Mulher

A beleza através dos tempos

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Quem nunca se espantou com o visual roliço das musas renascentistas em quadros de pintores famosos como Da Vinci. Michelângelo Tintoretto? Naquela época, mulheres com a aparência de Claudia Schiffer ou Cindy Crawford poderiam ser consideradas muito feias ou até mesmo serem confundidas com portadoras de alguma doença.

Joana Prado, com seus músculos definidos e seios siliconados também não posaria para pintor algum. Naquele período, como até a segunda década do século 20, a representação do nu feminino na arte ocidental, em outras palavras, a manifestação da beleza da mulher, era caracterizada pela exuberância das formas.

Atualmente, a ditadura da beleza impõe que o belo é ter o mínimo gordura no corpo. Curvas? Mínimas, permitidas apenas quando delineadas por seios avantajados - naturais ou não. Segundo a escritora americana Naomi Wolf, autora de “O Mito da Beleza”, publicado pela Editora Rocco, os padrões estéticos atuais exigem uma mulher 33% mais magra do que a média.

Isso significa que milhares de mulheres que se consideram verdadeiras Willies (aquela orca do filme infantil), na realidade estão perfeitamente dentro do seu peso proporcional. “Nunca se viu uma mulher tão esquelética como essa que obedece ao padrão atual de beleza”, critica Wolf que acredita que a sociedade moderna criou um padrão de beleza no final do século 20, que não corresponde ao da maioria das mulheres, o que faz com todas elas fiquem fora de padrão.

De volta às origens

Os conceitos de estética como se conhece hoje surgiram na Grécia antiga. Os gregos acreditavam que o belo era o que obedecia uma certa proporção, chamada de “proporção áurea”, explica a jornalista e consultora de moda e etiqueta Claudia Matarazzo, no seu livro “Beleza 10”, publicado pela Editora Senac. A beleza de uma pessoa era determinada pelas proporções e distâncias entre as partes do corpo. Por exemplo: a largura do nariz deveria ser igual à distância entre a sua base e a pálpebra inferior.

Apesar de rigorosos, os gregos não se mostravam tão preocupados em aplicar suas teorias em relação às mulheres que, segundo Aristóteles, seria um desvio do modelo masculino e, desta forma, não se enquadraria nas características usadas para definir a beleza. “Apesar dessa opinião, as histórias gregas estão repletas de mulheres belíssimas, que seduziram seus apaixonados de tal maneira a ponto de levá-los a cometer desatinos, como Helena de Tróia”, lembra Matarazzo.

Além disso, a arte grega também se mostrou generosa com suas fêmeas, como pode atestar a famosa Vênus de Milo, que não está longe em visual das musas renascentistas e, mais tarde, das modelos francesas que aparecem nuas nas fotografias eróticas tiradas no final do século 19. Isso porque, no geral, até esse período, apesar da moda ter sofrido suas variações regionais, o padrão de beleza feminino não havia mudado muito: ventres grandes e maduros do século 15 ao 12, ombros e rostos rechonchudos no início do século 19, coxas e quadris volumosos até o século 20...

Adeus as curvas

Enfim, foi somente no final do século 20, que o visual esquelético/malhado que impera hoje mudou tudo. E mesmo assim não foi de uma vez. Até o final dos anos 60, as mulheres - que agora tinham o cinema e os concursos de misses para se espelharem - queriam ter um corpo como o de Marylin Monroe, Martha Rocha. Mulheres “carnudas”.

No final dessa década, quando a mulher passa a se integrar no mercado profissional, surge o estilo Twiggy, da magérrima modelo inglesa que marcou época por sua falta de curvas e visual andrógino e infantil ao mesmo tempo.

Os anos 70 trouxeram as esguias à tona, foi a época de Jane Fonda, das Panteras e Sônia Braga. Mulheres que, se não eram completamente sem curvas, estavam longe de ter todo o “volume” de Sophia Loren, por exemplo. A década seguinte trouxe a malhação e a preocupação com o visual vinculada à saúde. As academias prolifereraram as primeiras mulheres musculosas começaram a aparecer. Foi uma era que teve seu ápice no começo dos anos 90, com aparição da, antes sem graça, Demi Moore, com um corpo esculpido em salas de cirurgia e academias no filme “Striptease”.

A malhação ainda não saiu de moda mas, com certeza, produz corpos que estão a quilômetros de serem considerados padrões de beleza pelo mundo da moda e pela indústria em geral, que, na opinião de Naomi Wolf conspiram contra a mulher. Para a autora, ao exigir que o público feminino tente atingir um padrão que exige um extremo sacrifício (exercícios, dietas, produtos diet), a indústria faz com que a mulher se desvie do confronto direto com o homem no mercado de trabalho.

Teorias conspiratórias à parte, curiosamente no Brasil, as mulheres ainda têm escapado das severas regras impostas pela moda (e pelo visual como o de Gisele Bündchen), devido ao sucesso que mulheres como Sheila Mello, Luma de Oliveira e Suzana Alves continuam fazendo apesar de estarem fora dos padrões mundiais.

Isso se deve a fato de que, além das tendências mundiais, cada cultura cria e desenvolve seus próprios gostos. É aquela velha história de que os americanos gostam de seios fartos, enquanto os brasileiros preferem as nádegas avantajadas, que, no fundo carrega uma certa verdade.

Modismo exagerado

“A mulher se preocupa mais com o lado estético do que o homem”, afirma a psicóloga Regina Furigo, que complementa: “Às vezes, essa preocupação não é só em ficar bela para o homem, mas também para que outras mulheres a admirem e invejem”, diz.

A explicação para esse comportamento, na opinião da psicóloga, talvez seja uma certa competitividade. É como se fosse um teste no qual o objetivo é saber se está realmente bela ou o que acontece na medida em que uma mulher provoca uma reação na outra com o seu visual.

Como a mulher é mais detalhista que o homem, sua opinião conta mais. “Se uma mulher percebe que a outra a viu como uma pessoa bem vestida, bonita, ela respeita essa opinião porque parece que o critério feminino é maior do que o masculino”, diz.

Na opinião da psicóloga, algumas mulheres na atualidade estão exagerando quando buscam estar sempre se encaixando dentro dos padrões de beleza vigentes, pondo e retirando silicone, fazendo lipos, etc. “As pessoas, principalmente no Ocidente, parecem estar preocupadas mais com as coisas de consumo rápido, de moda, descartáveis, do que com os valores eternos, inclusive esteticamente”, afirma.

A mulher, na opinião de Furigo, deve procurar entender qual o seu tipo, o seu padrão de beleza e tentar valorizá-lo ao invés de buscar uma padronização na qual todas as mulheres têm o mesmo tipo de cabelo, de seio, etc. Ela cita como exemplo a ex-primeira dama americana Jacqueline Kennedy, que não seguia a moda à risca, mas preferia roupas que eram próprias para o seu tipo físico mesmo que isso significasse pouca variação. “Esse é o tipo de mulher que se destaca por seu estilo”, explica.

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