“O helicóptero é uma máquina que imita o beija-flor e voa de todos os lados, até para trás. Pára no ar, dança...â€ É assim que o piloto aposentado Dirceu da Costa Azevedo define seu companheiro de milhares de horas de vôo, que lhe valeram algumas honras e títulos que estavam escondidos no Jardim Europa. Ao comando de um helicóptero, o bauruense foi o primeiro a fazer a travessia das Américas é um dos únicos pilotos condecorados nos Estados Unidos e teve a bordo muita gente famosa.
Nascido e criado em Bauru, aos 18 anos sentiu que seus horizontes na cidade estavam limitados e conseqüentemente suas possibilidades de expansão e de crescer na vida também.
Era 1943, Segunda Guerra Mundial, quando Azevedo chegou em São Paulo “com a cara e a coragem†e passou a primeira noite na capital nos bancos do Jardim da Luz (praça em frente à estação).
“Logo de manhã comprei o jornal e comecei a procurar emprego. Fiz uma lista dos lugares e fui atrás. Faltava experiência de tudo. Mas quando cheguei na Penha, eu arranjei um lugar de entregador num armazém de um português. O salário era deste tamaninho e eu tendo que pensar hospedagem, em alimentação. Consegui com o português que ele me deixasse dormir na cocheira, com o cavalo e a carroça das entregas (risos). Ele deixou...â€
O jovem chegou a fazer algumas entregas, mas pouco tempo depois fora convocado pelo Exército. O destino quis que no mesmo jornal onde Azevedo leu a convocação viu um anúncio com as inscrições para a Escola Técnica de Aviação.
“Entre o exército e a aeronáutica, toda criança sonha em voarâ€, relembra com saudade dos tempos em que morava num sítio e queria ser como os pássaros. (Ao dizer isso, um helicóptero sobrevoa sua residência. Comovido pela raridade do fato, afirmou ser uma saudação à equipe).
Dirceu conta que foi à escola, fez o exame e foi admitido para a escola técnica que formava sargentos para a manutenção de aeronaves. “Era uma escola que os americanos transferiram para o Brasil para reforço de guerra, nos Estados Unidos era a Reader Schoolâ€, explica.
Com tinha boas notas, o aluno fora incentivado pelos professores a se especializar em eletricidade da aviação que era a matéria mais difícil do curso. Em dois meses, Dirceu Azevedo não só dominava os princípios elétricos, mas a língua inglesa. Afinal todos os instrutores eram norte-americanos.
O decolar da carreira
Depois de formado, o sargento foi convocado para servir a Força Aérea e foi escalado para a Base do Calabouço, hoje o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Foi ali que num plantão como comandante da base liderou a escolta do presidente Getúlio Vargas no dia em que foi deposto.
Ainda na carreira militar, Dirce integrou a patrulha do Atlântico voando na cauda de um avião como metralhador. “Eu estava começando a voar. A gente saía do Rio de Janeiro e ia até o Rio Grande do Sul patrulhando as águas brasileiras para ver se tinha submarinos alemães. E em todos os muitos vôos que fizemos jamais dei um tiro (risos).â€
Apesar de ter começado a carreira em plena guerra, confessa que nunca fez nada que fosse bélico na vida. Terminada a guerra ele pediu baixa do setor de manutenção, pois sua vida era voar.
Escala em Bauru
O sargento voltou para São Paulo e ficou sabendo que o magnata Nelson Rockfeller iria implementar um programa de auxílio à agricultura e enviara ao Brasil três helicópteros para pulverização das lavouras e um grupo de pilotos e mecânicos iria ser formado para operar as aeronaves.
Novamente, Azevedo se inscreveu e foi aceito no grupo. Por ironia do destino, a base dos helicópteros era em Bauru, o ponto de partida para os cafezais e algodoais de todo o Estado.
“O patrocínio do Rockfeller era só para ganhar mídia, mas ele deu de presente os helicópteros para o governo do Estado, que os entregou para a Vasp tomar conta. Eu fui no bolo e consegui meu primeiro emprego na aviação civil.â€
Como a Vasp era ligada ao governo, as aeronaves doadas acabaram tendo uso político para levar de um canto a outro os governantes.
Vencendo eleições
O piloto revela que nessas viagens muitos se aproveitaram do helicóptero para fazer política e ganhar eleições foi o caso do governador Adhemar de Barros para quem Dirceu trabalhou nos dois mandatos. “O helicóptero era uma novidade. Para pousar em uma cidade dava voltas, procurava um campinho bom e chamava gente de todo lado, que se aglomerava de maneira impressionante ao seu redorâ€, conta o piloto que muitas vezes se desesperava para proteger as pessoas do rotor traseiro, quase nunca percebido.
Nas viagens pelo interior, Azevedo lembra-se de um episódio que ocorreu em Dracena. “O Adhemar, tamanho tumulto não conseguia subir no helicóptero. Chegou até a se distanciar para ver se o povo o acompanhava, mas só os puxa-sacos foram. O povão ficou vendo a aeronave, querendo subir. Ele voltou desolado e me disse: ’eu e este helicóptero vamos ganhar a eleição’â€.
Dessa maneira, o helicóptero começou a ser usado para sobrevoar vilarejos e bairros e despejar os brindes e material de campanha. O governador Adhemar de Barros foi reeleito e o senador Paulo Fernandes, no Rio de Janeiro, que usou da mesma estratégia aérea, faturou a eleição. “A atração não era o político era a máquina voadoraâ€.
A travessia das Américas
Com expansão do mercado de táxi aéreo e muitos políticos e fazendeiros adquirindo novas unidades. Novos modelos surgiram e, segundo o piloto, o governador Adhemar de Barros comprou um helicóptero moderníssimo com turbinas e capacidade para 12 pessoas.
A Dirceu da Costa sobrou a missão de trazer dos Estados Unidos a aeronave. Um feito inédito: pela primeira vez um piloto brasileiro faria a travessia das Américas para trazer ao Brasil o primeiro helicóptero turbinado.
Acompanhado do piloto José Aguiar, que faleceu anos mais tarde num acidente de helicóptero, Dirceu partiu de Fort Worth, no Texas e levou quase mais de mês para chegar em São Paulo. O motivo? A querosene usada como combustível.
Cadeia e tevê
O piloto revela que o primeiro reabastecimento seria feito no México, quatro horas depois da decolagem nos EUA.
Com o tanque de 400 litros cheio, os pilotos conseguiriam cruzar a América Central para só encher o tanque na Venezuela. Chegando no destino, a base não operava com aviões a querosene. A única alternativa do piloto foi a peregrinação de loja em loja. “Acabei com todo o estoque de querosene da cidade para conseguir chegar até a Guiana Francesa.â€
Quando chegou ao País era noite e Dirceu não sabia a localização. Revela que achou um “campo lindo†e pousou. Pouco depois descobriu que estava dentro da penitenciária. “Foi um bafa provarmos que não estávamos com má intenção e outro para eles entenderem como um negócio daquele tamanho pousou lá dentroâ€.
Mas o pior ainda viria acontecer no Brasil, em Macapá. Após ficar maravilhado com um deserto que não sabia existir no país, o piloto revela que novamente não encontrou o querosene. “Mas como havia a Vasp, ela transportou de São Paulo dois tambores de 200 litros. Nós esperamos uma semana.â€
Neste meio tempo os inúmeros presentes trazidos pelos pilotos para os familiares e duas televisões em cores “com aquele vidro redondo, toda em aço, uma belezaâ€, que foram motivo suficiente para serem apontados como contrabandistas.
“Foi outra luta, perdemos mais um dia para explicar para a polícia que eram presentes mesmo com nota. Até o delegado tirou um sarro dizendo ‘o que você vai fazer com isso se não tem tevê em cores no Brasil?’â€, conta.
Realmente ele estava certo, o piloto ficou com o aparelho em casa pegando em preto e branco por quase quatro anos até chegarem as imagens coloridas. E quando isso ocorreu o sistema adotado pelo Brasil era alemão e não americano. A tevê acabou sendo jogada no lixo.
A recompensa
Depois de tantas coincidências, tantos políticos famosos de Getúlio a ACM, ou pessoas ilustres como o médium Chico Xavier, várias empresas como Vasp, PanAir, Aeróleo e Pirelli e apenas duas situações de perigo: um resgate noturno em alto mar e um milagre ao escapar de fios de alta tensão.
Há 20 anos, o piloto Dirceu da Costa Azevedo recebeu nos Estados Unidos o prêmio Pilot Safety Award, da Helicopter Association International pelas primeiras 5 mil horas de vôo em total segurança. “Uma condecoração que se não for o único, sou um dos únicos que receberam este título no Brasilâ€.
Aos 75 anos, o piloto bauruense que se aposentou há 15 anos comemora o fato de ter dado meia volta ao mundo de helicóptero. Ao lado da esposa Zina, “que sempre que possível viajava com ele†conheceu as três Américas, a Europa e o Norte da África.
Pai de quatro filhos, hoje restam-lhe muitas lembranças, fotografias as coleções de selos e moedas dos lugares por onde passou e duas funções que pouco lhe agradam, mas que ele jura que tenta se adaptar: “babá de criança e office-boy de mulherâ€.