Tribuna do Leitor

Pichadinha de criança

Ivan Garcia Goffi
| Tempo de leitura: 3 min

Cruzamento da Cussy com Rio Branco: Secretaria de Esportes – Semel. Naquele único imóvel existem 9 grandes pichações, a última feita na madrugada de 5/4 p.p.. Feitas com grandes rolos de pintura e spray, sem esforço se verifica que nenhuma delas, naquele imóvel, foi repetida pela mesma quadrilha (obrigo-me de chamá-los de quadrilha, pois isso é coisa de bandido, e não de jovens em divertimento) e, naquela única quadra da Cussy, existem mais 14 pichadas de idêntica “belezura”.

A fórmula para sua existência é simples: falha na educação + omissão do Poder Público + satisfação pessoal + certeza da impunidade + certeza da brandura da penalidade + desrespeito pelo bem alheio. Se houvesse o bloqueio de apenas um desses fatores, o resultado seria outro. A pichação só existe porque os seis fatores ocorrem simultaneamente. Nossas brandas leis sequer são utilizadas e, quando se pega o pichador, pouco se faz, os pais acham que é arte de criança, os jovens acham que é “adrenalina pura” e o Poder Público finge que não é responsável por ele.

Por isso mesmo, as pichações não são apenas ato de vândalo, mas é o resultado prático da incúria do Estado e do município. Pergunte à Câmara, à Prefeitura, à Polícia e à Emdurb o que fazer e a resposta será “quem deve cuidar disso é aquele”. Enquanto esse troca-troca de deveres se engabela no tempo, a juventude transviada, como ratos de esgoto a fazerem a festa com a ausência do gato, borram nossas paredes e fachadas com seus excrementos mentais.

Apenas campanhas comunitárias não resolvem. Tome-se por exemplo as campanhas televisivas, nas quais se pede para não jogar lixo nas ruas, de ampla divulgação a todos os lares e níveis sociais, e fique 10 minutos rodando pelo centro da cidade. Serão crianças e adultos jogando indiscriminadamente lixo pelos bueiros, guias e calçadas (apesar de existirem lixeiras próximas), motoristas lançando seus restos de dentro do carro e passageiros de ônibus arremessando embalagens pelas janelas dos coletivos. Não adianta, é inato do brasileiro: gosta de fazer o errado, de omitir-se, de ser porco e viver no meio do sujeira.

Com relação às pichações, ocorre o mesmo. A juventude tem a certeza da ineficiência do Estado e da brandura de qualquer tipo de repreensão afinal, pobrezinhos, são jovens, não podem ser punidos, apenas “advertidos”, pois poderiam ficar traumatizados. Naquela pichação que comentei no início da missiva, após o tradicional sinal ininteligível, havia a frase “rindo a toa”. E é assim que a juventude está, rindo à-toa.

O Prefeito nunca se pronunciou sobre isso, e nem o fará; a Câmara, que deveria se preocupar com a imagem de Bauru, parece não existir; o mais incrível é que a PM nunca encontra esses criminosos, mas várias vezes já cruzei com “turmas” de arruaceiros durante a madrugada e que, certamente, não estão lá olhando as estrelas. Mas o que irrita mesmo é que, se se pedir para a imprensa fazer uma matéria sobre as pichações, em três dias eles terão gravado entrevistas com diversas gangues e com os pais desses “animais selvagens” (que certamente defenderão as crias e dirão que é apenas uma brincadeira de criança), além de conseguir flagrar os momentos exatos dos crimes contra o patrimônio.

A verdade é uma só. Dezenas de milhares de residências e prédios públicos são vandalizados e os responsáveis pela cidade não falam nada, não fazem nada e fingem que não vêem. Até quando? Com a palavra, a Câmara e o digno Prefeito. (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)

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