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Salve-se quem puder!


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No decorrer da semana que passou doze creches e berçários foram vítimas de assaltos noturnos em algumas cidades do Estado. E o que levaram os assaltantes segundo as suas possibilidades físicas? Arrebanharam unicamente todos os alimentos que estavam estocados para consumo da criançada miúda, freqüentadora diária do local, onde é deixada de manhã e recolhida no fim da tarde ou começo da noite. Tudo o mais que os estabelecimentos possuíam foi deixado incólume, até mesmo aparelhos eletrônicos, a maioria caríssima, para cuja aquisição gastaram uma nota altíssima as entidades mantenedoras: Estado, prefeituras e organizações particulares ou filantrópicas. Deixaram intactas todas essas coisas, não as tirando nem mesmo dos respectivos lugares.

Estranha-se que os amigos do alheio tenham se decidido a arriscar a pele para furtar apenas alguma coisa comestível, enchendo o estômago e deixando vazios os bolsos. Mas o fato indica que nem o leitinho, as bolachinhas, o pãozinho, o açúcar, a farinha de maizena e demais ingredientes, aplicados largamente na alimentação das crianças atendidas pelas creches, estão sendo respeitados hoje em dia pelos carentes, até tempos atrás indiferentes a coisas desse tipo, apontando, então, que os assaltantes deveriam estar com fome de muitos dias para não dar a “mínima” para a barriguinha dos recém-nascidos e demais garotos do albergue. Não seriam, então, ladrões profissionais, livres e desimpedidos pela polícia, mas, provavelmente, gente sem emprego e destituída de arrimo, a qual, vendo os próprios filhos passando necessidade em casa, não titubeou em criar coragem para invadir a casa alheia e delas extrair comidas a fim de saciar a fome dos seus, ainda que pecando com o sacrifício de outros. Muitas evidências que se entremostram por aí põem a nu a situação socialmente anômala em que se vive no País, mas esta que vai acontecendo à miúde em muitas regiões é acachapante, denunciando que estamos mesmo na era do salve-se quem puder... E oxalá todos pudessem, porquanto é bem melhor matar a própria fome que ser morto por ela. Mas que o seja por vias lícitas sem macular o direito dos outros. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado).

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