Quando a metade da população mundial vive na pobreza, não pode haver desenvolvimento sustentável nem segurança global. Durante muitos anos, os investimentos em saúde eram vistos por numerosos economistas como simples acessórios. No entanto, eles passavam por alto pelo fato de a saúde e o desenvolvimento econômico estarem intrinsecamente unidos.
Na realidade, o que se necessita é de um enfoque assentado sobre dois pilares. Uma população saudável é um requisito prévio para o crescimento. Nos anos 90, o sistema das Nações Unidas organizou uma sucessão de conferências mundiais que conseguiram acordos em uma série de importantes estratégias para o desenvolvimento internacional.
Por outro lado, no início dos anos 90, as ideologias do livre mercado, unidas a esforços sistemáticos para reduzir o poder dos governos, foram assinaladas como o caminho a seguir. Porém, no final da década, viu-se que bons e vigorosos governos, instituições democráticas e efetivas, bem como administrações inteligentes, são vitais para um desenvolvimento eqüitativo. Ao chegar o ano 2000, os líderes mundiais estavam prontos para um acordo sobre os “compromissos do milênio†de longo alcance, estabelecendo-se as bases para acordos sobre direitos, metas, pautas e responsabilidades que haviam sido negociados na década anterior.
Os líderes do G-8, em suas reuniões anuais, estavam prestando mais atenção aos assuntos globais. O mesmo fazia o setor privado. Ao mesmo tempo, muitas organizações não-governamentais estenderam sua atenção para o fornecimento de serviços para fazer campanhas a favor da igualdade e da justiça social. A organização Médicos Sem Fronteiras, por exemplo, converteu-se em influente fator na busca de uma igualdade sanitária global. Neste contexto, o ano de 2001 será lembrado como o ano em que um agitado mundo se deu conta da importância da saúde das pessoas.
O relatório da Comissão sobre Macroeconomia e Saúde, apresentado em Londres, em dezembro de 2001, mostra, com total simplicidade, como a doença é um prejuízo para o desenvolvimento e como os investimentos para a saúde podem ser uma porta de entrada concreta para o desenvolvimento econômico. A Comissão argumenta a favor de um enfoque global total da saúde, com metas concretas e marcos temporais específicos. Também quer ver as forças da globalização canalizadas para reduzir o sofrimento e promover o bem-estar dos seres humanos. Os investimentos propostos são comprovadas intervenções que se sabe que funcionam. A ênfase, contudo, está nos resultados: investir dinheiro onde este faz a diferença. Um estudo sobre as cifras globais demonstra que três enfermidades (aids, tuberculose e malária) são, sem dúvida alguma, as mais importantes. Os desafios são formidáveis, mas a oportunidade para aproveitar as forças em potencial para enfrentá-los nunca foi tão grande. (A autora, Gro Harlem Brundtland, ex-primeira-ministra da Noruega, é diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS))