Ser

Paixão pelo palco

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

A paixão com que o ator, diretor e autor Márcio Pimentel fala sobre teatro impressiona. Não é preciso mais do que alguns minutos para perceber que o assunto para esse paulistano (bauruense por opção há sete anos) é mais do que uma forma de expressão artística, é sua vida. A paixão pelo palco começou na infância, ainda na escola e fez dele um profissional ousado, inquieto, sempre à procura de novas experiências. Aclamado pela crítica e pelo público no maior festival de teatro do País, em março, Pimentel fala, na entrevista a seguir, sobre as pessoas que influenciaram sua carreira, o teatro em Bauru e seus planos para o futuro.

Jornal da Cidade - Como você entrou em contanto com o teatro pela primeira vez? Márcio Pimentel - Foi com nove anos. Na verdade foi uma brincadeira de escola. Um professora que eu tive queria que os alunos se manifestassem artisticamente de alguma maneira e eu me interessava pelo teatro porque meu pai sempre me levou ao teatro. Eu tinha o teatro como ponto de referência, era o meu aspecto arte. Comecei ali, fiz o roteiro, a direção, a atuação, a sonoplastia, fiz tudo. Só não fiz o figurino, minha mãe que fez. Eu sempre lembro disso porque foi o ponto na minha vida que faz assim... Tem um clima, de ter entrado em contato com o teatro logo na infância.

Na quinta série fiz um trabalho chamado “Circo”, que concorreu com outras escolas e ganhei o primeiro prêmio. Mais uma vez fiz tudo, o roteiro, a interpretação... tudo. Ganhar dos outros colégios foi mais uma força para continuar no teatro. O prêmio foi um “cebolão”, um relógio, que era um diferencial na época (anos 70). Aquilo ficou marcado: ganhei um “cebolão” fazendo teatro.

JC - E depois do colégio? Pimentel - Continuei no colégio e entrei na faculdade de Artes Cênicas na USP e conheci várias pessoas.

JC - Foi ai que você entrou em contato com o teatro “de verdade”? Pimentel - Ainda na escola eu já tinha um grupo de teatro amador chamado Avesso. Eu tinha uma simpatia muito grande com a não-violência, escrevia isso nos trabalhos, gostava muito de Gandhi e desenvolvi essa não-violência como característica do grupo Avesso. Foi o meu primeiro grupo amador mesmo. Na faculdade é que fui conhecer pessoas bárbaras.

JC - Quem, por exemplo? Pimentel - Um nome que eu não esqueço na minha vida e que faz uma diferença até hoje, no que eu escolhi como teoria que é o teatro contemporâneo, que foi o Luis Roberto Brant de Carvalho Galízia, o grande Galízia. Ele tinha estudo com o Bob Wilson e trouxe o teatro contemporâneo para o Brasil. Todo mundo fala do Gerald Thomas mas foi Galízia. Tive a honra de conhecê-lo e de participar de um grupo com ele, o Ponkã, no qual eu conheci pessoas que trabalhavam com o teatro experimental. E esse teatro experimental é o que faz diferença na minha vida.

Até hoje eu percorro essa estrada não-comercial, na verdade é um trabalho de pesquisa. Eu hoje estou no working progress. Mas se eu não fosse essa estrutura da universidade e o Galízia, que fundou o Ponkã, o Ornitorrinco, com o Cacá Rosset... Até hoje ele é um nome forte, todo mundo que conhece teatro conhece o Galízia e ele morreu em 1985.

JC - Como você define o Ponkã? Pimentel - O Ponkã foi um grupo radical de linguagem da década de 80 que figura na história do teatro brasileiro, um grupo “x”. Hoje não existe mais. O grupo balançou depois da morte do Galízia e mais tarde com a morte do Paulo Utaka, que era o protagonista do grupo em 1988. O grupo foi ficando cada vez mais desestruturado e dai morreu o Carlos Barreto, que era para mim como uma alma-gêmea. É outro nome que eu coloco como imagem do meu percurso.

Fundamos outro grupo, eu e Carlos, que se chama Silvia Que Te Ama Tanto, que está até hoje comigo, em Bauru. Esse grupo também tinha e tem a tendência de continuar o trabalho de pesquisa de linguagem. E há um mês da estréia de um trabalho que até hoje não realizei, que se chama “La Bela Fotonovela”, ele veio a falecer num acidente de carro. Resolvi parar com o teatro, apesar de trabalhar no corpo profissional dos atores com a Célia Helena, onde fazia um trabalho tradicional. Meu barato sempre foi a pesquisa de linguagem e como já tinha perdido alguns companheiros e depois o Carlos, que era o companheiro mais assíduo na hora de discutir sobre teatro, entrei em depressão e decidi sair de São Paulo.

JC - Por que escolheu Bauru? Pimentel - Não sei, cai aqui. Depois de visitar tantas cidades, simpatizei com a cidade, sua entrada me remetia um pouquinho à avenida Brasil. Acabei escolhendo Bauru.

JC - Como foi o primeiro contato com a cidade? Pimentel - Começaram a dizer que eu tinha trabalhado com o Raul Cortez e eu nunca trabalhei com ele. Trabalhei com a Lígia, a filha dele. Então começaram a falar do cara que trabalhou com a Célia Helena, com pessoas... Ai uma atriz da cidade a Marisa Basso, que está comigo até hoje me chamou para fazer um trabalho. Eu disse: “Vamos fazer um trabalho”. Como eu tinha o grupo Silvia, decidi assumir o grupo em Bauru e continuar minha estrada. Isso foi em 1994. Ai comecei a fazer performances, que é a minha linha e comecei a desenvolver vários trabalhos. O primeiro foi “A Praia”, continuei trabalhando e cheguei na “Morada” com um trabalho de pesquisa acentuada, num working progress e cheguei até Curitiba.

JC - Como você analisa o trabalho teatral em Bauru hoje? Pimentel - O teatro em Bauru está numa crescente. Não sou claramente solidário a nenhum partido político, mas essa administração - no que eu conheço da cidade desde que cheguei - é a melhor administração de cultura. É uma administração que está trazendo vários trabalhos, não só comerciais mas de linguagem, vários grupos que fazem diferença, o que não havia antes. Quando vinha, como aconteceu com o grupo Tapa, tinha dez pessoas na platéia e nem era a secretaria que havia trazido.

Hoje, Sérgio Losnak é um nome a se pensar em questão de cultura, é um peso, uma pessoa que tem muita visão numa equipe que trabalha. Não sou solidário a partido político nenhum, mas tenho que falar a verdade. Não há do que reclamar dessa administração - o teatro está em ascensão na cidade de Bauru e não é de hoje. Eu só consegui fazer a morada com apoio dessa administração. Que eu nunca tive antes, mesmo todo mundo sabendo que eu tinha experiência, que havia passado por vários núcleos.

Também nunca tive apoio da iniciativa privada, paguei muitos dos meus trabalhos com o próprio bolso. Para “Morada” tive muito apoio da prefeitura e a peça chegou a Curitiba, no mais importante festival de teatro do país. Só consegui isso com apoio porque o custo é alto.

JC - E os outros grupos da cidade, também estão se beneficiando desse apoio? Pimentel - Sim, existem vários nomes no teatro de Bauru e que agora estão fortalecidos. Conheço várias pessoas que estavam iniciando quando eu cheguei na cidade e hoje têm suas próprias companhias. O grupo Ato, por exemplo, já existia antes de eu chegar aqui e conseguiu seu espaço. O Ezequiel, está sempre trabalhando, a Simone também.

JC - O fato de hoje existir um espaço físico adequado ajudou? Pimentel - Faltava um espaço no passado mas eu vejo que era uma ação política também. Eu sempre vi trabalhos de qualidade no Sesc, que também tem uma boa administração. Sempre vi trabalhos lá e tinha público! E por que? Porque o Sesc tinha a ação de chamar esse público. As administrações passadas não se preocupavam com isso, não havia nem a preocupação de se ter um espaço físico... Antes a gente ficava reduzido a quê? Luso? Que não é nem um local só para isso porque tem festas, bailes... Quem bombardeava? O Sesc. Eles desempenhavam trabalhos para a categoria local também. Isso é ação. Hoje, com o teatro, Bauru está em pauta na região o que não havia antes.

JC - Como você explica o sucesso da sua peça em Curitiba? Pimentel - Uma coisa que faz a diferença nesse ramo é a mídia. Quem viu a minha peça começou a recomendar e a mídia caiu matando. Quando apareceu em rede nacional na televisão os ingressos esgotaram e era só o terceiro dia de um festival de dez dias! Um trabalho alternativo sendo comentado em jornais grandes, na televisão! A mídia tem uma grande força. Mas o público respondeu bem, assim como tinha respondido bem em Bauru. Às vezes ouço dizer que o público de Bauru é imaturo, mas não acho isso. As reações que tiveram aqui foram as mesmas que tiveram em Curitiba.

JC - No final do festival como ficou a peça? Pimentel - Ficamos entre os sete destaques dentro de 135 trabalhos.

JC - Quais são seus planos para o futuro? Pimentel - Depois de ficar 40 dias em uma cidade com um grupo de pessoas que trabalharam muito, muito mesmo, eu trago mais uma experiência na minha vida. Estar longe da minha cidade e completamente voltado para o meu trabalho. Com isso, eu já tinha a idéia de um trabalho que eu queria desempenhar... o simulacro. Eu passei o simulacro em Curitiba e vou desenvolver essa temática, vai ser meu próximo trabalho. Já tenho uma idéia e estou desenvolvendo com a ajuda da Mariza Basso.

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