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Dança pode revolucionar alfabetização

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 6 min

São Carlos - Que a linguagem da dança tem potencial para promover o equilíbrio físico, a flexibilidade e a leveza do corpo humano, isso tudo já se tem comprovado. Mas daí a ser promovida a método de alfabetização de crianças a partir dos três anos de idade, isso já é novidade e vem sendo objeto de estudo do pesquisador e psicólogo Nelson Bergonso e da educadora Vânia Maria.

Juntos, eles desenvolveram uma técnica capaz de dar o início ao processo de alfabetização da garotada em um máximo de um mês e meio de trabalho. O que para muitos é inacreditável já começou a apresentar resultados concretos em alunos da rede de ensino estadual.

Em Pederneiras, duas escolas adotaram a filosofia de Bergonso e seus alfabetizadores vêm alcançando avanços consideráveis no processo de ensino.

Bergonso parte do princípio da valorização da capacidade de movimento do corpo, mas não como tradicionalmente se entende como sendo algo maquinal. O psicólogo defende a tese de que corpo e cérebro são duas capacidades inteligentes. Ou seja, geram conhecimento e trocam estímulos naturalmente. “O corpo não é uma máquina à disposição do corpo. Ambos são uma conexão perfeita.”

O grande salto em suas pesquisas, Bergonso obteve ao perceber a resposta dos movimentos corporais como forma de estímulo para as crianças. Inicialmente parte das proposições já fundamentadas de como o ser humano aprende a conhecer as coisas, que se dá em um processo de reconhecimento.

Por exemplo, ao se estimular a criança com movimentos circulares do quadril se está associando ao formato da letra “O”. Com outros movimentos pode-se trabalhar com a forma do “A”, ou do “U” e assim com todo o alfabeto. Ele explica que as crianças ao dançarem reconhecem formas e estimulam o cérebro que inicia o processo de livre associação. O corpo procede ao registro da informação com o movimento, e emite um estímulo, traduzindo a informação ao cérebro, que procede ao registro e reconhecimento desse conhecimento.

Esse caminho percorrido pela informação é que leva Bergonso à afirmação da conexão perfeita entre cérebro e corpo. Ele vai mais além na suas associações de como o ser humano aprende o mundo que o rodeia. Bergonso atreve-se a afirmar que sua técnica apresenta vantagens ao evitar que se desenvolva apenas o cérebro, quando se trabalha um dos hemisférios cerebrais - direito ou esquerdo.

Em sua concepção, o avanço consiste em que o cérebro interage com o corpo, num processo de mão dupla. “A criança aprende a escrever com a mão direita e esquerda”, destaca. Ele ressalta que o método tem grande eficiência em salas com no máximo 25 alunos, em que se consegue um aproveitamento mais harmonioso.

O pesquisador ressalta que sua técnica tem, ainda, a vantagem de aliar a aprendizagem com a espontaneidade. â€œÉ como aprender a andar de bicicleta. De repente você se equilibra e pronto.”

Nelson Bergonso se entusiasma ao citar que o pessoal de Pederneiras atingiu ótimos avanços na relação ensino-aprendizagem. Ele conta que os educadores da cidade se surpreenderam com os resultados da técnica. “Em um mês e uma semana crianças de três anos de idade iniciaram o processo de alfabetização. Que, a partir daí, não para mais”, comemora.

Ele comenta casos em que a alfabetização de crianças demora até quatro anos. Essa situação vergonhosa também lhe propôs desafios. “Tem que ter um processo rápido e que estimule o organismo como um todo. Infelizmente, a vida hoje é competitiva. O País que tiver melhor qualidade na alfabetização daqui a um tempo, sairá na frente de outros”, analisa.

Nelson Bergonso projeta que sua técnica, baseada na linguagem da dança, trará grandes avanços ao ensino. “Vai revolucionar a aprendizagem no País. Por causa da rapidez e da forma espontânea com que se aprende”, arremata.

Educação física

Para chegar ao atual patamar de desenvolvimento, Nelson Bergonso caminhou com sua idéias dos movimentos corporais para as formas de como o ser humano conhece as coisas.

Vem contribuindo muito sua formação na área de educação física, em que atuou como professor de iniciação esportiva em escolas da Capital. Ele conta que lá trabalhou em colégios da região da Vila Mariana, bairro do Ipiranga e São Bernardo do Campo, antes de se transferir para o Interior.

Foi nessa época que teve seu primeiro ‘insight’. Para escapar ao tradicional sistema de ensino de esportes, desenvolveu uma metodologia própria para a iniciação esportiva.

Passou a retirar do processo os equipamentos que sustentam os esportes, ou seja, nada de bola para aprender a jogar basquete, futebol, vôlei. Na sua forma de pensar qual seria a necessidade de se ter uma piscina para aprender a nadar? Nessa linha de raciocínio, um tanto quanto inovadora, retirou o que considera elementos que dificultavam a aprendizagem. “Em pouco tempo, percebi que as crianças aprendiam melhor”, garante.

Lembra que quando ainda não tinha a formação de psicólogo já tinha profundo interesse em como se dá o desenvolvimento físico e mental. “Não apenas o desenvolvimento físico, mas o ser humano como um todo. Num sentido mais holístico”, revela.

Bergonso conta que, ainda na Capital do Estado, conseguiu o reconhecimento de suas idéias. Ressalta que seu método de promoção da iniciação esportiva agradou a um diretor. Conseguiu convencê-lo a sistematizar um projeto e enviá-lo a instância superiores da Secretaria de Estado da Educação vislumbrando que a rede de ensino adotasse sua proposta de aprendizagem. Entretanto, não foi, ainda, naquela oportunidade que sua criatividade teve amplo entendimento.

Nem por isso deixou de continuar. Apaixonado cada vez mais por entender o processo de conhecimento, cursou psicologia e continuou suas pesquisas com especialistas de diversas áreas. Porém atribui ao início da carreira de educação física o momento de “iluminação” para suas futuras pesquisas, que sempre se voltaram para o físico. Ao escrever seu primeiro livro denominado “Brincando com Neuroses - relação pais e filhos” ganhou algum reconhecimento por suas idéias.

A obra repercutiu muito bem em alguns setores de Educação, recebendo recomendação de especialistas. Nesse livro, Bergonso conta que discutia o desenvolvimento da criança tratando do aspecto emocional, de como se dá o conhecimento e o desenvolvimento motor.

Estimulado pela repercussão obtida, seguiu suas pesquisas. “Passei a me questionar se não seria possível ensinar a ler e escrever sem lápis.” Daí partiu para um percurso longo e fascinante. Iniciou uma busca por técnicas, com a colaboração de alfabetizadores.

A resposta é a técnica que agora repassa para educadores da rede pública. Depois de Pederneiras

Bergonso revela que dará um curso de oito horas em Bauru, nos dias 16 e 17 de maio, para repassar sua técnica para educadores.

Novos caminhos

Nelson Bergonso está envolvido com sua tese de doutoramento, em que pretende desvendar o segredo de como as crianças aprendem tão facilmente. Conta que a base dos seus estudos reside na inteligência emocional e vida uterina.

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