Nos últimos 10 anos, muito foi feito em torno do tema adoção no Brasil. Cresceu a consciência social de que a adoção deve representar uma possibilidade de reconstruir vínculos familiares para aquelas crianças que perderam definitivamente a proteção de sua família de origem.
Aprimoram-se os métodos na orientação, na preparação e no acompanhamento dos candidatos à adoção, e a sociedade civil, por meio de diversas iniciativas, deu uma efetiva contribuição para que a adoção deixasse os espaços dos silêncios e das mentiras, da quase clandestinidade em que estava confinada pelo medo e pela ignorância.
Se fosse possível, num tema tão vasto, assinalar a mais preciosa conquista dos últimos tempos em nossa sociedade, ela seria a de que, hoje, não podemos mais falar de família adotiva, esquecendo a família biológica. Não podemos mais negligenciar as potencialidades de apoio às famílias excluídas e suas crianças abandonadas. Vem conquistando, a adoção, o seu mais profundo significado: o de ser um dos recursos, certamente o mais completo, de proteção às crianças e adolescentes definitivamente impossibilitados de crescer em sua família.
O debate atual sobre adoção assinala um extenso arco de possibilidades, de questões, de olhares, de discursos, de informações, de análises que vão constituindo e tornando sensível uma proposta cultural que define roteiros para todos aqueles que, nas diferentes etapas do processo que conduz a uma adoção, são chamados a intervir, da criança aos responsáveis por abrigos, dos candidatos aos técnicos, psicólogos e assistentes sociais, dos Juízes de Direito aos promotores de Justiça, da família biológica à família adotiva, dos livros especializados aos artigos de jornais e revistas, do estudo à prática.
No fundo, uma razão fundamental motiva a realização de trabalhos nesta área: a necessidade de transformação. Queremos a mudança – individual e cultural - queremos transformar os métodos existentes para lidar com a infância no Brasil. Buscamos os caminhos, construímos esses caminhos.
Construir é o verbo que devemos conjugar no presente e no futuro, um verbo que lembre que nosso País vem sendo inventado por iniciativas diversas há muito tempo, e que tudo o que fazemos há sempre o sentido de desbravamento e identificação. Assim é com a adoção e seus desafios no Brasil.
(*) Fernando Freire é psicólogo, representante da Associação Brasileira - “Terra dos Homens e palestrante convidado da II Jornada de Adoção e Prevenção do Abandono de Bauru, 26 e 27 de abril, no salão nobre da FOB