Cultura

A sedução do mito

(*) Cristina Rodrigues Franciscato
| Tempo de leitura: 3 min

Joseph Campbell, autor do livro “O Poder do Mito”, via a mitologia como a canção do universo, a música das esferas: “música que nós dançamos mesmo quando não somos capazes de reconhecer a melodia”. Qual o significado dessa afirmação?

Mitologia é, tecnicamente, o conjunto de mitos de um determinado povo, de uma civilização, de uma religião. É também o estudo desses mitos, suas origens, evolução, significados, etc. Os mitos são narrativas fantásticas sobre a natureza e os feitos extraordinários de seres também extraordinários, como deuses e heróis: seres que representam, entre outras coisas e de forma simbólica, as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana.

Os mitos tiveram origem numa tradição oral, passada de geração para geração, dentro de um grupo. Eram considerados histórias autênticas e verdadeiras que narravam e, de certa forma, explicavam a origem de determinado fenômeno, ser vivo, instituição, costume social, etc. O mito compreende uma categoria de pensamento anterior ao lógico e corresponde a uma fase evolutiva da humanidade em que ela concebeu, via intuição, sensações e emoções, uma determinada compreensão da realidade, distinta e distante da racional.

Quando Campbell diz que a mitologia é uma música que dançamos mesmo quando incapazes de reconhecer a melodia, ele se refere ao caráter inconsciente e arquetípico do mito. Embora a compreensão mítica seja, para a consciência, um estágio ultrapassado de explicação do mundo, ela faz parte do nosso acervo inconsciente e continua atuando a partir dele. Isso explica o fascínio que as narrativas míticas exercem, ainda hoje, sobre nós. Os mitos parecem dialogar com instâncias profundas da nossa alma, inspirando-nos um sentimento de reminiscência que nos torna constantemente interessados em seus conteúdos.

Os deuses, por exemplo, há muito não existem, mas aquelas realidades que os gregos, entre outros, nomeavam como deuses, continuam vivas e atuantes dentro de nós: as artimanhas de Afrodite, deusa do amor, não são mais atribuídas a ela, mas continuamos sofrendo todas as pulsões amorosas, que nem sempre compreendemos e, muito menos, dominamos. Toda vez que um artista cria algo realmente valioso, ele está sob as bênçãos das Musas, que hoje chamamos inspiração artística. Cada atitude eficiente, que atinge com excelência seus propósitos, é um dom de Palas Atena, deusa da sabedoria, do saber fazer. Quando uma pessoa age de modo equilibrado e eficiente, atribuímos ao seu caráter esses adjetivos. Já um grego diria que ela transita de forma adequada pelo âmbito de Palas Atena e é, portanto, cara à deusa.

Entre outras coisas, os deuses são representações de forças e níveis da realidade que os gregos sentiam como transcendentes. Para nós, o mundo é algo objetivo e concreto sobre o qual atuamos e modificamos conforme nossos interesses. Para o homem antigo, o mundo era algo vivo e povoado por deuses que atuavam sobre sua vida a cada momento. A ele cabia buscar viver da melhor forma possível conforme os desígnios divinos. Todo e qualquer campo da atividade humana era regido por uma determinada divindade. O segredo de se viver bem consistia em saber, em cada situação da vida, no âmbito de qual divindade se estava e, então, agir de forma piedosa a ela. Dentro da visão de mundo mítica, o sagrado perpassa todo tipo de experiência.

O mito, então, longe de ser algo fantasioso, desprovido de significado, remete-nos aos fundamentos do psiquismo e pode contribuir para a compreensão da alma humana. Ele nos conta, em linguagem simbólica, sobre antigos caminhos percorridos pela psique, em suas tentativas de decifrar o significado do que é ser humano. De forma poética, podemos fazer nossas as palavras de Campbell: “Eu penso na mitologia como a pátria das musas, as inspiradoras da poesia. Encarar a vida como um poema, e a você mesmo como um participante de um poema, é o que o mito faz por você...”.

(*) Especial para o JC Cultura

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