Simón Bolívar, conhecido como El Libertador, nasceu em 24 de julho de 1783, no seio da burguesia nativa da Capitania Geral da Venezuela. Apesar do imenso patrimônio de sua família - composta de representantes da Mantuana, a elite econômica da região - dedicou sua vida à causa da emancipação dos povos latino- americanos do jugo espanhol. Estando à frente do Exército Libertador, Bolívar derrotou os colonizadores, decretou a independência e instaurou o novo governo popular venezuelano, em 1810. A independência face os espanhóis, no entanto, não foi suficiente para impedir que as oligarquias locais traíssem o povo venezuelano e colocassem a nação sob a esfera de influência do imperialismo estadunidense. O exemplo mais evidente do poder imperialista foi o financiamento dado pelo presidente Roosevelt à guerra do Panamá, uma região até então pertencente à Venezuela e que passou para o controle dos EUA, interessados no potencial econômico do canal que liga os Oceanos Atlântico e Pacífico. A associação das oligarquias locais com os interesses ao norte do Rio Bravo foi determinante para o assassinato de El Libertador e abortar o seu plano de construção da Grande Colômbia - uma região que compreende os atuais territórios da Colômbia, Venezuela e Panamá.
Hugo Chávez, quase dois séculos após a primeira independência da Venezuela, chegou ao poder do país, eleito com esmagadora maioria de votos, prometendo resgatar os ideais de Simón Bolívar. Ele já havia tentado chegar ao poder anteriormente, numa tentativa de golpe de Estado contra o presidente Carlos Andrés Peres, e fracassou. Foi preso, cumpriu a pena que lhe foi imposta, ganhou a liberdade e disputou as eleições presidenciais, conseguindo com as armas da crítica aquilo que não conseguira com a crítica das armas. Ele convocou uma nova constituinte, também eleita pelo voto popular, que aprovou uma nova constituição e lhe outorgou amplos poderes. Também mudou o nome do país, que passou a se chamar República Bolivariana da Venezuela, em homenagem a El Libertador, e iniciou amplas reformas estruturais, que incluíam um programa de reforma agrária e redistribuição da renda (sobretudo por meio de impostos progressivos que oneravam a burguesia).
As elites econômicas do país, mais uma vez, deram sinais de que não pretendem governar com o povo. Aquela que seria a segunda e definitiva independência do país deu lugar às articulações entre a federação de indústrias e o comando do exército para obstar as reformas de Chávez, que já estavam sendo boicotadas pela imprensa venezuelana, pelos organismos internacionais e pelas altas finanças nsta era de mundialização do capital, sem falar, é claro, daqueles que temem frente às ameaças de redução da produçào de petróleo da Venezuela, um dos maiores exportadores mundiais do produto.
Chavez, evidentemente, esteve muito longe de cumprir o que havia prometido quando eleito. A população continua tão pobre quanto antes, e a insatisfação social crescia cada vez mais. A solução encontrada pelas elites foi pactuar com o comando do exército um golpe militar para depor Chávez e colocar um fantoche dos interesses do capital no comando do Estado. Suas primeiras atitudes, menos de 24 horas depois de assumir o poder, foram as de dissolver o congresso e destituir a suprema corte de justiça, decisões não amparadas pela lei e sem qualquer respaldo popular. Com um empresário na chefia do Estado, Pedro Carmona, o FMI tratou de reconhecer imediatamente a “legitimidadeâ€do novo ditador e lhe oferecer um generoso empréstimo para assim ter meios mais sutis de controlar a economia do país, por meio de “conselhos†e lições de casa que precisam ser feitas, tal como ocorreu com a Argentina. O resultado, infelizmente, todos sabemos...
O sonho da segunda e definitiva independência da Venezuela fica assim obstado, seja pela incapacidade de Hugo Chávez em estabelecer uma base de sustentação ao seu programa de reformas estruturais - diria uma quase-revolução via democrática/eleitoral - , seja pelas elites do país, que preferem entregar o comando da nação aos interesses do grande capital internacional, excluindo qualquer possibilidade de participação popular na construção de uma sociedade mais justa. (Pedro Gustavo Fernandes Fassoni Arruda, advogado e pós-graduando em Ciências Sociais pela Unesp)