O setor de planos de saúde em Bauru sofreu uma reviravolta do ano passado para cá. Até o começo de 2001, somente uma empresa de grande porte atuava na cidade, sobrando pouco espaço para os demais convênios. Hoje, o número de planos atendidos já se aproxima de 50, ampliando opções para pacientes e médicos.
Essa mudança foi possível devido a vários fatores, entre eles a abertura de um hospital geral voltado para pessoas conveniadas.
O Hospital Prontocor, que durante dez anos atendeu exclusivamente a Unimed - Cooperativa de Trabalhos Médicos - foi descredenciado depois que a cooperativa inaugurou a sua própria unidade hospitalar.
A partir daí, o Prontocor ampliou a sua área de atuação, tornando-se hospital geral e abrindo espaço para os demais convênios médicos. “Depois do descredenciamento, cresceu muito a utilização de outros planos de saúde no hospitalâ€, explica o cardiologista João Brosco, diretor do Prontocor.
Atualmente, o hospital está atendendo a 45 convênios médicos, sejam eles de empresas estabelecidas ou não na cidade. Essa diversificação do mercado trouxe outra conseqüência importante: a vinda de médicos de outras localidades para Bauru.
Como os profissionais cooperados da Unimed possuem um vínculo de fidelidade com a empresa, médicos de fora sentiram-se atraídos para preencher essa lacuna em Bauru.
Como é o caso do gastroenteorologista e cirurgião geral Hélio Silveira Pires Júnior. Ele está na cidade desde fevereiro de 2001. “A família da minha esposa é de Bauru e eu sempre tive vontade de me mudar para cá. A oportunidade surgiu com a abertura do Prontocor para outros planos de saúdeâ€, salienta.
O ortopedista João Américo de Oliveira Andrade é outro profissional que engrossa essa estatística. Ele se mudou para Bauru há pouco mais de um ano. “Eu fiz medicina no Rio de Janeiro e fiquei 16 anos morando lá. Mas, tinha a necessidade de voltar para o interior (ele nasceu em Reginópolis) para conseguir uma melhor qualidade de vidaâ€, salienta.
Ele acredita que chegou na cidade em um bom momento. “Foi na época em que estava havendo essa abertura do setor da saúdeâ€, conta.
Primeiro ele tentou ingressar na Unimed. Mas, mudou de idéia quando ficou sabendo que teria de atender somente aos clientes da cooperativa. “Quando disseram que eu não poderia atender a outros convênios, preferi não me cooperarâ€, diz.
Para ele, a abertura do mercado foi uma grande conquista para Bauru. “Uma cidade desse porte não pode ter um atendimento tão centralizado. É preciso dar oportunidade de escolha para a populaçãoâ€, conta.
Outras opções
As novas empresas de convênio médico que chegaram a Bauru no ano passado vieram com a intenção de preencher uma lacuna deixada pela Unimed, até então a única empresa estabelecida na cidade.
Como a cooperativa tem um contrato de exclusividade com os seus médicos (leia matéria nessa página), a meta das concorrentes era atingir justamente os médicos que ficaram de fora.
De acordo com a Associação Paulista de Medicina (APM), Bauru conta com cerca de 600 médicos. Destes, perto de 500 são cooperados da Unimed. O restante, atendia em seus consultórios ou na rede pública.
As empresas que se estabeleceram na cidade começaram a formar o seu grupo de médicos a partir dessa diferença. Outra estratégia foi atrair profissionais de fora para a cidade. “Essa abertura de mercado não foi só para os pacientes, mas para os médicos também, que têm a opção de decidir como vão trabalhar, destaca João Brosco.
Além da Unimed, estão atuando na cidade as empresas São Lucas, Tec Seg e Nipomed. Há também aqueles convênios que não têm firma estabelecida na cidade, mas que possuem clientes, como é o caso da Saúde Bradesco e Sul América, por exemplo.
Expandindo
A Tec Seg ganhou um número considerável de clientes há cerca de dois meses. A empresa fechou uma parceria com a Prefeitura Municipal de Bauru para prestar serviço aos funcionários públicos por um prazo de até seis meses. Com isso, adquiriu pelo menos 14 mil clientes, chegando a um total de 20 mil associados.
Para atender essa demanda, a empresa conta com 120 médicos. Segundo o diretor clínico da Tec Seg, Luciano Braga, essa concorrência é uma realidade que não tem mais volta. “A abertura do mercado está se consolidando e é muito importante para o crescimento do setor na cidade. A postura monopolista vai contra tudo que é modernoâ€, salienta.
Outra empresa que está participando dessa mudança de comportamento na área da saúde é a Nipomed. Instalada há 11 meses em Bauru, ela conta com 230 médicos associados e cerca de 3 mil clientes. “O importante é que as pessoas podem comparar o sistema de atendimento e o valor cobrado pelas empresas que concorrem no mercadoâ€, diz Jorge Taiar, diretor da Nipomed.
A São Lucas tem uma história mais recente em Bauru. Chegou à cidade em novembro do ano passado, através de uma parceria com o Hospital Prontocor. “Tínhamos um namoro de longa data com Bauru, mas o mercado era muito fechado por aquiâ€, frisa Aurélio Rocha Neto, gerente executivo da São Lucas, que tem a matriz em Lins.
Em cinco meses de atuação na cidade, a empresa conta com uma carteira de cerca de seis mil clientes e tem 110 médicos credenciados, de todas as especialidades. “Dar opções de escolha para as pessoas é uma atitude sadiaâ€, ressalta.
De acordo com o vice-presidente da Unimed, Carlos Alberto Giafferi, a vinda de novas empresas para a cidade não afetou o trabalho da cooperativa. “Mantemos o nosso número de usuários - na casa de 130 mil - e o de médicos cooperadosâ€, diz.
Acesso diferente
Além dos convênios médicos e do sistema público de saúde, existe na cidade uma alternativa inusitada para o tratamento da saúde.
Uma empresa funerária tem, entre os benefícios oferecidos aos clientes, um desconto no valor das consultas médicas. “Não é plano de saúde. É apenas uma parceria com os médicos que permite uma redução no preço das consultasâ€, esclarece a sócia-proprietária da empresa, Lúcia Helena Costa.
O sistema funciona como um atendimento particular. O paciente escolhe o profissional, marca a consulta e, na hora de pagar pelo serviço, recebe um desconto de 50% por ser associado da empresa funerária.
Lúcia explica que a parceria é bem-vinda para todas as partes. “Para os médicos, é uma forma de divulgação do trabalho deles; para o cliente, é um benefício a mais; e para a nossa empresa, uma maneira de conquistar os associadosâ€, salienta.
De acordo com ela, esse benefício não tem custo adicional algum para os usuários.
Usuários: abertura foi bem-vinda
Encontrar atendimento médico para a família sempre foi um problema para o administrador Paulo Sérgio Galdeano. Há dois anos, ele possui o plano Saúde Bradesco, que é oferecido pela empresa em que trabalha. “Sempre foi muito difícil marcar consultas e fazer exames. Não havia opção de médicosâ€, diz.
Há cerca de um ano, ele precisou levar o filho, Victor Hugo Zaneratti Galdeano, ao pediatra e não achou um profissional para atendê-lo pelo convênio. “Tive que pagar R$ 80,00 pela consulta na época. O plano de saúde me reembolsou algum tempo depois, mas só recebi R$ 50,00 de voltaâ€, conta.
De lá para cá, a situação mudou. Galdeano diz que observou um aumento significativo do número de profissionais filiados ao seu plano de saúde. “Hoje tem muito mais médico atendendo, em qualquer especialidadeâ€, salienta.
Ele atribui essa mudança à abertura do Hospital Prontocor a outros convênios de saúde. “A Unimed ainda é muito forte na cidade, mas já existe espaço para outras empresasâ€, destaca.
Para mostrar que é possível mesclar essa tendência, a Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib) acaba de fechar uma parceria com o plano de saúde São Lucas. De acordo com o presidente da entidade, Cássio Nunes Carvalho, o convênio com a Unimed foi mantido, mas criou-se uma outra opção para os associados. “Conseguimos fechar com a São Lucas um plano semelhante ao da Unimed. Os associados podem escolher o que queremâ€. Ele explica que quem possui o plano da Unimed não troca. “Isso acontece porque a maioria das pessoas já é acostumada a se consultar com determinado médico. Como os profissionais da Unimed não atendem outros convênios, elas preferem não trocar para não perder esse vínculoâ€, ressalta.
Carvalho considera muito positiva todas as mudanças que ocorreram na área de planos de saúde e diz que é muito salutar haver chance de escolha.
Justiça derruba monopólio da Unimed
Em março do ano passado, a Unimed foi impedida pela Justiça de fazer vigorar em seu contrato de cooperação com os médicos a cláusula que determinava o atendimento exclusivo pela cooperativa. A decisão foi tomada pelo juiz da 1.ª Vara Federal de Bauru, Agnaldo Moraes dos Santos, que entendeu que a empresa estava praticando o monopólio no setor, ao impedir os médicos de atenderem através de outros convênios.
A ação civil pública que gerou a liminar foi impetrada pelo procurador da República Pedro Antonio de Oliveira Machado há cerca de quatro anos. Ele comparou o número de médicos que atuava na cidade com a relação de profissionais cooperados à Unimed, chegando à conclusão que mais de 90% deles eram ligados à empresa. “Como no contrato dos médicos com a Unimed existe uma cláusula que os proíbe de atender outros convênios, isso anulou a concorrência na cidadeâ€, salienta.
A Unimed recorreu da decisão. Mesmo assim, até o julgamento final da ação fica valendo a suspensão da cláusula.
O vice-presidente da Unimed, Carlos Alberto Giafferi, explica que os médicos que atendem pela cooperativa não são apenas credenciados à empresa. “Eles são donos da cooperativa. Dessa forma, recebem os lucros da empresa e são responsáveis por elaâ€, diz.
Nos próximos dias, segundo ele disse, a Unimed entrará com um agravo na Justiça, tentando derrubar a liminar que suspende a cláusula de exclusividade.
Mesmo sem ter a obrigatoriedade de ficar fiel à empresa, ele diz que a maioria dos médicos manteve-se na unimilitância, ou seja, ligados somente à Unimed.