O período de seca originado pela união de altas temperaturas e falta de chuvas está deixando pecuaristas da região de Bauru em situação difícil. A afirmação é do presidente do Sindicato Rural e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde Guimarães.
Nos últimos dois meses o quadro se agravou. Segundo o meteorologista Marco Antônio Rodrigues Jusevicius - do Instituto de Pesquisas Meteorológicas de Bauru (Ipmet) -, as poucas chuvas ocorridas em março somaram apenas 68,8 milímetros (mm). A média esperada para o mês é de 148,9mm.
Neste mês, choveu apenas no dia 7, registrando a marca de 13mm. A média calculada para o período (baseada em estudos feitos desde 1981) é de 105,1mm, segundo o meteorologista.
“Quando muitos dias se seguem com altas temperaturas, a formação de chuva é inibida. Só devemos ter chuva novamente, na região, com a entrada de frentes frias. Mas não há nenhuma prevista para os próximos diasâ€, afirma Jusevicius.
De acordo com Guimarães, o clima está deixando os pastos secos e isso teria ocasionado duas situações preocupantes. Uma delas é de fundo econômico, já que houve aumento da oferta de boi gordo no mercado. O resultado foi a queda do preço da arroba de R$ 46,00 para R$ 42,00 (decréscimo de 8,69%).
“A comercialização de boi magro, bezerros e novilhas também foi prejudicada. Muitos pecuaristas estão deixando de comprar gado com medo de investir sem saber o que vai acontecer nos próximos cinco mesesâ€, diz Guimarães.
Ele explica que o principal problema para a pecuária é o calor. “Existe uma compatibilidade entre temperatura e umidade. No momento, temos temperaturas de verão, mas sem as chuvas características dessa estaçãoâ€, observa.
De acordo com Guimarães, o grande temor dos empresários do ramo é que se some um período praticamente sem chuvas desde março até agosto, já que a partir de maio a tendência é ter menos chuva.
“Para a pecuária esse problema é muito sério. Quando se tem o chamado veranico em dezembro e janeiro, não assusta tanto porque sabe-se que depois virão as chuvas. Mas isso praticamente não ocorreu neste ano. Então, o solo está sem umidade e estamos chegando num período que é marcado pela ausência de chuvasâ€, aponta o vice-presidente da Faesp.
A seca também gera o problema das queimadas, que estão ocorrendo com incidência bem maior do que o esperado para esse período, segundo Guimarães.
Culturas
Quanto às culturas, a produção que mais sofre com a seca é a de milho safrinha, plantado em janeiro para ser colhido entre junho e julho. A safra do amendoim também estaria sendo prejudicada.
“Para outras culturas não há tanto problema, porque o milho, o algodão, o café e a fruticultura já estão em fase de colheitaâ€, afirma Guimarães.
A situação do leite é outro grande temor. Segundo o presidente do Sindicato Rural, produtores de São Paulo já estão prevendo queda em torno de 25% na produção.
“Quem trabalha com uma produção diária de até 50 litros por dia não tem como se manter, em função dos pastos secosâ€, observa.
O cultivo de folhas não é prejudicado para quem trabalha com estufa ou investiu em sistema de irrigação. Caso contrário, há sérios riscos de grandes perdas de produção. Contudo, Guimarães diz que não deve haver impacto para o público consumidor.
O produtor de verduras Sigheru Sato, por exemplo, está satisfeito com os investimentos feitos em sistema de irrigação nas suas propriedades. Segundo ele, atualmente sua produção registra cerca de 55 mil a 60 mil unidades por dia.
“Apenas em uma propriedade eu estou com um problema sério de falta de água que está me causando prejuízos. Nas outras, a produção está normalâ€, afirma.
Pouca chuva
De acordo com o meteorologista Jusevicius, informações sobre climatologia fornecidas ao Ipmet pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) dão conta de que os níveis de chuva para os meses de maio, junho e julho, no Estado de São Paulo, devem continuar abaixo das médias calculadas para o período.
A boa notícia para a região é que, até o momento, o nível do rio Tietê está “melhor que o normal previsto para a épocaâ€, segundo afirma o diretor da AES Tietê, Juan Carlos Castagnino.
Prejuízo futuro
O engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati/Bauru) Luís César Demarchi diz que neste ano a produção de forragem (capim) está bem menor do que em anos anteriores.
“Se tivesse chovido mais nos meses de março e abril a situação poderia se resolver, porque até pouco antes disso o quadro era muito bom para a pecuária. Tivemos três meses excelentes para o setor, mas os dois últimos foram muito ruins em função da secaâ€, observa.
Contudo, ele afirma que a situação ainda não estaria causando prejuízos aos pecuaristas, já que contavam com os bons resultados dos meses anteriores. As conseqüências deverão ser percebidas futuramente.
“Os reflexos desses dois meses de baixa produção serão sentidos nos dois últimos meses de inverno, por volta de agosto e setembro, pelo fato de não haver produção no período que se segueâ€, analisa Demarchi.
De acordo com ele, cerca de 80% da produção de forragem ocorre entre outubro e abril. Como nesses dois últimos meses (março e abril) não houve montante satisfatório, o reflexo da baixa produção será registrado mais adiante.
A produção de cana-de-açúcar também deve sofrer, segundo Demarchi, com o período de seca. “O corte da cana começa em maio. Por isso, não haverá tempo para tentar recuperar a produçãoâ€, aponta o engenheiro.
Quanto ao café, Demarchi diz que os reflexos serão sentidos somente na próxima safra, já que a seca veio quando os grãos estavam praticamente formados.
“A próxima florada, em junho de 2003, será pior do que essa, porque a partir de agora a brotação ficará prejudicadaâ€, afirma.
Mesmo com todas as dificuldades, ele garante que não há nenhuma situação alarmante em toda a região abrangida pela Cati, que engloba 15 municípios.