No ano passado, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) liberou cerca de R$ 397 milhões para as universidades investirem no aprimoramento do setor científico. Bauru, embora seja considerada uma cidade universitária, ficou com apenas 0,8% dessa fatia, ou seja, R$ 3,2 milhões.
Esse total foi destinado à três instituições de ensino - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade do Sagrado Coração (USC).
De acordo com o diretor científico da Fapesp, José Fernando Perez, esse valor poderia ter sido maior. “Existe um potencial grande de demanda que não está sendo aproveitadoâ€, salienta.
Ele não soube especificar isso em números, mas destacou que, pela vocação da cidade para o ensino, haveria condições favoráveis para o desenvolvimento de muitos outros projetos de pesquisa.
Perez explica que essa cultura de não se voltar para a área acadêmica é um traço marcante do País. No entanto, destaca que a tendência é de mudanças. “Nos últimos 35 anos, poucos países do mundo conseguiram criar um parque de pesquisa tão importante quanto o do Brasilâ€, salienta.
A deficiência, segundo ele, ainda está no envolvimento do setor privado com a área científica. Poucas empresas investem suas fichas no financiamento de estudos avançados no País.
Os recursos da Fapesp são provenientes, principalmente, do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), do qual recebe 1% da arrecadação em todo o Estado.
Em 2001, as três universidades públicas de São Paulo receberam 74,5% do total das verbas disponibilizadas pela instituição de amparo à pesquisa, sendo 11,8% para a Unesp, 16,9% para a Unicamp e 45,8% para a USP. Vale lembrar que a Fapesp não é a única instituição de incentivo à pesquisa científica que dispõe recursos para as universidades.
Interesse crescente
Neste ano, a expectativa é de que aumente o número de trabalhos científicos e, conseqüentemente, o investimento em pesquisa e tecnologia por parte de instituições de amparo. A perspectiva é baseada numa tendência crescente do interesse nesse tipo de trabalho acadêmico. “Há três anos, tínhamos trabalhos apenas de alunos da graduação. Hoje, são sete estudantes de mestrado e um de doutoradoâ€, destaca Carlos Roberto Grandini, professor assistente doutor do Departamento de Física da Unesp de Bauru. Para ele, a evolução nesse sentindo é visível.
O diretor científico da Fapesp, José Fernando Perez, destaca que essa tendência é nacional. Para provar isso, ele cita que, há 20 anos, formavam-se no País cerca de 500 doutores por ano. Hoje, são 6 mil. “A área de pesquisa tem um histórico recente. Há 35 anos, por exemplo, o curso de pós-graduação estava sendo implantado no Brasil, apenas com o mestradoâ€, enfatiza.
Para Grandini, o valor recebido pelas universidades de Bauru para a pesquisa está acima da média. Ele compara, por exemplo, com São Carlos, que teria conquista um repasse de R$ 5 milhões no ano passado. “Aquela cidade possui duas universidades de peso (a USP e a Universidade Federal) e tem uma tradição de 50 anos de pesquisa. A Unesp de Bauru é jovem nesse sentido, pois tem cerca de cinco anos de investimentos no setor científicoâ€, salienta.
Os meios mais usuais que a Fapesp utiliza para o fomento à pesquisa científica e tecnológica são as bolsas e os auxílios.
As bolsas variam de R$ 250,00 a R$ 2.860,00, dependedo do enquadramento do pesquisador.
Já os auxílios consistem na vinda de pesquisadores visitantes, na ajuda à publicação de teses, na organização de eventos científicos ou tecnológicos, entre outras coisas.
Critérios rígidos
Para ter acesso aos recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa, o interessado tem de apresentar um projeto muito bem elaborado. De acordo José Fernando Perez, a disputa pelas bolsas é altamente competitiva. “A Fapesp dispõe de assessores escolhidos entre cientistas de reconhecida competência, de acordo com a natureza e a área do conhecimento em que se insere cada projetoâ€, explica o diretor científico da Fundação.
Só para se ter uma idéia da concorrência, no ano passado foram feitos 1,5 mil pedidos de bolsas à Fapesp. Apenas 450 foram aprovados. “Os critérios são muito rígidosâ€, frisa Perez.
Para ter acesso à verba, é preciso apresentar um projeto muito bem elaborado, com objetivos relevantes e atuais, além de mostrar qual a contribuição que a pesquisa pode trazer para o avanço da área analisada.
Pesquisa científica é tendência de mercado, diz professora
O interesse pelo desenvolvimento de pesquisas científicas e tecnológicas sempre foi uma prerrogativa das universidades públicas. Agora, buscando se destacar no concorrido mercado e também para atingir as expectativas do Ministério da Educação (MEC), que passou a cobrar um posicionamento nesse sentido, as instituições de ensino particular estão procurando estimular seus alunos a se dedicar à pesquisa.
A Universidade do Sagrado Coração (USC), por exemplo, criou recentemente a pró-reitoria de pós-graduação e pesquisa. A posse do novo diretor, José Jobson de Andrade Arruda, realizada no último dia 11, foi marcada pela visita de dois representantes de peso da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - José Fernando Perez e Joaquim Engler.
A USC visa aprimorar a área de pesquisa, buscando verba junto às instituições de fomento, ajustando suas instalações às necessidades dos pesquisadores e trazendo cientistas de renome para trabalhar com os alunos de pós-graduação. A informação é de Arruda, logo ao assumir a pró-reitoria.
Antes mesmo de ser empossado, ele conseguiu junto à Fapesp uma verba para adequar a estrutura do Núcleo de Pesquisa e Documentação Histórica de Bauru e Região Gabriel Ruiz Pelegrina, que pertence à USC.
De acordo com a coordenadora do curso de História da universidade e assessora de pesquisa do Núcleo, Terezinha Santarosa Zanlochi, a fundação já liberou a primeira parte dos recursos, que serão aplicados na climatização e na organização dos arquivos. “Os documentos do núcleo são muito antigos e precisam de uma conservação adequadaâ€, explica.
No local, encontram-se, por exemplo, o arquivo da Câmara Municipal de Bauru desde 1896. “Conseguimos a verba depois de mostrar para a Fapesp que o objetivo do núcleo é atender às necessidades da coletividade. Ou seja, estamos fazendo o papel de instituições públicasâ€, explica a coordenadora.
A segunda etapa do projeto será a digitalização dos documentos, para torná-los acessível ao público sem que haja o perigo da deterioração.
Na Unesp, um dos departamentos que mais receberam verbas da Fapesp no último ano foi o de Física. De acordo com o professor assistente doutor do setor, Carlos Roberto Grandini, foram R$ 2 milhões nos últimos quatro anos. “Fizemos uma central de laboratórios com o que recebemos de verbasâ€, cita o professor.
Ele acredita que a construção desses laboratórios esteja incentivando o envolvimento dos alunos com o meio científico. “Tem crescido a procura por pesquisa, tanto na graduação como na pósâ€, explica.
Centrinho
A Universidade de São Paulo (USP), câmpus de Bauru, é uma das mais tradicionais em termos de pesquisa.
Tendo como respaldo o Hospital de Reabilitação das Anomalias Craniofaciais (Centrinho), a instituição atrai pesquisadores de todo o País e do exterior. “No ano passado, por exemplo, recebemos uma força-tarefa com cerca de 40 pesquisadores de diversas partes do mundoâ€, explica a presidente das Comissões de Pesquisa e Pós-graduação do Hospital e pesquisadora da Fapesp, Inge Elly Kiemle Trindade.
De acordo com ela, o potencial para a obtenção de recursos para a pesquisa é muito grande em Bauru. No entanto, os pesquisadores esbarram na rigidez das análises dos projetos. “A Fapesp é extremamente criteriosa na seleção dos projetos a serem contemplados com seus recursosâ€, diz.
Ela salienta que a qualidade dos pesquisadores de Bauru é muito boa e que eles têm condições de obter verbas através de outras alternativas, como na própria universidade, que é fomentadora de pesquisas.
De acordo com Inge, para se dedicar à área de pesquisa, a pessoa tem que ter vocação. “Não são todos os alunos de graduação que vão querer trabalhar com pesquisaâ€, ressalta.
Uma das últimas aquisições da USP de Bauru com o repasse de verbas da Fapesp foi um aparelho denominado rinômetro acústico. De acordo com Inge, que também é fisiologista, o equipamento serve para analisar a geometria da cavidade nasal. “Além de introduzir uma nova tecnologia de diagnóstico no hospital, aumentando o conhecimento de seus profissionais e pesquisadores, o rinômetro vai trazer muitos benefícios para os pacientesâ€, salienta.