A previsão de se colher uma super safra de cana-de-açúcar neste ano deverá ser frustrada. De acordo com produtores da região, a produção, que começa a ser colhida no início de maio, não deverá ultrapassar os índices do ano passado, que ficou na faixa de 250 milhões de toneladas em todo o País.
“O clima não foi muito favorável e a expectativa de 15% de aumento da colheita não deverá se concretizarâ€, destaca o presidente da Associação dos Produtores de Cana da Região de Jaú (Associcana), Francisco Paulo Brandão.
A premissa de que isso poderia ser positivo para o setor, já que quanto menor a oferta, maior o preço, não é admitida por Brandão. Ele diz que o momento é muito favorável para os sucroalcooleiros. “Temos um mercado que está se abrindo e o ideal seria ter produto para comercializarâ€, explica.
A tonelada de cana está sendo vendida atualmente a R$ 28,00, segundo o presidente da Associação dos Fornecedores de Cana da Zona de Lençóis Paulista e vice-presidente do Conselho de Produtores de Cana, Açúcar e Álcool de São Paulo, Hermínio Jacon. No entanto, existe a perspectiva de uma queda de preço até o final da safra. “Foi divulgado que neste ano teríamos uma produção muito alta, o que criou um clima de retração no setorâ€, diz.
Ele destaca que recebeu previsões da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e da Bolsa de Mercadorias&Futuros de que o preço da tonelada de cana cairia para R$ 22,00, valor considerado muito baixo. “Não cobre nem os custosâ€, diz.
Maria Helena Cardia, produtora de cana-de-açúcar de Agudos, conta que também ouviu rumores de desvalorização da tonelada do produto e está preocupada. “O valor atual é considerável suportável pelos produtores. Se baixar, vai ficar complicadoâ€, enfatiza.
Ela explica que a manutenção do canavial demanda investimentos altos. “Os insumos agrícolas são cotados em dólar e a moeda norte-americana não pára de subir.â€
Brandão também ressalta o custo dos produtos utilizados na cultura da cana como um dos entraves para o lucro dos produtores. “A manutenção do canavial ficou muito caraâ€, diz.
Novos mercados
Uma comissão formada por executivos chineses esteve nesta semana, em São Paulo, com o objetivo de negociar equipamentos para a produção de álcool anidro. A idéia é iniciar lá a produção do etanol no ano que vem, para misturá-lo à gasolina.
Para os empresários brasileiros, o incentivo à mistura é positivo, pois abre caminho para a exportação do produto. O Brasil é hoje o maior produtor de álcool do mundo, com um total de 13 bilhões de litros.
O interesse em usar o álcool como combustível está aumentando no mundo. Para a produtora Maria Helena Cardia, essa é uma tendência que deve valorizar o setor. “O álcool é menos poluente e mais barato que o petróleo e isso já chama a atenção de outros paísesâ€, confirma.
No Brasil, os constantes aumentos da gasolina estão levando muitos consumidores a investirem em carro à álcool. “Muita gente está transformando o veículo a gasolina em carro a álcoolâ€, salienta a produtora.
De acordo com Hermínio Jacon ainda estão investindo pouco nesse setor. “Está na hora de mudar essa concepção dos fabricantes de veículosâ€, diz, referindo-se ao investimento na produção de veículos a álcool. Hoje, de cada 100 carros produzidos no Brasil, apenas um utiliza o derivado da cana como combustível. Os dados são da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
O Governo Federal está avaliando, ainda, o aumento do percentual de adição de álcool anidro na gasolina para 26%. Atualmente, utiliza-se 24%. Se for aprovada a alteração, o consumo adicional significará um total de 250 milhões de litros por ano.
Respirando aliviado
Os produtores de cana-de-açúcar vivem um momento importante de renascimento do setor. No final da década passada, eles atravessaram uma crise sem precedentes. A tonelada da cana chegou a ser comercializada a R$ 7,00 devido ao excesso de álcool no mercado. “O mercado estava fechado naquela época e a produção tinha sido muito grandeâ€, conta Maria Helena.
O reflexo disso foi que muitos produtores abandonaram o plantio de cana-de-açúcar e partiram para outras áreas, como a pecuária por exemplo. “Eu fui a única que continuou produzindo cana em Agudosâ€, salienta Maria Helena.
Ela lamenta esse fato, destacando que o setor canavieiro é um dos que mais empregam trabalhadores rurais. “Muita gente ficou sem ter emprego no campo com essa mudançaâ€, relata.
Agora, com a recuperação do setor, ela diz que os investimentos na produção de cana estão partindo de produtores que estão migrando de outros setores. “Tomara que haja uma retomada no setor, para que a economia do País seja incrementadaâ€, salienta.