JC Criança

Para gostar de música clássica basta ouvir

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

Tem adulto que diz que música clássica é coisa de velho. Mas hoje já tem muita criança provando o contrário. A música dos grandes compositores faz a cabeça da moçadinha sim e cada dia mais crianças e adolescentes se dedicam ao toque do piano, dos violinos e da flauta. Eles não se importam em passar horas estudando e o maior prazer para estes pequenos é tocar na orquestra infanto-juvenil “Camerata Filarmônica” e sonhar com uma orquestra sinfônica quando crescerem.

Para se ter idéia de como a música exige de-dicação, os 40 instrumentistas da camerata estão ensaiando desde o início do ano para uma grande apresentação, que será realizada no dia 20 de junho. Neste concerto, eles irão mostrar, além da música dos grandes mestres como Mozart, Bach e Vivaldi, peças do erudito folclore brasileiro, do cancioneiro internacional e da MPB.

Natália Bertoni, Ca-mila Daré e Lucas Maldonado são os mascotes da camerata. As duas garotas têm 10 anos e tocam violino e flauta. Ca-mila começou a ouvir a filha de sua madrinha tocar música clássica e diz ter achado “interessante”. Hoje acha a música erudita mais bonita do que “qualquer ou-tra” e sonha em tocar na Sinfônica Brasileira.

Lucas, filho da pianista e regente da camerata, Suzana Saconato, traz a música no sangue: seu tataravô era músico e desde bebê ouvia não só os discos da mãe, da tia e da avó, mas os alunos delas. Ele toca pífaro há dois anos e quer aprender novos instrumentos.

Já Natália tem na música um remédio. Aos 5 anos, ela começou a escutar e tocar flauta para melhorar um problema nos pulmões. Depois de curada, ela agora se de-dica ao violino, mas não vê a hora de aprender a tocar piano.

Os três instrumentistas mirins afirmam que não dão a mínima para a música que os amigos de sua idade ouvem e acham que se desde cedo forem apresentando o clássico aos coleguinhas mais gente irá gostar.

A música é tão importante na vida das gêmeas Bruna e Raquel Jordan, de 16 anos, que no aniversário anterior, elas fizeram uma festa de debutante diferente. Convidaram os amigos da camerata para uma apresentação especial. “Foi um sucesso, todo mundo gostou. A gente aprendeu a gostar de música clássica desde pequenas. Na escola que a gente estudou tinha iniciação musical e aprendemos a tocar flauta, violino e violoncelo”, afirmam as irmãs, uma completando a fala da outra.

Elas dizem que nunca foram discriminadas pela turma por preferirem música instrumental ao rock ou às músicas de sucesso.

O mesmo acontece com Denis Baptista, de 15 anos, que toca violino na camerata desde 2000, mas é conhecido como “o homem dos sete instrumentos”, pois ele sabe tocar piano, flauta soprano e tenor, bateria, guitarra e baixo. Ele aprendeu teoria musical desde criança e aos 9 anos já sabia compor.

A regente Suzana afirma que ele tem talento e a ca-merata já toca uma de suas músicas não só por incentivo. “Ele vai ser um excelente compositor”, revela.

Denis conta que não é capaz de imaginar a sua vida sem música. “A música é tudo pra mim. Eu comecei a gostar ainda mais de música quando descobri que ela era um descanso. Eu descontava tudo no piano e ainda desconto. O instrumento é meu melhor amigo. Ele me ouve primeiro”, setencia o multinstrumentista, que já tem a irmã Vivian, de 12 anos, como discípula.

Ela admite que o irmão sempre foi seu espelho e seu sonho é ser sua empresária. Vivian diz que também usa a música como terapia é não está nem aí quando lhe dizem que não gostam de música clássica. E quando está com raiva, se une ao irmão num concerto a quatro mãos.

O flautista André Tavares, de 17 anos é um dos maiores exemplos de garra do grupo. Ele descobriu a flauta numa oficina que era dada perto de sua casa na Vila São Paulo, quando tinha 14 anos. “Aquela música me chamou e fui aprender a tocar também. Iríamos nos apresentar no bairro e justo naquele dia o professor não apareceu”, conta decepcionado. Mas ele não desistiu, procurou a USC e lhe indica-ram a Oficina Cultural, onde a professora Suzana montara a camerata em 1998 através de oficinas. Ele entrou para o grupo e assume que o sacrifício de pegar ônibus e se esforçar para ensaiar acompa-nhando os poucos programas de rádio que tocam música clássica vale a pena. Para ele, um dia viver de música seria a “melhor felicidade do mundo”.

É essa alegria que sente Oriovaldo Justino, que tem 65 anos e fez o seu primeiro violino, com madeira e uma corda só quando ainda era um menino. “Eu morava na fazenda e ti-nha um disco de 78 rotações que tocava o dia inteiro uma música bonita. Perguntei ao dono da fazenda que instrumento era aquele, ele me disse que era uma rabeca, trouxe uma para eu ver e fiz a minha.”

Quando perceberam que o garoto gostava mesmo de música, ele ganhou um violino de verdade. Em sua vida chegou a ter 12 instrumentos, agora tem quatro violinos que ele cui-da com carinho e faz reformas que deixam um visual bem diferente. São todos coloridos, com pedras e aplicações. “Mas não vendo, não empresto e não dou.”

O que é uma camerata?

A camerata é um grupo de músicos que se reúne para estudar e discutir música. O termo nasceu no século 16, quando nobres e músicos se reuniam na casa do conde Giovanni de Bardi, em Florença, na Itália.

O que é uma filarmônica?

Filarmônica é o termo usado por muitas organizações musicais e significa “amante da música. Alguns estudiosos, segundo a pianista Suzana Saconato, designam o termo para o seguinte significado: “os integrantes de uma filarmônica tocam por amor à arte, não só pelo pelo pagamento do cachê”.

Crianças de novo

Na camerata infanto-juvenil existem algumas pessoas que já passaram da infância, mas se tornaram crianças novamente ao descobrirem a magia instrumentos.

Os aposentados Dayse Godoi Silva e Veraldo Rosetti encontraram no clarinete e na flauta transversal um sopro de mocidade e adoram fazer parte da turma. Eles contam que se sentem meio avós, meio pais, mas o que gostam mesmo é de se sentir irmão caçula.

â€œÉ uma troca enorme de experiência”, diz Veraldo. Daisy complementa: “De vez em quando se dá conselhos, mas na maioria das vezes é a gente quem aprende.”

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