Há exatos 114 anos o Brasil decretava em 13 de maio de 1888 a abolição da escravatura. Contrariando a história oficial, pode-se analisar que as motivações para o término da escravidão brasileira vieram muito mais da pressão inglesa, que já extinguira em 1807 o tráfico para si e para as suas colônias, do que por um gesto de bondade da princesa Isabel.
Este súbito interesse inglês pela abolição da escravatura brasileira no século XIX, na verdade, não tem nada a ver com algum sopro humanitário, mas sim por estímulos econômicos. A Inglaterra precisaria garantir mercados consumidores. Tem-se aí um novo cenário que seria o capitalismo industrial, marcado por produção em grande escala e intensificação das relações comerciais. Desta forma, um sistema escravocrata seria como uma pedra no meio do caminho deste projeto econômico.
Passado um pouco mais de um século da abolição da escravatura, o grupo étnico afro-descendente no Brasil corresponde hoje a aproximadamente 40% da população, o que equivale a 70 milhões de indivíduos. Esses dados garantem ao Brasil o status de segundo país no mundo com maior concentração de negros – o primeiro é a Nigéria com 112 milhões de indivíduos negros – e duas vezes maior que a de afro-americanos nos Estados Unidos da América.
Os dados da desigualdade são surpreendentes e quando confrontados com as estatísticas sociais das últimas décadas, percebe-se que a realidade está mudando, mas para pior. Em pesquisas realizadas nas cidades de São Paulo e Recife, anteriores ao último Censo, verificou-se que até a última década, os rendimentos de um médico negro são 22% mais baixos que os de um branco; um engenheiro negro ganha 19% menos que um branco; os professores negros ganham 18% menos que os brancos; os motoristas brancos ganham 19% mais que os negros; um metalúrgico torneiro-mecânico negro recebe 12% menos que um branco; um pedreiro negro ganha 11% menos que o branco.
Conforme dados do Censo envolvendo as últimas décadas, o negro quando nasce tem 30% a mais de chances que o branco de morrer antes de completar cinco anos de idade. Quando cresce tem o dobro das chances de sair da escola sem aprender a ler nem escrever. A sua expectativa de vida é de 50 anos, enquanto a do branco é de 63.
A violência policial contra os negros também é visível. Segundo dados da Polícia Militar e Tribunal de Justiça de São Paulo, o número de pessoas mortas por policiais só em 1990 foi de 585, ou seja, uma média de 1,6 pessoa por dia. Segundo o jornalista e escritor Caco Barcelos, em seu livro Rota 66, ainda na década de 80, constatava que a maioria da população exterminada pela polícia paulista se encontra na periferia da cidade, é pobre e é negra; além de não ter antecedentes criminais. Nos últimos anos não houve redução destes números.
Em relação à Educação, a presença do negro se afunila acentuadamente em cada grau de ascendência escolar. Em relação à escolaridade, no primeiro grau, 71% dos “pretos†(termo adotado pelo Censo para classificar indivíduos com a tez mais escura) e 65% dos “pardos†(o Censo usa o termo como referência a indivíduos negros com tez menos escura) estudam; no segundo grau, este número decresce e a presença de “pretos†é de 24% e a de “pardos†29%, mesmo assim, nem todos concluem os estudos no nível médio; no ensino superior, existem apenas 4% de “pretos†e 6% de “pardosâ€. Ou seja, 67% de “pretos†e 59% dos “pardos†simplesmente param de estudar no decorrer da sua formação escolar.
A situação do afro-brasileiro se torna cada vez mais preocupante porque esta população vem demonstrando um acentuado empobrecimento e um crescente processo de discriminação, levando a acreditar que a abolição de papel, na verdade, não significou uma concreta abolição social. (Ricardo Alexino Ferreira - Jornalista, professor de Jornalismo Especializado da Unesp e doutor em Ciências da Comunicação)