Texto: Da Redação
Botucatu - Dom Vicente Marchetti Zioni, 90 anos, arcebispo emérito de Botucatu, guarda em sua memória uma triste, mas muito honrosa, recordação. Foi ele que na manhã do dia 9 de julho de 1942 rezou a primeira missa de corpo presente de Amábile Lúcia Visintainer, 76 anos, conhecida na vida religiosa por madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, morta naquela madrugada.
“Mal podia imaginar que um dia, muitos anos depois, já arcebispo emérito de Botucatu, eu iria a Florianópolis para assistir pessoalmente, da parte do papa, a declaração de beata, isto é: é certo, infalivelmente certo, que ela está no céuâ€, revela dom Zioni. Naquela primeira missa solene de ação de graças pela beatificação, em 18 de outubro de 1991, o arcebispo não conseguiu falar, tão emocionado que estava. “Quis pregar, mas não deu para falarâ€, lembra.
Dom Zioni, que foi bispo de Bauru de 1964 a 1968, formou-se em Roma, em 1938. Chegando ao Brasil, passou a dar aulas no Seminário Central da Imaculada Conceição e era o capelão das Irmãzinhas. Foi numa manhã, em que ia dizer sua missa diária na capela, que encontrou as irmãs preparando o corpo de madre Paulina no esquife.
“Não dava para imaginar que uma pessoa com quem nós tínhamos trato freqüente estaria já candidata para o céu, e hoje estaríamos a invocando como uma santa, no sentido verdadeiro da palavraâ€, observa dom Zioni, que conta histórias da vida de madre Paulina com impressionante precisão e riqueza de detalhes.
Um dos fatos que ele acredita ser dos mais curiosos foi a “alfabetização†de madre Paulina. Até por volta dos 11 anos, ela não sabia ler nem escrever. Mesmo assim, relata Zioni, a menina recebeu sua primeira comunhão, em Nova Trento, Santa Catarina. Como parte de seu uniforme, ela carregava um livreto de orações, que gostaria muito de poder ler.
“Ela, depois que comungou, pediu a Cristo esta graça: a de poder aprender a ler, e ela prometia a Ele que nunca mais, na sua vida, depois que soubesse ler, leria um livro banal, profano; só leria livros religiosos. Depois ela abriu o livrozinho e começou a ler, milagrosamenteâ€, afirma Zioni.
Da história da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, fundada por madre Paulina, o arcebispo conhece muitas “histórias de bastidoresâ€, especialmente no que se refere ao papel dela na ordem. “Ela teve uma parte decisiva na organização da congregação. Porém, ela não tinha cultura, de modo que isto criou um pouco de dificuldades no começo. Mas ela, pela sua piedade, pela sua caridade, pela sua disponibilidade, conseguiu vencer todos os obstáculos e a congregação foi para a frenteâ€, relata Zioni.
A diabetes que acometeu madre Paulina no fim da vida não a impediu de continuar seu trabalho. A doença lhe tirou o braço direito e a deixou cega. Mesmo assim, dom Zioni acredita que este sofrimento contribuiu para sua santidade. “Ela era muito prestimosa. Mesmo sem o braço direito, ela ajudava em tudo que lhe era possível... e fazia flores. Agora, como é que fazia flores com um braço só? Ela usava a boca também, puxava o fio...â€, relembra.
Quanto à canonização de hoje, dom Zioni garante que vai rezar a missa de ação de graças no Santuário Nossa Senhora das Dores, em Avaré. Para ele, é mais do que justo que madre Paulina se torne santa. â€œÉ uma comprovação de que a obra dela é uma obra de Deusâ€, diz.
Com muita alegria e lucidez, o arcebispo presencia hoje mais um capítulo da vida da irmã “pequenina†que ele conheceu e viu morrer. “Ela foi uma pessoa de otimismo muito grande também. Muita fé, muita caridade, muita devoção, muito otimismo e total confiança em Deusâ€, completa dom Zioni.