Cultura

Sobre mundos - Profissão: padre?

Por Padre Beto | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 4 min

Na semana passada, ao preencher uma ficha, a jovem atendente perguntou meu nome, endereço e, é claro, a minha profissão. Sem vacilar respondi: “sou padre”. Apesar da jovem não ter mostrado nenhuma reação diante da resposta, devo confessar que interiormente senti-me incomodado em relação à minha “profissão”.

Enquanto a moça continuava me pedindo outros dados que a ficha exigia, eu ainda refletia sobre a minha atividade profissional até que, em um certo momento, a interrompi com um pedido: “por favor, no lugar da profissão escreva professor!”

Neste momento em que casos de abuso sexual e pedofilia envolvendo pessoas do clero estão sendo notícia por todo o mundo, acredito ser interessante refletir um pouco sobre o “ser padre”.

Em qualquer profissão encontramos uma clara distinção entre ética pessoal e ética profissional. Ou seja, ao desenvolvermos uma determinada atividade profissional nos é exigido que tenhamos um comportamento ético no âmbito do trabalho. Este, porém, não deve ser confundido com nossa vida privada. Nenhuma instituição ou empresa deve exigir de seus funcionários condutas morais e éticas que vão além daquelas que envolvem a sua profissão.

Um professor, um advogado ou um funcionário público possui um compromisso ético em relação à instituição para qual trabalha e em relação à clientela que serve. Porém, o estilo de vida, a forma de viver em família ou a religião são de sua livre escolha, desde que estas opções estejam, é claro, dentro das normas aceitas por sua sociedade.

Um ótimo professor não comprometerá sua competência profissional simplesmente por viver em um concubinato, ser budista ou vegetariano. A ética profissional não exige, de forma alguma, que ele seja casado no civil ou religioso, viva de acordo com as normas morais cristãs e freqüente uma churrascaria.

Sem duvida alguma, existem certos aspectos da vida pessoal que influenciam diretamente na atividade profissional, por exemplo, quando alguém infringe normas estabelecidas pela sociedade: um policial que utiliza de violência com sua esposa, um prefeito envolvido em tráfico de drogas ou um médico com distúrbios mentais.

Não se tratando de casos tão extremos, faz-se necessário, em qualquer profissão a distinção entre ética pessoal e ética profissional. No que se refere ao sacerdócio a história muda radicalmente. Em primeiro lugar ser padre não significa simplesmente exercer uma atividade profissional.

Mais do que uma profissão, o sacerdócio é um estilo de vida. Ao ser ordenado padre eu assumo uma forma de viver que envolve um relacionamento intenso com Deus, um serviço à comunidade e o compromisso de viver e anunciar o Evangelho de Jesus Cristo. Sendo o sacerdócio um estilo de vida e não uma profissão, a “vida particular” do padre está intimamente ligada à aquilo que seria sua “atividade profissional”, ou seja, o serviço à uma comunidade cristã.

Aqui não se pode falar em ética pessoal ou profissional, pois não há divisão entre as duas. Além de servir em uma pastoral, o padre pode também desenvolver uma outra ocupação. Aqui está uma das riquezas oferecidas pelo sacerdócio, pois a este é possível integrar as mais diversas atividades profissionais: professor, escritor, radialista, psicólogo, artista, etc.

Apesar de uma possível atividade profissional, o sacerdote, porém, não deixará de viver como padre. Outro aspecto importante é que o padre, por ser um animador de uma comunidade e portanto uma figura pública, praticamente não possui “vida privada”.

Não há duvidas de que o padre necessita de um dia de descanso semanal, de resguardar sua esfera particular e de ter liberdade de pensamento e expressão, porém nada disso representa um afastamento do seu estilo de vida.

Ao voltar para a casa depois de um dia de atividades em uma paróquia, não deixo de continuar a ser padre e de viver como tal. Isso significa que o comportamento de um padre em sua esfera particular não pode estar em contradição com seu serviço à comunidade e sua vida social.

Justamente por esta íntima relação entre vida e trabalho é que os casos de abuso sexual e pedofilia envolvendo padres tornam-se mais chocantes. O maior numero destes crimes ocorrem nas famílias e envolvem pais, padrastos, tios e irmãos.

Mas a contradição torna-se muito maior e o pecado muito mais grave, quando estes e outros crimes são cometidos por uma pessoa que assumiu um estilo de vida que deve estar de acordo com o Evangelho. Sem duvida alguma, nós padres não somos perfeitos, mas assumimos a obrigação de sermos coerentes com aquilo que pregamos. Acredito que as denuncias feitas pela imprensa possam ajudar para uma reflexão sobre questões que exigem urgente revisão na igreja como a visão sobre a sexualidade humana, anticoncepcionais, celibato, ordenação de mulheres, etc.

Afinal, ser igreja, ser padre ou ser cristão é estar em um processo constante de conversão, de transformação da vida real em busca da felicidade de todos. “Importa mais infundir à Polis um ethos (espírito ético) bom e não dotá-la dum amontoado de leis...” (Platão).

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com.

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