fora de seu local de origem a fim de trabalhar e com a intenção de retornar à sua terra natal.
Segundo a assessoria de imprensa da Famema, existem poucos estudos sobre a saúde do trabalhador estrangeiro no Japão e nenhum, especificamente, sobre os brasileiros. Para o professor, a motivação para pesquisar o olhar decasségui do processo saúde-doença é fruto da necessidade identificada pelo contato cotidiano do pesquisador com decasséguis que retornam enfermos, alguns gravemente, ao Brasil.
O estudo tem como objetivo analisar a visão dos brasileiros decasséguis no Japão sobre o processo saúde-doença, buscando confluências e contradições nas suas idéias, e realizar uma análise exploratória da vida dekassegui no Japão, com ênfase no acesso aos serviços de saúde.
Os dados serão colhidos em entrevistas individuais, com brasileiros dekasseguis no Japão e, na seqüência, serão aplicados questionários semi-estruturados pelo pesquisador. Como critérios de inclusão no estudo, é necessário ser brasileiro descendente de japoneses e estar trabalhando no Japão há pelo menos 6 meses.
Os relatos da experiência de decasséguis brasileiros serão colhidos em uma ou duas localidades no Japão que concentrem número considerável de trabalhadores brasileiros.
Para o professor Komatsu, o fenômeno decasségui coloca em questão a própria identidade cultural destes brasileiros dentro do contexto migratório sendo tratados como “japoneses†no Brasil, e brasileiros no Japão .
Na opinião de Komatsu, a compreensão do estado de saúde ultrapassa os sinais e sintomas reveladores de mera presença ou ausência de doenças. O modo de vida, ou práticas da vida cotidiana, se relaciona com o complexo de determinantes – processos que produzem efeitos sobre a saúde de indivíduos ou populações.
Com o melhor entendimento deste olhar dekassegui, o professor acredita que propostas de intervenções envolvendo campanhas específicas de informação e prevenção, educação em saúde, bem como programas específicos de atenção à saúde poderiam ser criados e desenvolvidos.
O professor Komatsu fica no Japão de 20 de abril a 5 de maio. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 421-1825 ou 433-3811.