Nunca é tarde para aprender a nadar. Segundo estimativas do Sindicato das Escolas e Academias de Atividades Aquáticas Aéreas e Terrestres do Estado de São Paulo (Seaatesp), cerca de 65% das pessoas que entram nas escolas de natação são adultos que passaram grande de suas vidas sem entrar numa piscina. “O quadro mudou.Antes, as crianças eram a maioria nas academiasâ€, lembra o professor de educação física e ex-técnico da seleção brasileira de natação Sidney Aparecido Silva. Isso quer dizer que nos últimos anos muita gente tem superado o medo e a falta de oportunidade para descobrir todas as delícias que a natação pode proporcionar
As razões para essa superação são várias. A primeira, de acordo com Silva, é que, atualmente, existem muito mais lugares para se praticar o nado do que antes. “Muita gente ficou sem aprender a nadar porque não teve a possibilidade, não pôde frequentar um clubeâ€, diz. Hoje em dia, existem, além das agremiações fechadas, uma infinidade de escolas nas quais se pode aprender a nadar por um preço acessível. A segunda razão para o aumento de procura dos adultos é a preocupação com a saúde. â€œÉ muito grande a procura pela hidroginástica e para isso a pessoa tem que entrar na piscina, aprender a nadarâ€, afirma o professor.
A coordenadora de natação da academia Marathon, Rosana Fittipaldi, lembra que ainda existe um terceiro motivo que tem levado as mulheres, principalmente, a caírem na água: os filhos. “Muitas mães e avós têm começado a nadar para não passar para os filhos o seu medo da águaâ€, conta.
Superação
Qualquer que seja o motivo que leva um adulto a aprender a nadar, muita superação é exigida. Para as crianças, que vivem uma fase de aprendizado na infância, é muito mais fácil aprender a nadar. Com os adultos nem sempre é assim, apesar de cada pessoa responder de uma maneira diferente ao contato com o meio líquido. “Se a pessoa quer muito aprender, se tem dedicação, aprende rápidoâ€, explica Fittipaldi.
O principal problema com os adultos, de acordo com o ex-técnico da seleção, é de ordem psicológica. Geralmente, quando eles têm medo, associam a água com o afogamento, com a possibilidade real de morte, o que os afasta de qualquer local onde haja uma grande quantidade do líquido.
Segundo Silva, as razões para esse medo incontrolável, em grande parte dos casos é causado por alguma experiência ruim que a pessoa viveu relacionada à água, como um quase afogamento, por exemplo, ou por ter ouvido alguma história de acidente na água no qual tenha havido uma morte. Existe ainda a possibilidade que o medo esteja “escondido†no subconsciente da pessoa, como resultado de algum trauma vivido bem no início de sua vida. “Às vezes a pessoa fica traumatizada por causa de um acidente na banheira quando ainda era um bebêâ€, afirma Fittipaldi.
É claro, que existem as pessoas que nunca aprenderam a nadar por pura falta de interesse no passado e que, por isso, não demonstram nenhum medo em se atirar na piscina logo na primeira aula, mas esses casos são raros. De qualquer maneira, essas pessoas também têm que enfrentar - junto com aquelas que sentem medo - a vergonha e, às vezes, o deboche de quem já entra na piscina desde cedo. O que na realidade é estranho porque existem muito mais pessoas que não sabem nadar do que gente que sabe.
Confiança
Aprender a nadar depois de uma certa idade, segundo especialistas, é um processo mais emocional de adaptação à água do que físico. Antes de pensar em técnica, é preciso adquirir auto-confiança e segurança em si mesma. Isso inclui superar não só a água, mas também as gozações e o espanto alheio que eventualmente podem surgir.
â€œÉ um processo lento, num ritmo ditado pela própria pessoa até que ela se sinta seguraâ€, comenta Silva. Um detalhe importante salientado pelo professor é o do contato físico durante o processo de aprendizagem. â€œÉ importante não colocar a mão na pessoa que está aprendendo para que ela não faça do instrutor uma ‘moleta’. Ela vai evoluir e começar a nadar quando se sentir pronta para issoâ€, diz.
Satisfação
Saber nadar abre um novo mundo para quem não podia chegar perto da água antes. Antes de saber nadar a pessoa não vai completamente para a praia, vai parcialmente, molha só os pés. Depois que sabe nadar é outra coisaâ€. Além de não se sentir excluída quando vai a um clube ou ao litoral, a pessoa passa a desfrutar de um dos exercícios mais completos que existem para o ser humano, que garante um condicionamento físico rápido e sem contundência pela quase ausência de impacto durante os movimentos.
Vencendo o desafio
A diagramadora Lirian Luiz entrou na natação há um ano, depois de passar 27 anos de sua vida praticamente fugindo de piscinas e praias. “Não é que não gostava, mas sempre tive muito medo, pânicoâ€, justifica. A decisão de procurar uma academia veio depois que ela percebeu que estava perdendo muito tempo só observando os outros se divertirem. “Queria também uma explicação para esse medo sem controle, queria vencê-loâ€, completa. Hoje ela ainda não nada, mas já se mantém com orgulho na água sem a ajuda da prancha usada nos primeiros exercícios e garante que não vai desistir. “Não vou parar enquanto não souber nadar de verdadeâ€, garante.
Para a dona de casa Sueli Camargo, de 37 anos, o desafio que a levou a cair na piscina foi o filho, Sérgio, de 4 anos. Por conta do pai, exímio nadador, o menino sempre gostou muito de brincar com água e na água, ao contrário da mãe. “Quando era pequena, quase me afoguei numa brincadeira com os meus irmãos e nunca mais cheguei perto de rios, lagos, psicinasâ€, revela. Prevendo que o filho vá se tornar um bom nadador no futuro, Sueli decidiu superar o trauma e há dois anos entrou numa escola de natação. Hoje, consegue boiar e nadar bem em lugares rasos. “Ainda tenho um certo receio de profundidade, mas sei que vou conseguir um diaâ€, diz confiante.
Quem já conseguiu passar por todos os medos e nadar bem depois de passar a metade da vida na segurança terrestre recomenda a tentativa. “Demorei 20 anos para aprender a nadar e só fico pensando porque não comecei antesâ€, afirma o autônomo Júlio César Santos. Apesar de morar próximo a um rio na infância, o medo de sua mãe fez com ele se mantivesse longe da água durante toda a infância e adolescência. “Fui aprender depois de velho, mas valeu a penaâ€, comemora.