Ruth Nham ensina balé clássico em Bauru desde 1970. Mais que uma personalidade da cultura, ela é uma testemunha do tempo em que as “moças de boa família†rodopiavam vestidas de rosa. Se não o faziam, pelo menos sonhavam com isso. E como nos ensina Guimarães Rosa, “se sonha, já se fezâ€.
Sonhar e fazer são duas coisas que Ruth Nham conhece bem. Isso porque ela nunca desistiu da dança. Ainda menina, no Teatro Municipal de São Paulo, era uma estrela no palco.
Casou-se e, para acompanhar o marido, mudou para Bauru. Tinha, então, duas opções, esquecer o balé ou mostrar o que sabia para a cidade. Não teve dúvida, abraçou o sonho.
Hoje, 32 anos depois, Ruth se orgulha de ter ajudado a construir a história da dança na cidade e, se ainda hoje existem moças que rodopiam vestidas de rosa, boa parte disso deve-se ao seu esforço. Para ela, no entanto, não restam dúvidas de que, na área da dança, o quadro atual é pior que no passado.
“O balé, especialmente o clássico, é uma faculdade. Com as dificuldades econômicas, fica difícil para os bailarinos se empenharemâ€, opina. Mas não se trata de um fenômeno bauruense, na sua visão, ela sustenta que o balé passa por um período de retração em todo o mundo.
“Quando aperta a situação financeira, a primeira coisa que a família faz é tirar a filha do balé. O curioso é que o menino continua no futebol, porque imagina-se que se ele for bom no futebol, ele pode ganhar dinheiroâ€, desabafa Dóris Nham Marino, filha de Ruth e bailarina como a mãe.
Falta incentivo
Dóris reclama da falta de mais eventos para mostrar e incentivar a dança na cidade e, claro, patrocinadores. “Precisamos de pessoas engajadasâ€, resume.
Ruth comenta que antigamente a procura era “muito maiorâ€. E lamenta também a falta de interesse de rapazes pela dança, mesmo que o preconceito tenha diminuído em comparação com o que ocorria há 20, 30 anos. Para ela, no entanto, os rapazes também fogem do balé porque sabem que dificilmente vão se manter com a dança.
“A minha mãe é estritamente artista, o lado comercial não existe nela. Se ela pudesse dar aula gratuitamente para todo mundo, desde que ela não morresse de fome, ela faria. Eu tenho toda certeza de que o sonho da minha mãe é ver produção, não só de quantidade, mas de qualidadeâ€, comenta Dóris.