Pirajuí - Quando terminou seu curso de especialização em conservação e restauração de pinturas murais pela Universiddade Federal do Paraná (UFPR), o artista plástico José Renato Bertoldi, 40 anos, não imaginava que voltaria a sua cidade natal, Pirajuí, para restaurar as pinturas da igreja que ele conhecia desde criança.
Há dois meses, Bertoldi está envolvido em um minucioso trabalho para recuperar as passagens da Via-Sacra, pintadas em têmpera sobre madeira, e, numa segunda etapa, os vários murais que decoram a Igreja Nossa Senhora Aparecida, no Centro da cidade, obras de autoria do pintor italiano Antonio Maria Nardi, feitas entre 1958 e 1959.
Bertoldi conta que os quadros da Via-Sacra estavam em estado “muito ruimâ€, infestados de cupim e deteriorados pela infiltração constante. Ao retirar os quadros da parede da igreja para transportá-los ao “ateliê†montado ao lado da casa paroquial, o artista diz que teve uma “surpresaâ€: as passagens expostas não eram as originais. Estas foram encobertas por cópias de qualidade bem inferior, provavelmente feitas por um paroquiano no início da década de 80.
Dos 14 quadros pintados por Nardi, dois se perderam na “substituiçãoâ€. Segundo Bertoldi, possivelmente as passagens foram copiadas porque, além do desconhecimento sobre o valor artístico das obras, seria muito dispendioso, na época, contratar um especialista para restaurá-las. “Era como se tivesse um dente cariado e, em vez de obturar, eles resolvessem arrancá-lo e pôr uma prótese no lugarâ€, compara.
O trabalho de Bertoldi, no entanto, não trata apenas de “pintar por cima†do que foi estragado pelo tempo. No caso da pintura em madeira, o artista plástico conta que recupera, em primeiro lugar, a parte de trás da obra. Bertoldi aplica inseticida, impermeabiliza a base do quadro, limpa a tela, raspa as saliências, nivela a superfície com massa e só então passa a mexer com pincel e tinta. â€œÉ um trabalho moroso, exige minúcia e muita paciênciaâ€, observa.
Para Bertoldi, o trabalho de restauro da Igreja Nossa Senhora Aparecida, inaugurada em 1936, é também um desafio. Como o artista é especialista em murais - pinturas feitas diretamente na parede - e nunca havia trabalhado com obras em madeira antes, a nova experiência é ainda mais recompensadora. “Embora com os murais eu tenha que trabalhar em cima de andaime, o restauro em madeira é bem mais difícilâ€, ressalta.
Patrimônio
Bertoldi diz que seu trabalho é fazer com que as obras se aproximem o máximo possível do original. Às vezes, partes fundamentais dos quadros estão deteriorados, como um rosto, por exemplo. Nestes casos, sua função é algo como “ligar os pontosâ€.
“Para fazer uma cópia de um detalhe, só é possível se tiver uma foto do original. Como não existem fotos daqui, o que eu faço é preencher os espaços até que se possa fazer uma leitura quase homogênea do quadroâ€, relata Bertoldi.
Segundo o artista, restauros desse tipo costumam ser feitos com uma equipe de três ou quatro pessoas. Em Pirajuí, Bertoldi está trabalhando sozinho. Ele não revela quanto está ganhando, mas conta que uma restauradora de outra cidade orçou o trabalho em mais de R$ 100 mil. “O caro mesmo não é o material, mas a mão-de-obra. Quase não existem restauradores no paísâ€, observa.
Ainda não há uma definição sobre o custo total da reforma na Igreja. Segundo o padre Valdecir da Silva Gódi, o dinheiro veio da comunidade, arrecadado através dos dizimistas, de doadores anônimos e da última quermesse de Nossa Senhora Aparecida. “Estamos fazendo aos poucos, com o que temosâ€, revela.
O pároco de Pirajuí ressalta, no entanto, que o trabalho de restauro e reforma não “pertence ao padreâ€. “A igreja não é responsabilidade do padre, mas de toda a comunidade. Amanhã, daqui a um mês, um ano, eu posso ir embora, mas a igreja continua aqui. A igreja e essas obras são um patrimônio histórico para a cidadeâ€, afirma o padre.
Gódi diz que há uma comissão administrativa que controla as obras de reforma e restauro. Da Igreja Nossa Senhora Aparecida, a comissão já tratou da troca dos telhados e das calhas, além da reforma das madeiras, das pinturas lisas e da fachada. A expectativa é de que a “nova†Via-Sacra de Nardi seja recolocada nas paredes da igreja até o dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida