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Bauru esconde pioneiro do helicóptero

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

“O helicóptero é uma máquina que imita o beija-flor e voa de todos os lados, até para trás. Pára no ar, dança...” É assim que o piloto aposentado Dirceu da Costa Azevedo define seu companheiro de milhares de horas de vôo, que lhe valeram algumas honras e títulos que estavam escondidos no Jardim Europa. Ao comando de um helicóptero, o bauruense foi o primeiro a fazer a travessia das Américas é um dos únicos pilotos condecorados nos Estados Unidos e teve a bordo muita gente famosa.

Nascido e criado em Bauru, aos 18 anos sentiu que seus horizontes na cidade estavam limitados e conseqüentemente suas possibilidades de expansão e de crescer na vida também.

Era 1943, Segunda Guerra Mundial, quando Azevedo chegou em São Paulo “com a cara e a coragem” e passou a primeira noite na capital nos bancos do Jardim da Luz (praça em frente à estação).

“Logo de manhã comprei o jornal e comecei a procurar emprego. Fiz uma lista dos lugares e fui atrás. Faltava experiência de tudo. Mas quando cheguei na Penha, eu arranjei um lugar de entregador num armazém de um português. O salário era deste tamaninho e eu tendo que pensar hospedagem, em alimentação. Consegui com o português que ele me deixasse dormir na cocheira, com o cavalo e a carroça das entregas (risos). Ele deixou...”

O jovem chegou a fazer algumas entregas, mas pouco tempo depois fora convocado pelo Exército. O destino quis que no mesmo jornal onde Azevedo leu a convocação viu um anúncio com as inscrições para a Escola Técnica de Aviação.

“Entre o exército e a aeronáutica, toda criança sonha em voar”, relembra com saudade dos tempos em que morava num sítio e queria ser como os pássaros. (Ao dizer isso, um helicóptero sobrevoa sua residência. Comovido pela raridade do fato, afirmou ser uma saudação à equipe).

Dirceu conta que foi à escola, fez o exame e foi admitido para a escola técnica que formava sargentos para a manutenção de aeronaves. “Era uma escola que os americanos transferiram para o Brasil para reforço de guerra, nos Estados Unidos era a Reader School”, explica.

Com tinha boas notas, o aluno fora incentivado pelos professores a se especializar em eletricidade da aviação que era a matéria mais difícil do curso. Em dois meses, Dirceu Azevedo não só dominava os princípios elétricos, mas a língua inglesa. Afinal todos os instrutores eram norte-americanos.

O decolar da carreira

Depois de formado, o sargento foi convocado para servir a Força Aérea e foi escalado para a Base do Calabouço, hoje o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Foi ali que num plantão como comandante da base liderou a escolta do presidente Getúlio Vargas no dia em que foi deposto.

Ainda na carreira militar, Dirce integrou a patrulha do Atlântico voando na cauda de um avião como metralhador. “Eu estava começando a voar. A gente saía do Rio de Janeiro e ia até o Rio Grande do Sul patrulhando as águas brasileiras para ver se tinha submarinos alemães. E em todos os muitos vôos que fizemos jamais dei um tiro (risos).”

Apesar de ter começado a carreira em plena guerra, confessa que nunca fez nada que fosse bélico na vida. Terminada a guerra ele pediu baixa do setor de manutenção, pois sua vida era voar.

Escala em Bauru

O sargento voltou para São Paulo e ficou sabendo que o magnata Nelson Rockfeller iria implementar um programa de auxílio à agricultura e enviara ao Brasil três helicópteros para pulverização das lavouras e um grupo de pilotos e mecânicos iria ser formado para operar as aeronaves.

Novamente, Azevedo se inscreveu e foi aceito no grupo. Por ironia do destino, a base dos helicópteros era em Bauru, o ponto de partida para os cafezais e algodoais de todo o Estado.

“O patrocínio do Rockfeller era só para ganhar mídia, mas ele deu de presente os helicópteros para o governo do Estado, que os entregou para a Vasp tomar conta. Eu fui no bolo e consegui meu primeiro emprego na aviação civil.”

Como a Vasp era ligada ao governo, as aeronaves doadas acabaram tendo uso político para levar de um canto a outro os governantes.

Vencendo eleições

O piloto revela que nessas viagens muitos se aproveitaram do helicóptero para fazer política e ganhar eleições foi o caso do governador Adhemar de Barros para quem Dirceu trabalhou nos dois mandatos. “O helicóptero era uma novidade. Para pousar em uma cidade dava voltas, procurava um campinho bom e chamava gente de todo lado, que se aglomerava de maneira impressionante ao seu redor”, conta o piloto que muitas vezes se desesperava para proteger as pessoas do rotor traseiro, quase nunca percebido.

Nas viagens pelo interior, Azevedo lembra-se de um episódio que ocorreu em Dracena. “O Adhemar, tamanho tumulto não conseguia subir no helicóptero. Chegou até a se distanciar para ver se o povo o acompanhava, mas só os puxa-sacos foram. O povão ficou vendo a aeronave, querendo subir. Ele voltou desolado e me disse: ’eu e este helicóptero vamos ganhar a eleição’”.

Dessa maneira, o helicóptero começou a ser usado para sobrevoar vilarejos e bairros e despejar os brindes e material de campanha. O governador Adhemar de Barros foi reeleito e o senador Paulo Fernandes, no Rio de Janeiro, que usou da mesma estratégia aérea, faturou a eleição. “A atração não era o político era a máquina voadora”.

A travessia das Américas

Com expansão do mercado de táxi aéreo e muitos políticos e fazendeiros adquirindo novas unidades. Novos modelos surgiram e, segundo o piloto, o governador Adhemar de Barros comprou um helicóptero moderníssimo com turbinas e capacidade para 12 pessoas.

A Dirceu da Costa sobrou a missão de trazer dos Estados Unidos a aeronave. Um feito inédito: pela primeira vez um piloto brasileiro faria a travessia das Américas para trazer ao Brasil o primeiro helicóptero turbinado.

Acompanhado do piloto José Aguiar, que faleceu anos mais tarde num acidente de helicóptero, Dirceu partiu de Fort Worth, no Texas e levou quase mais de mês para chegar em São Paulo. O motivo? A querosene usada como combustível.

Cadeia e tevê

O piloto revela que o primeiro reabastecimento seria feito no México, quatro horas depois da decolagem nos EUA.

Com o tanque de 400 litros cheio, os pilotos conseguiriam cruzar a América Central para só encher o tanque na Venezuela. Chegando no destino, a base não operava com aviões a querosene. A única alternativa do piloto foi a peregrinação de loja em loja. “Acabei com todo o estoque de querosene da cidade para conseguir chegar até a Guiana Francesa.”

Quando chegou ao País era noite e Dirceu não sabia a localização. Revela que achou um “campo lindo” e pousou. Pouco depois descobriu que estava dentro da penitenciária. “Foi um bafa provarmos que não estávamos com má intenção e outro para eles entenderem como um negócio daquele tamanho pousou lá dentro”.

Mas o pior ainda viria acontecer no Brasil, em Macapá. Após ficar maravilhado com um deserto que não sabia existir no país, o piloto revela que novamente não encontrou o querosene. “Mas como havia a Vasp, ela transportou de São Paulo dois tambores de 200 litros. Nós esperamos uma semana.”

Neste meio tempo os inúmeros presentes trazidos pelos pilotos para os familiares e duas televisões em cores “com aquele vidro redondo, toda em aço, uma beleza”, que foram motivo suficiente para serem apontados como contrabandistas.

“Foi outra luta, perdemos mais um dia para explicar para a polícia que eram presentes mesmo com nota. Até o delegado tirou um sarro dizendo ‘o que você vai fazer com isso se não tem tevê em cores no Brasil?’”, conta.

Realmente ele estava certo, o piloto ficou com o aparelho em casa pegando em preto e branco por quase quatro anos até chegarem as imagens coloridas. E quando isso ocorreu o sistema adotado pelo Brasil era alemão e não americano. A tevê acabou sendo jogada no lixo.

A recompensa

Depois de tantas coincidências, tantos políticos famosos de Getúlio a ACM, ou pessoas ilustres como o médium Chico Xavier, várias empresas como Vasp, PanAir, Aeróleo e Pirelli e apenas duas situações de perigo: um resgate noturno em alto mar e um milagre ao escapar de fios de alta tensão.

Há 20 anos, o piloto Dirceu da Costa Azevedo recebeu nos Estados Unidos o prêmio Pilot Safety Award, da Helicopter Association International pelas primeiras 5 mil horas de vôo em total segurança. “Uma condecoração que se não for o único, sou um dos únicos que receberam este título no Brasil”.

Aos 75 anos, o piloto bauruense que se aposentou há 15 anos comemora o fato de ter dado meia volta ao mundo de helicóptero. Ao lado da esposa Zina, “que sempre que possível viajava com ele” conheceu as três Américas, a Europa e o Norte da África.

Pai de quatro filhos, hoje restam-lhe muitas lembranças, fotografias as coleções de selos e moedas dos lugares por onde passou e duas funções que pouco lhe agradam, mas que ele jura que tenta se adaptar: “babá de criança e office-boy de mulher”.

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