Geral

Bauru tem 0,8% da verba da Fapesp

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 7 min

No ano passado, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) liberou cerca de R$ 397 milhões para as universidades investirem no aprimoramento do setor científico. Bauru, embora seja considerada uma cidade universitária, ficou com apenas 0,8% dessa fatia, ou seja, R$ 3,2 milhões.

Esse total foi destinado à três instituições de ensino - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade do Sagrado Coração (USC).

De acordo com o diretor científico da Fapesp, José Fernando Perez, esse valor poderia ter sido maior. “Existe um potencial grande de demanda que não está sendo aproveitado”, salienta.

Ele não soube especificar isso em números, mas destacou que, pela vocação da cidade para o ensino, haveria condições favoráveis para o desenvolvimento de muitos outros projetos de pesquisa.

Perez explica que essa cultura de não se voltar para a área acadêmica é um traço marcante do País. No entanto, destaca que a tendência é de mudanças. “Nos últimos 35 anos, poucos países do mundo conseguiram criar um parque de pesquisa tão importante quanto o do Brasil”, salienta.

A deficiência, segundo ele, ainda está no envolvimento do setor privado com a área científica. Poucas empresas investem suas fichas no financiamento de estudos avançados no País.

Os recursos da Fapesp são provenientes, principalmente, do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), do qual recebe 1% da arrecadação em todo o Estado.

Em 2001, as três universidades públicas de São Paulo receberam 74,5% do total das verbas disponibilizadas pela instituição de amparo à pesquisa, sendo 11,8% para a Unesp, 16,9% para a Unicamp e 45,8% para a USP. Vale lembrar que a Fapesp não é a única instituição de incentivo à pesquisa científica que dispõe recursos para as universidades.

Interesse crescente

Neste ano, a expectativa é de que aumente o número de trabalhos científicos e, conseqüentemente, o investimento em pesquisa e tecnologia por parte de instituições de amparo. A perspectiva é baseada numa tendência crescente do interesse nesse tipo de trabalho acadêmico. “Há três anos, tínhamos trabalhos apenas de alunos da graduação. Hoje, são sete estudantes de mestrado e um de doutorado”, destaca Carlos Roberto Grandini, professor assistente doutor do Departamento de Física da Unesp de Bauru. Para ele, a evolução nesse sentindo é visível.

O diretor científico da Fapesp, José Fernando Perez, destaca que essa tendência é nacional. Para provar isso, ele cita que, há 20 anos, formavam-se no País cerca de 500 doutores por ano. Hoje, são 6 mil. “A área de pesquisa tem um histórico recente. Há 35 anos, por exemplo, o curso de pós-graduação estava sendo implantado no Brasil, apenas com o mestrado”, enfatiza.

Para Grandini, o valor recebido pelas universidades de Bauru para a pesquisa está acima da média. Ele compara, por exemplo, com São Carlos, que teria conquista um repasse de R$ 5 milhões no ano passado. “Aquela cidade possui duas universidades de peso (a USP e a Universidade Federal) e tem uma tradição de 50 anos de pesquisa. A Unesp de Bauru é jovem nesse sentido, pois tem cerca de cinco anos de investimentos no setor científico”, salienta.

Os meios mais usuais que a Fapesp utiliza para o fomento à pesquisa científica e tecnológica são as bolsas e os auxílios.

As bolsas variam de R$ 250,00 a R$ 2.860,00, dependedo do enquadramento do pesquisador.

Já os auxílios consistem na vinda de pesquisadores visitantes, na ajuda à publicação de teses, na organização de eventos científicos ou tecnológicos, entre outras coisas.

Critérios rígidos

Para ter acesso aos recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa, o interessado tem de apresentar um projeto muito bem elaborado. De acordo José Fernando Perez, a disputa pelas bolsas é altamente competitiva. “A Fapesp dispõe de assessores escolhidos entre cientistas de reconhecida competência, de acordo com a natureza e a área do conhecimento em que se insere cada projeto”, explica o diretor científico da Fundação.

Só para se ter uma idéia da concorrência, no ano passado foram feitos 1,5 mil pedidos de bolsas à Fapesp. Apenas 450 foram aprovados. “Os critérios são muito rígidos”, frisa Perez.

Para ter acesso à verba, é preciso apresentar um projeto muito bem elaborado, com objetivos relevantes e atuais, além de mostrar qual a contribuição que a pesquisa pode trazer para o avanço da área analisada.

Pesquisa científica é tendência de mercado, diz professora

O interesse pelo desenvolvimento de pesquisas científicas e tecnológicas sempre foi uma prerrogativa das universidades públicas. Agora, buscando se destacar no concorrido mercado e também para atingir as expectativas do Ministério da Educação (MEC), que passou a cobrar um posicionamento nesse sentido, as instituições de ensino particular estão procurando estimular seus alunos a se dedicar à pesquisa.

A Universidade do Sagrado Coração (USC), por exemplo, criou recentemente a pró-reitoria de pós-graduação e pesquisa. A posse do novo diretor, José Jobson de Andrade Arruda, realizada no último dia 11, foi marcada pela visita de dois representantes de peso da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - José Fernando Perez e Joaquim Engler.

A USC visa aprimorar a área de pesquisa, buscando verba junto às instituições de fomento, ajustando suas instalações às necessidades dos pesquisadores e trazendo cientistas de renome para trabalhar com os alunos de pós-graduação. A informação é de Arruda, logo ao assumir a pró-reitoria.

Antes mesmo de ser empossado, ele conseguiu junto à Fapesp uma verba para adequar a estrutura do Núcleo de Pesquisa e Documentação Histórica de Bauru e Região Gabriel Ruiz Pelegrina, que pertence à USC.

De acordo com a coordenadora do curso de História da universidade e assessora de pesquisa do Núcleo, Terezinha Santarosa Zanlochi, a fundação já liberou a primeira parte dos recursos, que serão aplicados na climatização e na organização dos arquivos. “Os documentos do núcleo são muito antigos e precisam de uma conservação adequada”, explica.

No local, encontram-se, por exemplo, o arquivo da Câmara Municipal de Bauru desde 1896. “Conseguimos a verba depois de mostrar para a Fapesp que o objetivo do núcleo é atender às necessidades da coletividade. Ou seja, estamos fazendo o papel de instituições públicas”, explica a coordenadora.

A segunda etapa do projeto será a digitalização dos documentos, para torná-los acessível ao público sem que haja o perigo da deterioração.

Na Unesp, um dos departamentos que mais receberam verbas da Fapesp no último ano foi o de Física. De acordo com o professor assistente doutor do setor, Carlos Roberto Grandini, foram R$ 2 milhões nos últimos quatro anos. “Fizemos uma central de laboratórios com o que recebemos de verbas”, cita o professor.

Ele acredita que a construção desses laboratórios esteja incentivando o envolvimento dos alunos com o meio científico. “Tem crescido a procura por pesquisa, tanto na graduação como na pós”, explica.

Centrinho

A Universidade de São Paulo (USP), câmpus de Bauru, é uma das mais tradicionais em termos de pesquisa.

Tendo como respaldo o Hospital de Reabilitação das Anomalias Craniofaciais (Centrinho), a instituição atrai pesquisadores de todo o País e do exterior. “No ano passado, por exemplo, recebemos uma força-tarefa com cerca de 40 pesquisadores de diversas partes do mundo”, explica a presidente das Comissões de Pesquisa e Pós-graduação do Hospital e pesquisadora da Fapesp, Inge Elly Kiemle Trindade.

De acordo com ela, o potencial para a obtenção de recursos para a pesquisa é muito grande em Bauru. No entanto, os pesquisadores esbarram na rigidez das análises dos projetos. “A Fapesp é extremamente criteriosa na seleção dos projetos a serem contemplados com seus recursos”, diz.

Ela salienta que a qualidade dos pesquisadores de Bauru é muito boa e que eles têm condições de obter verbas através de outras alternativas, como na própria universidade, que é fomentadora de pesquisas.

De acordo com Inge, para se dedicar à área de pesquisa, a pessoa tem que ter vocação. “Não são todos os alunos de graduação que vão querer trabalhar com pesquisa”, ressalta.

Uma das últimas aquisições da USP de Bauru com o repasse de verbas da Fapesp foi um aparelho denominado rinômetro acústico. De acordo com Inge, que também é fisiologista, o equipamento serve para analisar a geometria da cavidade nasal. “Além de introduzir uma nova tecnologia de diagnóstico no hospital, aumentando o conhecimento de seus profissionais e pesquisadores, o rinômetro vai trazer muitos benefícios para os pacientes”, salienta.

Comentários

Comentários