Pesca & Lazer

História de pescador - Jacaré - rio Cristalino

(*) Felisdeu Leão
| Tempo de leitura: 4 min

Estávamos acampados à beira de um lagoão, próximo ao Araguaia, um reservatório natural de águas perenes, incrustado em pleno recôndito mato-grossense, medindo uns oito quilômetros de comprimento e dois e meio de largura, uma das maiores cacimbas naturais da região. Nessa imensidão de águas represadas eram encontrados, com facilidade, os famosos pirarucus, presas fáceis para os pescadores que os caçavam inclementes, de maneira predatória, permitida que era sua pesca; hoje severamente proibida. De peixes maiores já tínhamos o suficiente para satisfazer nossas pretensões. Éramos eu, Calixto Zaine, e o saudoso Galdino de Almeida Prado, ex-dono da propriedade em que estávamos arranchados. O Calixto, um excelente pescador de peixes grandes, é também muito chegado na pesca da sardinha. Certa vez, no Araguaia, pescou tantas que daria para encher latas de 20 litros e assim tornou-se nosso pescador oficial de iscas. Entediados, resolvemos diversificar nossas atividades haliêuticas em outro local; como opção nada melhor que o rio Cristalino, distante uns trinta quilômetros de nosso acampamento, famoso pela piscosidade.

O senhor Galdino, além de pôr à nossa disposição um jipe e carreta, ainda se prontificou a nos guiar na travessia desse estirão graminoso; do contrário seria o mesmo que um turista aventurar-se no deserto sem a companhia de um beduíno e seu inseparável camelo. Chegamos! Nosso reduzido acampamento foi rapidamente instalado, bem às margens do rio; sentamo-nos ao lado de uma fogueira crepitante que lançava fagulhas, enchendo de pontos brilhantes o ambiente já escurecido com a chegada da noite. Conforme seu nome indica, o Cristalino e seus afluentes são de águas tão transparentes que impressionam, deixando à mostra toda uma variada gama de vida aquática, tal imenso e natural aquário, formado por Deus, em pleno sertão de Mato Grosso. De madrugada latidos nervosos de nosso cãozinho nos acordaram: seriam bulhas de pequenos animais ou bramidos de “macharrão” procurando sua fêmea?

Armas empunhadas, dedos trêmulos em seus gatilhos, ficamos em alerta; os latidos, tímidos a princípio, tornaram-se mais agressivos e insistentes. Mais receosos vasculhamos a área com nossos possantes celibins: tudo silêncio; o “guariba” se acalmou, o que nos deixou também mais aliviados. Outro dia... Corpos restabelecidos, adrenalina começando a fluir, instigava-nos às atividades piscatórias. Subimos o Cristalino em marcha lenta: era necessário um reconhecimento prévio do ambiente que parecia hostil à nossa presença. À frente um filhote saltou, provocando um reboliço entre peixes menores que fugiam desesperados de seu predador. Ficamos animados: eles estavam lá; soltamos o barco à deriva até encontrarmos um remanso, cheio de tranqueira e também de peixes. Alguns minutos de silêncio e podíamos ver os tucunarés se aproximando de mansinho. Eu e o Calixto Zaire, arremessávamos nossas colheres de metais brilhantes providas de penachos coloridos em suas direções: mal batiam n’água e eles as abocanhavam gulosamente, sem pressentirem os perigos mortais que os esperavam. Essa inocência animal se devia a nenhum contato com seres humanos que os assustassem, devido o local quase inacessível.

À semelhança dos dourados, esses peixes briguentos dão saltos espetaculares quando fisgados, procurando sempre as tranqueiras na ânsia de escapar; proporcionam sensações agradáveis aos pescadores de peixes menores, que lhes dão preferência por sua tenaz agressividade. Nosso viveiro já estava lotado de tucunarés; escolhíamos os mais carnudos que eram salgados e os menores soltos. Agora, vamos à procura de peixes maiores, as pirararas, por exemplo.

Poitamos. Enquanto aguardávamos a aproximação das espécies mais avantajadas, íamos varrendo as margens do rio com os fachos de nossos faróis de milha: seqüências de olhos brilhantes, imóveis, apareciam faiscantes, como se fora congestionamento de carros parados, com seus faróis acesos, retornando do litoral em noites chuvosas: eram olhos brilhantes de centenas de jacarés. Vez outra, pontos luminosos maiores, mais separados, se sobrepunham, talvez de alguns animais de grande porte, que circulam livres de ameaças de caçadores que lá não aportam.

Poucos minutos se passaram e puxada violenta arrastou nosso barco, com poita e tudo, em direção ao poço mais fundo; pensávamos tratar-se de algum “filhote”, ou mesmo de uma piratinga. Linha resistente suportou a força de tração que eu, Calixto e o suposto peixe exercíamos. Surpresa: enorme cabeça de jacaré papo-amarelo apareceu, cravando suas poderosas mandíbulas na borda da embarcação e lá ficou se debatendo furiosamente. Rápido peguei a linhada para libertá-lo, no que fui veementemente impedido pelo Calixto que adora uma rabada, seja do que for: sua carne é muito saborosa, dizia ele e seu abate ainda era tolerado.

Fizemos duas laçadas em sua cauda, concentramos nossos pesos na borda contrária, o que não foi difícil, pois o Calixto está bem nutrido e rechonchudo e assim restabelecemos o equilíbrio. Ao jogá-lo dentro do barco ele nos pareceu bem mais crescido; seria ilusão de escala? Notamos, tardiamente, não caber os três juntos num mesmo barco: eu, Calixto e ele, o renitente e volumoso jacaré: sobrou para nós um mergulho forçado nas águas tépidas do saudoso rio Cristalino.

O Araguaia é assim: alguns momentos de tensão e outros de prazerosas atividades.

Felisdeu Leão é pescador e dentista (capítulo de Canoeiros do Araguaia)

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