Ser

Um sonho de liberdade

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Presidiário, pai de família, artesão, Luciano Gimenes Bissaco não mostra nenhum constrangimento ao falar do assalto que realizou há oito anos em Sumaré, pelo qual cumpre uma pena na Penitenciária I (PI). A razão é o fato do erro já estar superado na sua vida. “Hoje eu tenho mais cabeça. Penso muito na minha família”, diz sem pestanejar. Quem convive com ele no dia-a-dia não tem dúvidas disso.

Atualmente, Bissaco, de 26 anos, está em tratamento no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC) da Universidade de São Paulo (USP), o Centrinho, onde se recupera de um problema que possui na face desde a infância. Sua rotina inclui, além dos cuidados que precisa tomar com o rosto, a confecção de bichinhos de lã e, principalmente, o contato com pessoas que não o vêem como um ex-marginal, o que ele considera fundamental para sua recuperação. Na entrevista a seguir, Bissaco fala sobre a sua vida, suas esperanças e como - e porque - hoje é uma nova pessoa.

Jornal da Cidade - Como você veio parar na PI, em Bauru?

Luciano Gimenes Bissaco - Foi um assalto. Fui preso em 98, fiquei na cadeia um mês e 26 dias. Aconteceu uma fuga e eu acabei indo também. Fiquei em São Paulo até dezembro de 2000, quando me pegaram de novo. Faz um ano e cinco meses que eu estou preso. Aqui em Bauru estou desde junho do ano passado. Vim transferido depois de ficar em Mauá. Foi um coincidência ter vindo para Bauru.

JC - O que você fazia antes de ser preso, como terminou sendo preso por assalto?

Bissaco - Eu vendia balas e doces nos ônibus em Campinas. Um dia eu sai para trabalhar. Peguei todo o dinheiro que tinha e comprei em doces para vender. Quando cheguei no ponto de ônibus e abri a caixa de doces, os fiscais da prefeitura levaram tudo. Fiquei sem dinheiro e sem os doces. Tinha um primo que estava envolvido em vários assaltos com uns colegas dele. Voltei para casa nervoso e encontrei esses colegas do meu primo que estavam convidando ele para fazer um assalto. Ele disse que não queria e eu como estava nervoso, fui no lugar dele. Foi um erro que eu cometi. Se tudo o que sei hoje, eu soubesse há oito anos atrás eu não estaria passando por tudo isso.

JC - De quanto tempo é a sua pena?

Bissaco - São cinco anos e quatro meses. Já cumpri um ano e cinco meses. Acabei de “ganhar” o (regime) semi-aberto e estou esperando a minha transferência para a colônia. A partir de agosto vou ter direito de pedir a condicional. Estou esperando porque não tenho dinheiro para pagar advogado. Se tivesse um pouquinho mais na vida, não estaria preso.

JC - Como você chegou ao Centrinho?

Bissaco - Já conhecia o Centrinho desde 1988 quando comecei a fazer o tratamento. Cheguei a trabalhar no Centrinho numa horta que havia aqui. No final de 91, minha mãe veio até aqui e pediu para eu voltar para São Paulo porque ela estava precisando de mim. Acabei abandonando o tratamento por 11 anos. Estava sentindo muitas dores no rosto na prisão em Mauá. Aí o diretor disse que ia me transferir para que eu pudesse ter um tratamento melhor. Não sabia que ia ser para Bauru.Achei que fosse para qualquer outra cidade com um hospital bom perto. Voltar para Bauru foi bom por causa do Centrinho, mas no começo não foi assim. O pessoal da PI me levou primeiro no Hospital de Base e lá os médicos queriam que eu comprasse uma placa de reconstrução para colocar no lugar do osso na face. Eu estava preso, não tinha como comprar a placa, então eles não quiseram mais mexer no meu caso. Foi ai que o responsável pela saúde na PI me trouxe para o Centrinho. Eu já tinha um prontuário, então foi mais fácil.

JC - Qual é o seu problema exatamente?

Bissaco - Tenho um problema no osso do maxilar, na mandíbula. Desde pequeno tenho isso, não sei o que houve porque cada pessoa da minha família diz uma coisa. Aos 4 anos fiz a primeira cirurgia para o meu rosto deixar de ser torto. Fiz mais três operações em São Paulo, no Hospital de Defeitos da Face, no Hospital do Jabaquara e no Hospital Anchieta, em São Bernardo do Campo. Nenhuma operação deu certo, o meu rosto voltou a entortar de novo. Foi aí que conheci o Centrinho. Fiz a minha primeira cirurgia em fevereiro. Voltei para a PI mas tive uma infecção e tive que ficar internado aqui de novo para tratamento. Agora estou tomando um antibiótico muito forte, me recuperando, para poder tentar um novo enxerto de osso no maxilar.

JC - Você tem família?

Bissaco - Tenho uma mulher e quatro filhos que moram em Sumaré. Ela é ajudante de cozinha lá e cuida dos filhos sozinha. Quando eu a conheci ela já tinha três filhos. Ela me fez mudar muito. Aprendi a dar valor à vida, a pensar no dia de amanhã, nas coisas simples.

JC - Hoje você se acha mudado?

Bissaco - Hoje eu tenho mais cabeça. Penso muito na minha família e no que eu posso passar para os meus filhos no futuro.

JC - O que fez você mudar?

Bissaco - Acho que foi saber que alguém se importa comigo. Até o dia em que conheci minha mulher, não tinha ninguém que se importasse comigo. Meus pais sempre me procuraram quando precisavam de mim. Quando não precisavam, eu era abandonado. Minha mulher é responsável por essa mudança.

JC - Fazer os bichinhos de lã é o seu hobby?

Bissaco - É uma maneira de não ficar pensando besteira. Aprendi a fazer olhando um outro cara. Faço todo o tipo de bichinho. Eu passo o meu tempo e distraio a cabeça. É uma distração e as pessoas gostam. Quero sempre fazer um bicho diferente para deixar na Recreação (um dos setores do Centrinho). Lá, as meninas me tratam muito bem desde que eu cheguei. Me tratam como ser humano, como todos aqui.

JC - Isso também colabora para sua recuperação?

Bissaco - Colabora. Penso da seguinte forma: se você é visto como marginal, você vai ser sempre um marginal. Na sua cabeça vai existir sempre um marginal, um ladrão, um assassino. Se você é olhado de outra forma, você começa a mudar, a pensar: eu cometi um erro mas ninguém me vê mais como aquela pessoa que cometeu um erro, então porque continuar tendo aquela vida? A recuperação vai muito do jeito que você é visto. Não adianta a pessoa querer se recuperar se ninguém dá chance de recuperação a ela. No meu caso mesmo, se o Governo fosse pensar, eu poderia não estar preso. Poderia estar pagando em serviço comunitário, prestando serviço. O Governo faz diferente, prefere encher as cadeias.

JC - Quais são seus planos para o futuro?

Bissaco - Espero conseguir a minha liberdade o mais rápido possível e depois arrumar um emprego e poder viver a vida com a minha família. Sei que a coisa mais difícil vai ser conseguir um emprego quando sair daqui, mas tenho fé em Deus que vai dar certo.

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