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Surge uma droga nova a cada dia

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 9 min

As drogas estão cada vez mais “democráticas”, anuncia o psiquiatra Sérgio Dario Seibel, presidente Conselho Estadual de Entorpecentes, explicando que a cada dia que passa existem novas drogas fabricadas em laboratório disponíveis ao tráfico ou novas formas de entorpecimento que atingem todas as pessoas. Crianças em idade pré-escolar, mulheres e idosos passam a ser novo alvo de preocupação das autoridades de saúde. Estes e outros assuntos foram tratados pelo presidente do Conselho Estadual e o Conselho Municipal de Anti-Droga numa reunião na última quarta-feira em Bauru, quando Seibel conversou com a equipe do JC.

Jornal da Cidade - Muito se diz que as pessoas que têm um histórico de dependência química na família tem maior tendência para também se tornar dependente. Isso pode assumir características genéticas ou só ocorre pelo “exemplo” mesmo? Sérgio Dario Seibel - Primeiro você coloca a questão do modelo familiar, ou seja o pai ou a mãe dependente de álcool ou de tranqüilizantes e se a criança pode se tornar mais vulnerável a uma droga qualquer que não o álcool. O álcool, você foi bastante feliz na colocação, porque é a principal de droga de consumo aqui no Brasil, junto com o tabaco e os medicamentos preocupam. Se glamouriza muito a cocaína, o crack e coisa e tal, mas as principais drogas são essas as chamadas “drogras legais”. Ainda hoje quando a medicina não sabe a resposta de alguma coisa costuma-se colocar a culpa na conta da genética. É claro que pode haver um componente genético, hereditário, não apenas genético. Mas acho que o mais importante é que a dependência de drogas seja encarada como ela é na realidade: um fenômeno biopsicossocial. Então, se existe em casa um modelo farmacológico de alcoolismo, de dependência tranqüilizante, ou tabaco, na cabeça da criança essa sinalização de legal ou ilegal não existe. “Se o papai pode beber álcool e a mamãe usar lexotan, por que não posso fumar maconha?” Isso é uma lógica que a criança ou adolescente prosegue. Não há dúvida que o exemplo de casa vem primeiro. Existem estudos americanos e europeus e até brasileiros bem conduzidos que mostram que esse ponto é importante. Existem fatores de proteção e de risco que podem levar a criança a um maior ou menor consumo.

JC - Na questão do maior ou menor consumo, todo mundo que usa droga se torna dependente? Se dois irmãos resolvem usar droga, um fuma um baseado e outro fuma dez. O rapaz que fumou dez baseados parou por ali e o que fumou um só teve a necessidade de fumar mais. O que isso representa? Seibel - A ínfima parte de pessoas que usam droga irá se tornar dependente. Ínfima, um número muito pequeno em relação a valores estatísticos entre usuários e dependentes. Não significa que o número de dependentes, os números absolutos, não sejam importantes. Existe cada vez mais gente procurando consultórios, ambulatórios e psicólogos especializados em dependência de drogas, mas se você for olhar o universo total de quem usa droga - maconha, cocaína, álcool - é gente que convive sem se tornar escravo desse consumo.

JC - Nesse sentido a história “de quando eu quiser sair dessa, eu saio” pode ser verdadeira, dependendo do organismo ou da atitude de cada um? Seibel - Dependendo da atitude, sim. O que não se pode tomar é essa expressão como um paradigma. O que nós temos visto também é o contrário. Pessoas que são dependentes de álcool, cocaína ou de outra substância qualquer, tabaco por exemplo, ou maconha, dizer eu saio, eu largo quando quiser, também a realidade mostra que isso não é verdadeiro. O dependente em geral, quando a dependência está instalada , ele custa muito a aceitar que ele é dependente de droga e que ele apresenta um domínio sobre esse consumo que, na verdade, ele não tem.

JC - Em relação às variáveis de consumo de entorpecentes nas classes sociais, todo mundo aponta o menino de rua como consumidor de cola, mas nas classes mais altas é sabido do consumo de drogas até mais pesadas, mas isso é até mais velado. Existem dados estatísticos que comprovam qual classe social seria mais suscetível e afetada pela droga? Seibel - O que a realidade mostra é que o uso de drogas no mundo é muito democrática. Ela atinge todas as classes sociais, desde a AAA da nobreza, de executivos de gente de altíssimo poder aquisitivo, ex-presidentes de repúblicas e tudo o mais até o garoto de rua que usa cola de sapateiro, crack. O que precisamos ver neste caso é que quem tem poder financeiro tem acesso e compra as drogas de alto poder e custo. E o pessoal que mora na rua usa essas drogas de baixíssimo custo e de péssima qualidade, misturada a várias impurezas e que as motivações são diferentes. Essa garotada usa essas drogas para poder escapar de uma realidade brutal em que elas vivem. A cola é usada como anestesiante mesmo. É um solvente volátil orgânico e é usada para que ele saia desta realidade. O crack, pelo contrário, é um poderoso estimulante, um subproduto da cocaína, mas é utilizado também porque escapa dessa realidade. Eu trabalho com dependência de drogas há quase 30 anos e vejo que cada dependente tem a sua motivação e até hoje me surpreendem. Um dependente de cocaína não é igual a outro, cada um tem as suas motivações. É bem verdade que a entidade clínica é a mesma, os sinais, os sintomas, mas os motivos são outros. É isso o que é fascinante neste estudo.

JC - E falando em motivações, o fato da droga ser proibida no Brasil não desperta um desejo maior, uma curiosidade? Principalmente na adolescência se tem “essa coisa de procurar o que não é permitido para ver o que acontece”... Seibel - A realidade é que a droga sempre foi consumida desde que o mundo se organizou como tal, nas primeiras comunidades e pelas razões mais diversas. Razões médicas, onde as plantas serviam como medicamento, religiosas para atingir o divino, artístico-criativas, cada um dá a motivação que pode. O chocolate, o café, o chá tudo isso já foi e é usado como estimulante. Nessa questão da proibição hoje, a comparação que você pode usar como modelo é a época da Lei Seca nos Estados Unidos, que vai de 1910 a 1930, onde grupos de temperança ligados a movimentos morais e religiosos, que eram contra o álcool, pregavam que o álcool era o demônio, provocava a dissolução moral e da família. Conseguiram tal nível de influência que chegaram a proibir a produção e o consumo de álcool no país. Mas se viu que nunca se consumiu tanto álcool e álcool adulterado no EUA como naquela época e foi isso que fez com que a lei fosse alterada. Isso aliado ao altíssimo grau de corrupção, de clandestinidade, do tráfico e que a gente pode trazer para outras épocas.

JC - O senhor não acredita que com a liberação o tráfico seria inibido, pelo menos esses grandes cartéis da droga? Seibel - Essa é uma questão delicada. Não se pode colocar isso superficialmente, precisa ser uma análise muito grande, ecônomica, política, social e médico-psicológica também. É uma tese que está sendo discutida. O que se vê é que se terminar com todas as drogas ilegais (cocaína, heroína, maconha, haxixe) já existem o skunk e outras drogas de laboratório que tem poder psicoativo muito maior que as drogas extraídas de plantas, as drogas naturais vamos dizer assim. Essa é uma discussão que não tem fim.

JC - No surgimento de novas drogas já tem gente cheirando pilha, fita cassete, fumaça de isqueiro, gás butano, tíner. Existem medidas para coibir essas novas drogas? Seibel - A cada dia surge uma infinidade de produtos, ou subprodutos. A criatividade vai longe. Tem gente que cheira e bebe perfume, toma álcool de limpeza na falta da bebida. Tudo pode ser usado como droga, até uma aspirina quando tomada para dar um “barato”.

JC - Hoje a gente percebe um número muito grande de meninas usando droga. Existem números que confirmam esse fato? Seibel - Talvez este fenômeno esteja aparecendo mais agora. Na realidade, nós trabalhamos com dados que mostram até poucos anos atrás que o consumo de drogas por meninas ou por mulheres era bem inferior. O padrão brasileiro era igual ao padrão internacional 20% para 80%, e que hoje em dia existem estudos sobre esse crescimento, mas não com dados de comprovação.

JC - As crianças estão começando mais cedo a usar droga? Seibel - Isso é um dado. Hoje se começa a usar droga com qualquer idade. Seis, sete anos. Eu já vi casos de dependentes de cocaína com 20, 25 anos que começaram a álcool na mamadeira, porque o pai colocava umas gotas de bebida para acalmar, dormir, e depois porque era bonito molhar o dedo num copo e botar na boca de um garotinho de dois, três anos de idade. A criança vai criando uma concepção de que dá um barato gostoso, a pessoa fica meio adormecida, meio sonolenta e vai aumentando esse consumo.

JC - Nos idosos, a incidência é grande? Seibel - Está se começando a prestar atenção nos idosos. Se vê por exemplo que as maiores drogas de consumo entre eles (idosos) são álcool e medicamentos, principalmente tranqüilizantes. Muitas vezes até mesmo um médico indica uma determinada medicação tipo lexotan ou lorax e se esquece de tirar. A pessoa usa o medicamento por quatro, cinco anos, procura um outro médico por uma razão qualquer e se vê que ele é dependente forte, podendo se tornar deprimido, provocar outras reações graves.

JC - Como a família e a sociedade podem contribuir para convencer um dependente químico a se tratar? Depois de detectado o problema, a grande missão é dele não é? Seibel - Boa pergunta! Isso todos nós queríamos saber. Mas um dos momentos mais difíceis que leva a pessoa a buscar o tratamento, seria a percepção de que a droga está sendo prejudicial de alguma forma, naquele sentido biopsicossocial, seja através de doenças e infecções, aids, hepatite, seja psicológico onde o indivíduo não consegue mais se relacionar com as pessoas, seja socialmente não conseguindo produzir, trabalhar porque a droga passa a fazer parte central da sua vida. A vida dele passa a girar em função disso. Ele começa a procurar amigos para falar sobre droga, ele começa a fazer pequenos tráficos porque ele precisa de droga para manter a dependência. Se for a família ou um grupo social próximo, os amigos que vêem essa dificuldade, aí sim seria até o caso dessas pessoas procurarem auxílio para que mostrem a esse dependente o que pode ser feito por ele e o que ele mesmo pode fazer. Assim se racionaliza o problema e se espera buscar uma solução.

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