“Tenho vergonha de falar com pessoas que eu não conheço no telefoneâ€, confessa estudante Mônica Figueiredo Cardozo. Não há limites para as situações que podem fazer alguém se sentir embaraçado. No caso da estudante, que não tem o menor problema em falar em público, por exemplo, o telefone é o vilão. Já sua irmã mais velha, Bruna, enfrenta o aparelho numa boa, mas... (quando o assunto é vergonha sempre há um mas) tem o maior receio de ficar em lugares onde conhece poucas pessoas. “Não tenho coragem de me aproximar para conversarâ€, explica.
De acordo com a psicóloga Sílvia Regina Pardo, existem pesquisas que demonstram que a timidez afeta 50% da população mundial. E não é só isso. “Os tímidos namoram menos, casam-se mais tarde e têm menos filhos, progridem menos no emprego, e, até mesmo apresentam mais doenças do que as pessoas desinibidasâ€, diz Pardo. Em outras palavras, pessoas tímidas acumulam prejuízos tanto no setor pessoal quanto no profissional.
Para a psicóloga, a origem do problema pode estar ainda na infância. É nesse período, principalmente dos 0 aos 5 anos de idade, que a personalidade de cada um se estrutura à base de como foi “compreendidaâ€, de como foi “cuidadaâ€. Por isso a educação deve ser um processo que afirme o direito da criança de não envergonhar-se de si mesma, de não ter medo de expressar suas necessidades e direitos.
Nem sempre os pais percebem isso e fazem com que a criança logo cedo passe por situações embaraçosas que vão marcá-la para o resto de sua vida, mesmo que num primeiro momento tudo tenha sido uma simples brincadeira. “Além dissoâ€, lembra Pardo, “as experiências educacionais tradicionais, passam aos jovens a idéia de que eles têm que calar suas perguntas e ficar quietos por receio de parecer ridículos, não incentivando assim, o espírito críticoâ€, diz. O resultado são homens e mulheres com um medo exagerado de se expressar.
Dois tipos
Segundo Pardo, a timidez pode ser crônica ou situacional. No primeiro caso, a pessoa apresenta inibição diante de todo e qualquer evento social, como festas, reuniões, relacionamentos com colegas e contato com o sexo oposto, são exemplos mais comuns.
É o caso de Bruna Cardozo e também do empresário Luis Eduardo Arruda. “Tenho pânico de locais cheios de gente onde eu sei que tenho que conversar com elasâ€, conta. Uma das piores experiências de sua vida aconteceu numa feira de novos produtos que visitava em São Paulo. “Não conseguia demonstrar o meu interesse e fazer perguntas sobre um produto porque tinha vergonha de falar com o representanteâ€, diz.
O tímido situacional apresenta inibições apenas em determinadas situações, como no caso de Mônica Cardozo com o telefone. A tendência, como explica a psicóloga, é de cada um se expor naquilo que domina, ou tem maior conhecimento. Ou seja, quando a pessoa não tem conteúdo suficiente para enfrentar uma situação, como por exemplo: comer e beber em lugares públicos, sua vergonha será exercitada.
Por isso, uma das maneiras de se livrar das inibições é procurar se desenvolver como pessoa, obter conhecimentos e buscar experiências desafiadoras para que a confiança em si mesmo possa se fortalecer (leia no boxe as dicas da psicóloga para vencer a timidez). “A vergonha e a timidez, são medos relacionados com o outro. É o medo de ser visto pelo o outro, de ser criticado pelo outro, etc.â€, explica Pardo.
Solidão e orgulho
Pessoas muito tímidas ainda correm o risco de sofrerem com a solidão ou se tornarem orgulhosas demais. O primeiro caso acontece quando a pessoa deixa todas as oportunidades de contato social passarem por medo de se relacionar. A tendência, depois de um certo tempo, é que as pessoas a sua volta passem a não fazer mais convites e isolem o tímido já que ele não se manisfesta.
O orgulho, por sua vez, é uma forma de defesa para que a pessoa não sofra com o que deixou de fazer. Em alguns caso, aponta Pardo, o tímido ainda experimenta o ódio por não estar envolvido em situações de satisfação e prazer como as outras pessoas. “Seu ódio se manifesta não apenas em seu retraimento, mas principalmente em sua resistência de vencer essa barreiraâ€, diz.
A transformação de uma pessoa tímida em alguém desinibido, para a psicóloga, só virá a partir do momento em que o tímido reconhecer a necessidade de abrir mão de suas defesas e tomar a responsabilidade para si de tudo o que o envolve e não tentar fugir da realidade.
Viva sem timidez
- Conhecer seus pontos fortes e fracos.
- Não ter medo, nem vergonha de pedir ajuda, para poder ampliar sua capacidade de comunicação.
- Não se aborrecer quando sentir certa rejeição, pois o problema pode não estar com você.
- Ser sempre mais persistente do que acha que poderia ser.
- Navegar na Internet, ler muito e fazer reflexões a respeito do que foi lido.
- Aprender mais sobre etiqueta social, para poder se expor com mais segurança.
- Aprender a compartilhar problemas e necessidades.
- Encorajar-se a fazer perguntas, porém exercitando a capacidade de ouvir as respostas.
- Aperfeiçoar o chamado “marketing pessoalâ€.
Remédio para a timidez
De acordo com o site da British Broadcasting Corporation (BBC), uma empresa farmacêutica está fazendo testes com um remédio que poderá ser utilizado para combater a ansiedade que algumas pessoas enfrentam em situações de convívio social. O Escitalopram, ainda foi liberado na Grã-Bretanha mas passa por testes finais e pode estar no mercado ainda esse ano.
A droga está sendo produzida pelo laboratório Lundback, que já fabrica o Citalopram, utilizado no tratamento de ataques de pânico e depressão. O Escitalopram altera os níveis de serotonina, que funciona como um mensageiro químico no cérebro e afeta o humor das pessoas.
Segundo o site, Susan Taylor, uma das médicas responsáveis pelos testes na Grã-Bretanha, afirma que a ansiedade social é mais comum do que as pessoas imaginam.
Para ela, muitas pessoas fazem de tudo para evitar as situações sociais que provocam essa ansiedade. Embora a ansiedade social costume ser provocada por situações específicas, ela pode se generalizar e afetar todos os aspectos da vida de determinadas pessoas.
Fonte: www.bbc.co.uk