Política

Cohab-Bauru tem receita de R$ 250 mil ao mês e gasta o dobro

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

A Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab) precisa de R$ 500 mil mensais, em média, para suprir seu custo operacional mas arrecada a metade. A informação foi prestada ontem, na Câmara Municipal de Bauru, pelo próprio presidente da empresa Constante Mogioni. A posição econômica da Cohab agrava sua situação de insolvência e indica a insistência na manutenção de 116 funcionários com acúmulo mensal de prejuízos.

Constante Mogioni concorda que o enxugamento de pessoal feito na companhia nos últimos anos não atende mais à necessidade e pressiona a situação financeira de forma crescente. “A situação é precária e eu nunca escondi. Tem que ficar claro que é preciso implementar um plano de reestruturação senão não conseguiremos manter nem o atual quadro e não vamos ter como equilibrar as contas”, menciona.

Os números da situação financeira Cohab assustaram os membros da comissão municipal que discute uma saída para a companhia. A oscilação na receita é ainda mais drástica em alguns meses do ano. A Cohab arrecadou apenas R$ 142 mil em março do corrente, mas gastou R$ 490 mil com encargos, salários e custeio. O melhor resultado aconteceu em dezembro de 2001, quando a receita foi de R$ 377 mil. Mas a despesa naquele período ficou em 764 mil, fruto do 13º. salário anual.

A presidência tem consciência que a arrecadação é insuficiente para manter o número atual de funcionários. A margem de enxugamento aponta para um quadro, no mínimo, o dobro menor que o atual. Entretanto, a situação não se alterou. Representantes dos próprios funcionários sabem que a insolvência coloca, mês a mês, em risco os postos atuais de trabalho. Por outro lado, a companhia encontra dificuldade política em realizar demissões.

Na reunião de ontem na Câmara novamente foi mencionado que a gestão pública deve levar em conta a comparação com o orçamento familiar. “Se as despesas forem maior do que a receita a família vai ficar envolvida em dívidas e não vai suportar. Com a Cohab não é diferente. É necessário um plano de reestruturação urgente”, pontuou o vereador João Parreira (PSDB), presidente da comissão municipal que discute a questão.

Futuro sombrio

A projeção da posição financeira da Cohab é ainda mais grave se a discussão envolver o futuro. Parte dos recursos que entram no caixa vai se extinguir, a curto prazo, com a renegociação dos contratos em liquidação. Outra parte existe a título de acordos de pagamentos e também vai deixar de existir com as quitações.

Além disso, a Cohab vai concluir, ainda neste ano, o processo de quitação do saldo devedor de 23 mil contratos, o que significa o fim das receitas mensais com antigos mutuários. A companhia também não constrói casas há quase 10 anos, o que elimina a perspectiva de criação de novas receitas. Para piorar, a legislação federal coloca a Cohab apenas como intermediária de créditos habitacionais o que eliminou seu papel de empreendedora.

Para pagar os salários em dia, a Cohab optou por não pagar integralmente os repasses mensais para a Caixa Econômica Federal (CEF) e está dando calote no seguro dos contratos habitacionais. Somente nos primeiros quatro meses do ano os pagamentos não realizados atingiram R$ 9 milhões. “A Cohab estaria financeiramente equilibrada se aqui fosse a França, onde todos pagam suas contas”, critica a assessoria de diretoria, Leila Aparecida Pinto.

Já o presidente da Associação dos Mutuários do Mary Dota, Paulo Ferreira, rebate que não há condição econômica para os pagamentos e a realidade é ainda pior com o desemprego. Ou seja, hoje a única saída para a Cohab conseguir honrar seus compromissos seria fazer com que todos os 25 mil mutuários pagassem suas prestações em dia. A inadimplência é de quase 70%.

A difícil situação vai ser novamente debatida na próxima terça-feira, em uma nova reunião no escritório local da CEF. A definição final da comissão sobre o caso Cohab sairá até 15 de maio. Seja qual for o diagnóstico, ele passa pela cruel necessidade de demissões.

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