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Maior das invenções


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Recebo pela Internet um apelo para que eu indique “qual a maior das invenções dos últimos dois mil anos”. Achei até que essa pesquisa já havia sido feita na passagem do milênio. Provavelmente estão querendo faturar com a edição de um livrinho de curiosidades. Por via das dúvidas passei o antivírus atualizado para não entrar em fria ao abrir o anexo. A pesquisa tinha todo um ar de seriedade com as explicações das metodologias empregadas para evitar viés sociológico.

Poderia responder de pronto ao sr. John Brockman que me enviara a lista de seu site www.edge.org, que era a própria Internet, ou o arado, a roda, ou nada que valha a pena. Qual o critério a utilizar: utilidade, abrangência, durabilidade, impacto, chatice...? Essa tal da engenharia genética e suas clonagens já encheu.

Houve um tal de prof. Rushkoff, da Universidade de Nova York, que elegeu a borracha de apagar. Assim como a tecla delete do computador, o “branquinho” de correção, a emenda constitucional e todos os outros instrumentos que nos permitem voltar a corrigir nossos erros. Tem razão o professor: sem a nossa capacidade de voltar, apagar e tentar de novo não teríamos modelo nem meio de desenvolver governo, cultura ou ética. Embora no Brasil a gente sempre esteja elegendo o governante errado. Parece que o eleitor nunca aprende com os próprios enganos. Mas a borracha é nosso absolvedor e nossa máquina do tempo. Disso não tenho dúvidas.

Uma velha piada talvez se encaixe com perfeição nesta crônica. O pesquisador foi ao Rio Grande do Sul para levantar dados sobre as preferências do gaúcho para orientar o marketing de uma grande empresa. Encontrou um velho todo pilchado (vestido a caráter), de cócoras junto ao fogo-de-chão e cuia de chimarrão. O pesquisador disse a que vinha e tascou a pergunta:

- Qual o objeto mais interessante para o senhor. Aquele que mais você admira pelas suas próprias utilidades?

O velho gaúcho coçou a cabeça, pensou e respondeu:

- É fácil. A garrafa térmica. Mantém o que é frio, frio e o que é quente, quente. Mas como é que ela sabe?

Por mim, vou responder a pesquisa dizendo que é a aspirina. Pilulazinha útil taí... Reduz dores de cabeça, do corpo, febre, ajuda a equilibrar a pressão sangüínea. Custa baratinho e é bem mais fácil de ser administrada do que o método dos masai africanos que tratam as dores de cabeça com um bolo de lama e fezes de cabra na cabeça. Prefiro a aspirina.

Segundo o informe do site a televisão está entre as últimas opções. É óbvia demais? Eu acho que é a ferramenta individual mais poderosa e manipuladora já inventada. Hoje, é a mais importante fonte de informação e serve como um tremendo aparelho de padronização de comportamento. Desde o seu início, o crime cresceu, o assédio sexual aumentou, diminuíram as freqüências aos espetáculos culturais ao vivo e o diálogo em casa acabou. Gostaria de participar de uma enquete sobre o que nunca deveria ter sido inventado. Votaria nesses programas do tipo Big Brother ou Casa dos Artistas. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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