Articulistas

Vergonha para Ferrari


| Tempo de leitura: 3 min

Spielberg, Áustria, foi o palco da mais perfeita semana na carreira do piloto brasileiro da Ferrari, Rubens Barrichello. Melhor piloto na semana, melhor piloto nos treinos abertos e oficiais. Pole position. Melhor piloto na prova. Liderou as 71 voltas praticamente de ponta a ponta. No final, contudo, mais uma vez recebeu uma ordem dos boxes: deixar o lugar que conquistou com seu talento para o alemão Michael Schumacher.

A Ferrari é a escuderia mais amada no mundo. Seus torcedores espalham-se por todos os continentes. Os velozes carros vermelhos impressionam e encantam por onde passam. A Ferrari tornou-se uma lenda do automobilismo. Entretanto, no domingo, certos dirigentes sujaram sua história. As vaias e protestos dos torcedores presentes ao autódromo austríaco mostraram a indignação daqueles que são o maior patrimônio da escuderia, seus torcedores, os tofosi. Com certeza não é somente uma indignação dos brasileiros, mas de todos aqueles que amam o esporte e aprenderam a admirar a Ferrari em função de força, garra, determinação e espírito desportivo. De uma hora para outra, alguns homens que hoje comandam a escuderia, deixaram uma infeliz marca na construtora italiana. Estes deveriam saber que a Ferrari é maior do que eles. Os dirigentes passarão, a Ferrari ficará, contudo, permanecerá com esta terrível mancha em sua história. O vencedor oficial, Michael Schumacher é o melhor piloto da atualidade, não há dúvida. Desde o falecimento de Ayrton Senna, no acidente com sua Williams, em 1994, não há um piloto com talento equivalente ao do alemão. Logo, os passeios matinais de Schumacher nos domingos brasileiros tornaram-se usuais.

Seus adversários revezam-se no seu combate de acordo com o melhor modelo de carro que pode competir com o alemão. Desde 94, teve como oponentes Damon Hill, Jacques Villeneuve e Mika Hakkinen. Nos anos em que não há carro melhor do que a Ferrari, o alemão reina absoluto, pois há união entre melhor piloto e carro. Os tempos são outros e o único piloto acima da média na Fórmula 1 nestes anos é Schumacher. Os bons tempos de ferozes competidores acima da média, quando o título era disputado por Alain Prost, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Nigel Mansell, Keke Rosberg e Niki Lauda, em uma mesma temporada, infelizmente se foram. Na atual temporada, com a vitória na Áustria, o alemão acumula 5 vitórias em 6 GPs. Portanto, percebe-se que Schumacher não precisava tomar o lugar legítimo de Rubens Barrichello no GP da Áustria a poucos metros do final como indicou a equipe.

Acompanho os campeonatos de Fórmula 1 desde 1981, há 21 anos. Aprendi a admirar a Ferrari e hoje estou decepcionado. Tenho certeza de que quem perdeu não foi Rubens. Ele foi o vencedor. Não há dúvida. Quem perdeu foi o esporte, as regras, a ética, e por fim, a história da Ferrari, além de talvez o próprio Schumacher. Rubinho mostrou maturidade e dignidade. A expressão no rosto do irmão de Michael, Ralf, retrata o constrangimento que atingiu os outros pilotos. É certo que o alemão percebeu a reprovável decisão da equipe e tentou apaziguar a situação, quando deixou Rubens em seu lugar de direito no pódio e na entrevista coletiva, além de dar-lhe o troféu de vencedor. Mas reitero que a ética e o verdadeiro espírito desportivo deveriam se sobrepor à decisão da direção da escuderia italiana. Cabe à FIA inverter os pontos e declarar Rubens vencedor do GP, além de punir os dirigentes responsáveis por tal atitude antiética. A manipulação de resultados é revoltante em qualquer esporte e atos neste sentido devem ser severamente punidos pelos órgãos competentes. A indigna atitude dos dirigentes deve ser reparada. A história da Ferrari e do esporte não podem permanecer sob o manto de tal atitude vergonhosa. (Márcio Chalegre Coimbra, é advogado)

Comentários

Comentários