Política

Embaixador acusa Israel de genocídio

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 6 min

O embaixador da Autoridade Palestina no Brasil, Musa Amer Odeh, diz que não tem dúvidas de que os ataques de Israel contra os palestinos podem ser classificados na mesma proporção da perseguição sofrida pelos judeus na Segunda Guerra Mundial. A convite do presidente da executiva municipal do PMDB, Alex Gasparini, Musa esteve em Bauru, ontem, para relatar a situação de penúria em que vive o povo palestino. Antes de dar seu testemunho a uma platéia que lotou o auditório do Sindicato do Comércio varejista, ele concedeu a seguinte entrevista ao Jornal da Cidade:

Jornal da Cidade - Como o senhor avalia, neste momento, o conflito entre palestinos e israelenses?

Musa Amer Odeh - É muito difícil. Nossa infra-estrutura foi totalmente destruída. Com isso, os israelenses tentaram destruir a própria vida do povo palestino. Israel destruiu os arquivos dos ministérios palestinos, construídos durante a ocupação em condição muito difícil. A intenção era destruir a base de um Estado Palestino no futuro. Infelizmente, ainda sentimos a insuficiência do apoio e da presença da comunidade internacional para impedir esse genocídio. O que sentimos agora é o mesmo que as vítimas do nazismo sentiram durante a Segunda Guerra Mundial. Os israelenses chegaram ao ponto de marcar os braços de nossos jovens assim como os judeus sofreram nos campos de concentração nazistas. É uma vergonha que a comunidade internacional tenha permitido que isso acontecesse.

JC - A cidade de Jenin foi a que mais sofreu com os ataques do Exército de Israel, mas há conflitos nos números de vítimas. Palestinos falam em mais de 500 mortos. Israel nega.

Musa - Ninguém sabe do número exato porque as tropas israelenses fizeram com que os sobreviventes de 13 até 70 anos fossem afastados do campo de refugiados. Temos informações, inclusive fotos, de israelenses transportando corpos do campo de refugiados para fora. Mesmo depois desse transporte encontramos 52 corpos soterrados debaixo das ruínas. Isso não quer dizer que essas sejam as únicas vítimas. Nós não temos como saber, até agora, quem morreu, quem ficou ferido e quem foi preso. Nós contamos, até o momento, 280 desaparecidos. Temos que afirmar que houve um massacre no campo de refugiados de Jenin.

JC - O senhor acredita que a eleição de Ariel Sharon, ex-militar, colaborou para piorar a relação entre israelenses e palestinos?

Musa - Ariel Sharon é um criminoso. Ele já foi responsável por massacres de palestinos no passado. Não há paz na agenda de Sharon.

JC - Homens e mulheres suicidas da Palestina amarram bombas no corpo para vingar os ataques de Israel. Civis inocentes morrem com as explosões. O senhor aprova essa tática?

Musa - Em primeiro lugar, eles são vítimas da agressão e da ocupação israelense. Quando o povo palestino perde a esperança, reage de uma maneira violenta. A ação do governo israelense não permite a eles ter esperança de um futuro melhor. Eles acham que Jerusalém será a capital de Israel para sempre. Não há solução para os refugiados. Os israelenses afirmam aos palestinos que vão continuar impondo os assentamentos judeus em território ocupado. Pela lei internacional, isso é ilegal. Afirmam que vão continuar mantendo o controle sobre as fronteiras, sobre a água, sobre o espaço. Nessas circunstâncias, alguns palestinos consideram que não há solução. A falta de esperança levam muitos ao suicídio. O governo palestino é contra a morte de civis israelenses e de civis palestinos.

JC - A administração de George W. Bush em relação ao conflito é visivelmente pró-Israel. O que os palestinos esperam dos Estados Unidos?

Musa - Infelizmente, Bush adotou a posição de Ariel Sharon. Sem o apoio de Bush, Sharon jamais faria o que fez contra o povo palestino. A única autoridade do mundo que declarou que Sharon é um homem de paz foi George W. Bush. É muito estranho que o líder da principal potência do mundo siga um criminoso como Ariel Sharon. A situação de perigo começa a atingir os amigos dos Estados Unidos, vizinhos da região do conflito. Isso tem colocado uma situação de tensão crescente na relação dos Estados Unidos com seus aliados.

JC - O mundo tem visto um Yasser Arafat abatido e doente. Ele ainda é, realmente, o líder máximo do povo palestino?

Musa - Arafat é o grande líder do povo palestino. Foi eleito diretamente pelo seu povo e centenas de observadores internacionais acompanharam o processo eleitoral, inclusive o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter. Os palestinos escolheram Arafat, mas o governo israelense tenta destruí-lo. Ninguém tem o direito de escolher quem vai ser o líder do povo palestino. Os Estados Unidos também tentaram escolher um outro líder e não conseguiram. Os israelense procuraram vários líderes para substituir Arafat e todos eles disseram que o líder deles é o Arafat.

JC - O senhor acredita na criação do Estado da Palestina? O conflito está próximo do fim?

Musa - A criação do Estado da Palestina está na mesma resolução da Organização das Nações Unidas, a ONU, que criou o Estado de Israel. Já naquela época, em 1947, Israel invadiu a terra dos palestinos e tomou cerca de 50% de sua área. Israel desrespeitou totalmente a resolução da ONU no dia em que foi aprovada a resolução. Todo o mundo fala na implantação do Estado da Palestina. Com exceção de Israel, todos os países do mundo concordam sobre a Palestina.

Os israelenses

O Estado de Israel foi fundado há 54 anos e já travou cinco guerras com seus vizinhos árabes. O país é moderno, democrático, dispõe de uma economia diversificada e padrão de vida de Primeiro Mundo.

Quem são e como vivem

O Estado de Israel foi fundado há 54 anos e já travou cinco guerras com seus vizinhos árabes. O país é moderno, democrático, dispõe de uma economia diversificada e padrão de vida de Primeiro Mundo.

• Território: 20.770 km2

• Idioma principal: hebraico

• Idade média: 28 anos

• Renda per capita: 18.900 dólares

• Importação: 35,2 bilhões de dólares

• Exportação: 28,3 bilhões de dólares

• Salário médio mensal: 1.500 dólares

• Taxa de desemprego: 9%

• Família média: 3,4 pessoas

• Taxa de alfabetização: 95%

• Segundo grau completo: 37%

• Expectativa de vida: 79 anos

• Taxa de fertilidade: 2,6

• Taxa de mortalidade infantil: 0,08%

• Forças armadas: 173.000 homens

Fonte: Revista Veja

Os palestinos

Os palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza vivem sob ocupação militar de Israel desde a guerra de 1967. A Autoridade Palestina, de Yasser Arafat, administra vários enclaves, nos quais vive a maior parte da população.

Quem são e como vivem

Os palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza vivem sob ocupação militar de Israel desde a guerra de 1967. A Autoridade Palestina, de Yasser Arafat, administra vários enclaves, nos quais vive a maior parte da população.

• Território: 6.257 km2 (Cisjordânia e Faixa de Gaza)

• Idioma principal: árabe

• Idade média: 17 anos

• Renda per capita: 1.680 dólares

• Importação: 2,4 bilhões de dólares

• Exportação: 0,4 bilhão de dólares

• Salário médio mensal: 360 dólares

• Taxa de desemprego: 38%

• Família média: seis pessoas

• Taxa de alfabetização: 86%

• Segundo grau completo: 11,9%

• Expectativa de vida: 72 anos

• Taxa de fertilidade: 6,1%

• Taxa de mortalidade infantil: 2,6%

• Paramilitares: 40.000 Fonte: Revista Veja

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