Nos próximos dias 24 e 25, uma equipe de profissionais que integram o grupo Estudos e Pesquisas Psicológicas Integradas à Dermatologia (Eppiderm) estará realizando um curso sobre a relação entre a psicologia e a dermatologia.
O tema: “Dores da Alma, Doenças da Pele: Um Diálogo Psicossomático†esclarece e evidencia o problema comprovado cientificamente. Há várias publicações científicas que afirmam que diversas doenças da pele estão diretamente ligadas ao emocional da pessoa.
O grupo Eppiderm surgiu através do trabalho do médico dermatologista, Antônio Carlos Ceribelli Martelli, e da psicóloga e psicoterapeuta Junguiana, Regina Célia Paganini Lourenço Furigo. Os dois, companheiros de consultório, começaram a observar que muitos pacientes com problemas de pele tinham a parte psicológica bastante afetada. Por outro lado, os pacientes da psicoterapia também apresentavam aleterações na pele.
Depois desta constatação, os dois resolveram fazer uma experiência. Uma paciente que apresentava psoríase, passou a fazer terapias, em tratamento conjunto.
Além da psicóloga Regina e o dermatologista Martelli, participou desse trabalho, a também psicóloga e psicoterapeuta, Helenice Cristina Azevedo e Silva. “Nós observamos uma grande melhora dessa paciente, inclusive em seus relacionamentos interpessoaisâ€, conta Regina.
A partir dessa experiência, os dois realizaram uma pesquisa com dez pacientes psoriáticos. Todos foram atendidos ao mesmo tempo. O objetivo era fazer um psicodiagnóstico e orientar os pacientes, baseando-se nas características de cada um. “Com esse trabalho, alguns pacientes já sentiram-se melhores e começaram a lidar mais facilmente com sua patologiaâ€, explica Regina.
Sim para o não
Um dos pontos observados por Regina, Helenice e Martelli foi o fato de que algumas características eram comuns aos pacientes. Um exemplo é o fato de dizer sim, quando se quer dizer não. “A maioria dos pacientes tinha uma necessidade muito grande de sempre concordar com tudo e, muitas vezes, na realidade, eles não poderiam concordar com algumas coisas. O correto seria dizer não, mas eles não conseguiam e acabavam assumindo muitos compromissos sem poderâ€, diz a psicóloga.
Todos eles apresentavam um quadro de estresse bem determinado e acentuado. Durante o tratamento, receberam orientações de como lidar com o problema.
Nas psicodermatoses, de acordo com Regina, o quadro de estresse é sempre uma característica. Além do estresse já existente no dia a dia dessas pessoas, há também a pressão de viver sob os olhares dos outros. Quando o paciente apresenta uma alteração visível na pele, as pessoas comentam ou até evitam contato com receio de que aquela doença seja contagiosa. Essa atitude prejudica o paciente que acaba se sentido excluído da sociedade. “Isso ocorre ainda com mais freqüência para os nossos pacientes, pois vivemos numa região muito quente, onde o corpo sempre está em evidênciaâ€, explica a psicóloga.
Ela conta que ensinou, para esses pacientes, uma técnica de relaxamento para controlar o estresse. “Quando a pessoa se agitava muito, entrava num quadro de ansiedade muito elevado, e aí ela podia utilizar essa técnica para aliviarâ€, salienta.
Com esse trabalho, os três profissionais, Regina, Helenice e Martelli, realizaram algumas publicações, participaram de congressos sobre o tema e escreveram artigos relatando a pesquisa que realizaram.
Em fevereiro deste ano, os três, já com um conhecimento amplo na área, decidiram montar um grupo para estudar ainda mais o eixo mente-pele. Além disso, conta Regina, em uma área só do saber é difícil perceber toda a complexidade do ser humano. “Esse trabalho em conjunto nos proporciona um melhor estudo dos casos e objetiva cuidar do paciente como um todo que ele éâ€, finaliza.
Referência aos mitos
Regina explica que, dentro da psicologia, a linha utilizada por ela e Helenice para trabalhar é a Junguiana. Essa linha, de acordo com ela, preza muito as origens. “Nós acreditamos que o ser humano, hoje, está meio desconectado de si mesmo, porque perdeu sua origem. Ele não sabe mais de onde veio, portanto está sem o seu senso de identidadeâ€, detalha.
A psicoterapeuta Junguiana diz que assim é também com a doença. O fenômeno psicossomático que vem acometendo o homem não faz parte só do século 21. A história já relata isso desde muitos anos. “Quando não temos mais fatos históricos para recorrer e conhecermos a nossa história, buscamos isso no mito. Se nós buscarmos na mitologia grega, vamos encontrar infinitas referências às doenças e quase todas elas se referindo ao ato de adoecer como um ato de desmedida do ser humanoâ€, explica.
Segundo o mito, quando as pessoas ultrapassam seus limites, quebram o padrão ou se afastam de si mesmas, elas adoecem. “Isso já foi dito cinco séculos antes de Cristoâ€, afirma. Estudar a doença nessa perspectiva mítico-histórica, de acordo com Regina, também vai ajudar no entendimento não só do doente de hoje, mas como a questão das doenças vem ao longo dos séculos e culminando agora com um momento em que o adoecer é algo grande dentro do contexto atual.
“Nós nunca estivemos tão doentes enquanto humanidade. Nunca estivemos tão deslocados, estressados, infelizes. A pele é o espelho da alma, então este órgão está refletindo algumas coisas sérias nesse sentidoâ€, diz.
A jornalista e mestre em língua e literatura grega antiga, Maria Cristina Rodrigues da Silva Franciscato conta que foi convidada pelo grupo Eppiderm para fazer parte da equipe. Ela abrirá o curso no dia 24 deste mês.
Cristina acredita na relação entre a psicologia e a dermatologia como um diálogo interdisciplinar. “Acho que esse é um dos caminhos viáveis para o futuro. A complexidade do mundo está tão avançada que esse tipo de diálogo interdisciplinar se faz necessário para tentar ampliar nossa visãoâ€, diz.
A jornalista explica que há muita relação entre a mitologia e a psicologia, especialmente a psicologia analítica junguiana. A questão mítica neste caso, de acordo com ela, tenta ajudar oferecendo uma referência de como arquetipicamente, a doença era vista; como através dos mitos, ela era compreendida pelo homem arcaico.
O homem antigo, explica Cristina, interagia com o mundo, entendendo suas complexidades através da emoção e da intuição, ao contrário do momento atual, quando o homem utiliza mais a razão. Então, os homens arcaicos colocavam a apreensão do mundo em forma de mitos e de uma linguagem simbólica que acompanha essa mitologia.
Dentro dessa visão de mundo, eles tinham uma determinada compreensão do que era a doença. É esta compreensão que a mestre em língua e literatura grega vai abordar no curso como forma de esclarecer uma visão anterior ao que será discutido durante o evento. É uma visão arquetípica da doença.
Cristina estará explicando como o homem antigo, dentro da forma de pensamento mítica, entendia a doença. Dentro disso, ela também irá trabalhar com alguns mitos que exploraram, de certa forma, a questão da pele.