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O 'Centrinho' de Bauru


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“O poder é uma oportunidade de fazer o bem.” Esse pensamento veio-me à mente, no mês passado, em Bauru, onde me encontrava a convite dos dirigentes da Faculdade de Odontologia e do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo. Tudo resultou da visita que me fez, na Reitoria da USP, em meados de 1972, o diretor da mencionada faculdade, professor Luiz Ferreira Martins, expondo-me o plano de nela fundar um centro destinado a dar assistência médico-cirúrgica gratuita aos pacientes, sobretudo crianças e adolescentes, com malformações craniofaciais. Entusiasmou-me essa idéia de restituir o sorriso aos portadores de fissuras labiopalatais, bem como tratamento aos portadores de deficiência auditiva.

Nada me pareceu tão enquadrado no espírito da reforma universitária então em curso, obedecendo ao lema de realização conjunta de ensino, pesquisa e prestações de serviço à comunidade, razão pela qual, ao inaugurar o “Centrinho”, como carinhosamente passou a ser chamado, no dia 22 de março de 1973, me pareceu justo proclamar: “Aqui pulsa o coração da universidade nova.”

Mas confesso que não podia antever a grandiosidade de suas realizações, até o ponto de serem considerados “de excelência” pela Organização Mundial da Saúde. Não podia, com efeito, ser mais completa a atuação da citada Faculdade de Odontologia e de seu anexo hospital, graças à potenciação de suas atividades pela Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais (Funcraf).

Verifico com a maior emoção o que a Funcraf já realizou e está realizando, não apenas no que se refere ao tratamento da surdez, envolvendo prolongadas e sucessivas operações cirúrgicas, mas também proporcionando transporte gratuito às famílias dos doentes desprovidos de recursos, com repercussão até mesmo no estrangeiro. Além disso, a Funcraf - valendo-se dos recursos da USP, do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo - dá o melhor amparo a milhares de doentes, inclusive no que se refere ao fornecimento de aparelhos de audição, cujo custo varia de US$170 a US$720.

Por outro lado, consciente de sua imensa função humanitária, a Funcraf cuida de levar para outras cidades e Estados o atendimento oferecido pelo hospital, já estando em funcionamento pleno as unidades paulistas de Santo André e Itararé, e em Campo Grande, no Estado de Mato Grosso do Sul.

Não creio, à vista do exposto, que haja no País entidade que combine tão humanitariamente os frutos do saber científico com as exigências éticas da vida prática. Foi isso que, ao agradecer as homenagens que me eram prestadas, afirmei que Bauru é a capital brasileira da comunicação. É com ênfase que me refiro à Funcraf, pois somente ela poderia assegurar a indispensável continuidade administrativa, sempre mantida em alto nível por essa figura exemplar de servidor público que é o professor José Alberto de Souza Freitas (Tio Gastão). Ao me referir à Funcraf, não posso deixar de fazer alusão, vaidade à parte, à resolução por mim baixada, em 1973, autorizando a constituição de fundações na USP, destinadas a granjear recursos extra-orçamentários exigidos para a pesquisa e a prestação de serviços à comunidade.

Se fundações há que não sabem aplicar devidamente os valores angariados; se, como alegam alguns críticos, há desvios ou abusos, o que deve ser corrigido; só o que foi possível realizar em Bauru legitima a idéia que tive no meu segundo reitorado. (O autor, Miguel Reale, é jurista, filósofo, membro da Academia Brasileira de Letras, foi reitor da USP)

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