Economia & Negócios

Convênios médicos já chegam a 50

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 8 min

O setor de planos de saúde em Bauru sofreu uma reviravolta do ano passado para cá. Até o começo de 2001, somente uma empresa de grande porte atuava na cidade, sobrando pouco espaço para os demais convênios. Hoje, o número de planos atendidos já se aproxima de 50, ampliando opções para pacientes e médicos.

Essa mudança foi possível devido a vários fatores, entre eles a abertura de um hospital geral voltado para pessoas conveniadas.

O Hospital Prontocor, que durante dez anos atendeu exclusivamente a Unimed - Cooperativa de Trabalhos Médicos - foi descredenciado depois que a cooperativa inaugurou a sua própria unidade hospitalar.

A partir daí, o Prontocor ampliou a sua área de atuação, tornando-se hospital geral e abrindo espaço para os demais convênios médicos. “Depois do descredenciamento, cresceu muito a utilização de outros planos de saúde no hospital”, explica o cardiologista João Brosco, diretor do Prontocor.

Atualmente, o hospital está atendendo a 45 convênios médicos, sejam eles de empresas estabelecidas ou não na cidade. Essa diversificação do mercado trouxe outra conseqüência importante: a vinda de médicos de outras localidades para Bauru.

Como os profissionais cooperados da Unimed possuem um vínculo de fidelidade com a empresa, médicos de fora sentiram-se atraídos para preencher essa lacuna em Bauru.

Como é o caso do gastroenteorologista e cirurgião geral Hélio Silveira Pires Júnior. Ele está na cidade desde fevereiro de 2001. “A família da minha esposa é de Bauru e eu sempre tive vontade de me mudar para cá. A oportunidade surgiu com a abertura do Prontocor para outros planos de saúde”, salienta.

O ortopedista João Américo de Oliveira Andrade é outro profissional que engrossa essa estatística. Ele se mudou para Bauru há pouco mais de um ano. “Eu fiz medicina no Rio de Janeiro e fiquei 16 anos morando lá. Mas, tinha a necessidade de voltar para o interior (ele nasceu em Reginópolis) para conseguir uma melhor qualidade de vida”, salienta.

Ele acredita que chegou na cidade em um bom momento. “Foi na época em que estava havendo essa abertura do setor da saúde”, conta.

Primeiro ele tentou ingressar na Unimed. Mas, mudou de idéia quando ficou sabendo que teria de atender somente aos clientes da cooperativa. “Quando disseram que eu não poderia atender a outros convênios, preferi não me cooperar”, diz.

Para ele, a abertura do mercado foi uma grande conquista para Bauru. “Uma cidade desse porte não pode ter um atendimento tão centralizado. É preciso dar oportunidade de escolha para a população”, conta.

Outras opções

As novas empresas de convênio médico que chegaram a Bauru no ano passado vieram com a intenção de preencher uma lacuna deixada pela Unimed, até então a única empresa estabelecida na cidade.

Como a cooperativa tem um contrato de exclusividade com os seus médicos (leia matéria nessa página), a meta das concorrentes era atingir justamente os médicos que ficaram de fora.

De acordo com a Associação Paulista de Medicina (APM), Bauru conta com cerca de 600 médicos. Destes, perto de 500 são cooperados da Unimed. O restante, atendia em seus consultórios ou na rede pública.

As empresas que se estabeleceram na cidade começaram a formar o seu grupo de médicos a partir dessa diferença. Outra estratégia foi atrair profissionais de fora para a cidade. “Essa abertura de mercado não foi só para os pacientes, mas para os médicos também, que têm a opção de decidir como vão trabalhar, destaca João Brosco.

Além da Unimed, estão atuando na cidade as empresas São Lucas, Tec Seg e Nipomed. Há também aqueles convênios que não têm firma estabelecida na cidade, mas que possuem clientes, como é o caso da Saúde Bradesco e Sul América, por exemplo.

Expandindo

A Tec Seg ganhou um número considerável de clientes há cerca de dois meses. A empresa fechou uma parceria com a Prefeitura Municipal de Bauru para prestar serviço aos funcionários públicos por um prazo de até seis meses. Com isso, adquiriu pelo menos 14 mil clientes, chegando a um total de 20 mil associados.

Para atender essa demanda, a empresa conta com 120 médicos. Segundo o diretor clínico da Tec Seg, Luciano Braga, essa concorrência é uma realidade que não tem mais volta. “A abertura do mercado está se consolidando e é muito importante para o crescimento do setor na cidade. A postura monopolista vai contra tudo que é moderno”, salienta.

Outra empresa que está participando dessa mudança de comportamento na área da saúde é a Nipomed. Instalada há 11 meses em Bauru, ela conta com 230 médicos associados e cerca de 3 mil clientes. “O importante é que as pessoas podem comparar o sistema de atendimento e o valor cobrado pelas empresas que concorrem no mercado”, diz Jorge Taiar, diretor da Nipomed.

A São Lucas tem uma história mais recente em Bauru. Chegou à cidade em novembro do ano passado, através de uma parceria com o Hospital Prontocor. “Tínhamos um namoro de longa data com Bauru, mas o mercado era muito fechado por aqui”, frisa Aurélio Rocha Neto, gerente executivo da São Lucas, que tem a matriz em Lins.

Em cinco meses de atuação na cidade, a empresa conta com uma carteira de cerca de seis mil clientes e tem 110 médicos credenciados, de todas as especialidades. “Dar opções de escolha para as pessoas é uma atitude sadia”, ressalta.

De acordo com o vice-presidente da Unimed, Carlos Alberto Giafferi, a vinda de novas empresas para a cidade não afetou o trabalho da cooperativa. “Mantemos o nosso número de usuários - na casa de 130 mil - e o de médicos cooperados”, diz.

Acesso diferente

Além dos convênios médicos e do sistema público de saúde, existe na cidade uma alternativa inusitada para o tratamento da saúde.

Uma empresa funerária tem, entre os benefícios oferecidos aos clientes, um desconto no valor das consultas médicas. “Não é plano de saúde. É apenas uma parceria com os médicos que permite uma redução no preço das consultas”, esclarece a sócia-proprietária da empresa, Lúcia Helena Costa.

O sistema funciona como um atendimento particular. O paciente escolhe o profissional, marca a consulta e, na hora de pagar pelo serviço, recebe um desconto de 50% por ser associado da empresa funerária.

Lúcia explica que a parceria é bem-vinda para todas as partes. “Para os médicos, é uma forma de divulgação do trabalho deles; para o cliente, é um benefício a mais; e para a nossa empresa, uma maneira de conquistar os associados”, salienta.

De acordo com ela, esse benefício não tem custo adicional algum para os usuários.

Usuários: abertura foi bem-vinda

Encontrar atendimento médico para a família sempre foi um problema para o administrador Paulo Sérgio Galdeano. Há dois anos, ele possui o plano Saúde Bradesco, que é oferecido pela empresa em que trabalha. “Sempre foi muito difícil marcar consultas e fazer exames. Não havia opção de médicos”, diz.

Há cerca de um ano, ele precisou levar o filho, Victor Hugo Zaneratti Galdeano, ao pediatra e não achou um profissional para atendê-lo pelo convênio. “Tive que pagar R$ 80,00 pela consulta na época. O plano de saúde me reembolsou algum tempo depois, mas só recebi R$ 50,00 de volta”, conta.

De lá para cá, a situação mudou. Galdeano diz que observou um aumento significativo do número de profissionais filiados ao seu plano de saúde. “Hoje tem muito mais médico atendendo, em qualquer especialidade”, salienta.

Ele atribui essa mudança à abertura do Hospital Prontocor a outros convênios de saúde. “A Unimed ainda é muito forte na cidade, mas já existe espaço para outras empresas”, destaca.

Para mostrar que é possível mesclar essa tendência, a Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib) acaba de fechar uma parceria com o plano de saúde São Lucas. De acordo com o presidente da entidade, Cássio Nunes Carvalho, o convênio com a Unimed foi mantido, mas criou-se uma outra opção para os associados. “Conseguimos fechar com a São Lucas um plano semelhante ao da Unimed. Os associados podem escolher o que querem”. Ele explica que quem possui o plano da Unimed não troca. “Isso acontece porque a maioria das pessoas já é acostumada a se consultar com determinado médico. Como os profissionais da Unimed não atendem outros convênios, elas preferem não trocar para não perder esse vínculo”, ressalta.

Carvalho considera muito positiva todas as mudanças que ocorreram na área de planos de saúde e diz que é muito salutar haver chance de escolha.

Justiça derruba monopólio da Unimed

Em março do ano passado, a Unimed foi impedida pela Justiça de fazer vigorar em seu contrato de cooperação com os médicos a cláusula que determinava o atendimento exclusivo pela cooperativa. A decisão foi tomada pelo juiz da 1.ª Vara Federal de Bauru, Agnaldo Moraes dos Santos, que entendeu que a empresa estava praticando o monopólio no setor, ao impedir os médicos de atenderem através de outros convênios.

A ação civil pública que gerou a liminar foi impetrada pelo procurador da República Pedro Antonio de Oliveira Machado há cerca de quatro anos. Ele comparou o número de médicos que atuava na cidade com a relação de profissionais cooperados à Unimed, chegando à conclusão que mais de 90% deles eram ligados à empresa. “Como no contrato dos médicos com a Unimed existe uma cláusula que os proíbe de atender outros convênios, isso anulou a concorrência na cidade”, salienta.

A Unimed recorreu da decisão. Mesmo assim, até o julgamento final da ação fica valendo a suspensão da cláusula.

O vice-presidente da Unimed, Carlos Alberto Giafferi, explica que os médicos que atendem pela cooperativa não são apenas credenciados à empresa. “Eles são donos da cooperativa. Dessa forma, recebem os lucros da empresa e são responsáveis por ela”, diz.

Nos próximos dias, segundo ele disse, a Unimed entrará com um agravo na Justiça, tentando derrubar a liminar que suspende a cláusula de exclusividade.

Mesmo sem ter a obrigatoriedade de ficar fiel à empresa, ele diz que a maioria dos médicos manteve-se na unimilitância, ou seja, ligados somente à Unimed.

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