Pesca & Lazer

Canoeiros do Araguaia II


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“Era o pirangueiro insistindo na venda do couro. Estava necessitando de alimentos; demos a ele pequena cesta básica e pedimo-lhe para não mais voltar. Escurecia... Estávamos reunidos na barraca da cozinha, comentando os ocorridos do dia. Céu nebuloso prenunciava chuva para breve; raios sorrateiros de luar escurecidos atravessavam nimbas carregados de eletricidade. Vez outra, trovões quebravam o silêncio da noite que se aproximava, precedidos de vento sul, sinal de temporal bravo iminente. Sombras de sarãs agitadas pelo vento, projetavam-se nas areias, formando figuras distorcidas, que nos inquietavam.

Nosso companheiro engenheiro era sistemático; até sua ida ao “matinho” era programada; sempre à mesma hora. Rolo de papel tico-tico sob um dos braços, o outro segurando lanterna, seguia “resoluto” em direção à capoeira; lá vai ele, comentávamos, em tom de gozação. Alguns minutos se passaram... Súbito grito de pavor ressoou de maneira impressionante pelo Vale do Araguaia, vindo justamente de onde nosso amigo estava. Pulamos assustados, não querendo acreditar no que ouvíamos.

Pedidos de socorro se sucederam de maneira mais angustiantes. Instintivamente procuramos as armas: haviam desaparecidas, facas e facões; também, ficamos atônitos: o que estaria acontecendo? Entramos em desespero; pegamos alguns galhos secos, os único encontrados na hora e partimos temeroso em defesa do amigo, sem sabermos o tamanho de perigo que poderíamos encontrar. Ele gritava: acode, o bicho vai me pegar; demos alguns passos e terrível visão assistimos, como se fora noite de pesadelo. Horrorosa fera corria ao encalço do nosso amigo que capengava em terreno arenoso dificultando sua fuga, atrapalhado que estava com as calças ainda arriadas. Não era possível; não podia ser verdade. Paramos; não tendo como enfrentar aquele monstro aterrador, surgido das trevas em lugar deserto e distante, deixou-nos em pânico.

O luar meio enfraquecido iluminava a “coisa” que só poderia ser criação da paranóia que estaria alterando nossa imaginação. Alto, pêlos longos e brilhantes, à semelhança de urso avantajado; focinho longo como do “Lobo Mau”, das histórias em quadrinhos; suas longas presas faiscavam sob as luzes dos lampiões; seus maxilares batiam como matracas em noite de procissão. Urrava que dava medo, enquanto corria atrás do amigo engenheiro; seu fim parecia iminente, não sabíamos como defendê-lo. E nossas armas, onde estariam?”

Felisdeu Leão é dentista e pescador

(Continua na próxima edição)

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