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Fim do princípio e princípio do fim


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Os resultados da visita de Jimmy Carter a Cuba ainda não podem ser avaliados. Alguns fatos insólitos, entretanto, estão associados à visita. A divulgação por rádio e televisão, em todo o país, do discurso de Carter na Universidade de Havana, na qual fez algumas referências críticas à política atual de Cuba, é um fato incomum na ilha. Também é pouco comum que o jornal oficial Granma publicasse integralmente, sem cortes, a reprovadora peça oratória do ex-presidente.

A visita de Carter ocorreu em um momento muito especial das tensas relações entre os dois países. O governo de George W. Bush se caracteriza por acentuar a tirania, enquanto, de outro lado, importantes setores do Congresso, eminentes líderes políticos e militares, e a sociedade civil se definiram por uma normalização dos vínculos com a ilha. Há alguns dias, o influente jornal The Wall Street Journal afirmou em seu editorial principal que já era hora de levantar o embargo contra Cuba e as restrições às viagens de cidadãos norte-americanos. O bloqueio a Cuba e os obstáculos nas relações não conseguiram seu objetivo principal, a derrubada da revolução cubana. Assim, é hora - pensam muitos, sensatamente - de começar outro tipo de relação.

No momento, estão estabelecidas algumas precárias relações econômicas de compras - à vista e em dinheiro - que Cuba vem fazendo no mercado norte-americano de trigo, arroz, milho e óleo vegetal, das empresas Archer Midlands, de Illinois, Cargill Inc., de Minneapolis, Riceland Foods e Conagra. Embora estas compras não passem dos US$ 10 milhões, calcula-se que o mercado cubano tenha potencial para chegar a mais de US$ 1 bilhão anuais. Cuba poderia absorver a produção total de arroz do Estado de Arkansas, que responde pela metade da colheita desse grão nos Estados Unidos.

Entretanto, muitos analistas coincidem em afirmar que a posição de Bush não tem um apoio unânime dentro do governo em Washington. Dick Cheney e Colin Powell estariam contra os métodos drásticos, mas Bush, neste momento, volta-se para a reeleição de seu irmão, e para isso necessita de dinheiro e dos votos da contra-revolução cubana na Flórida. Por isso, a visita de Carter provavelmente não terá efeitos imediatos, mas não deve haver dúvidas de que será mais um tijolo - e um tijolo bem substancial - na reestruturação dos critérios públicos sobre a normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos.

Tal como disse Carter, revogar o bloqueio ou depor a revolução cubana, termos contrários nos quais se baseiam as opções atuais, não são caminhos fáceis de transitar. Tampouco, uma visita de cinco dias pode mudar as derrotas de Cuba, por mais prestígio que tenha o visitante. A visita de Carter serviu para abonar o caminho já empreendido pela opinião pública norte-americana no sentido de abandonar a satanização de Cuba e seguir um caminho mais racional nas relações. Nesses dias - a história vai demonstrar - alcançou-se o final de um tortuoso caminho de desconfiança e animosidade, embora não se possa dizer que tenha se iniciado uma etapa final e definitiva na normalização das relações entre Cuba e os Estados Unidos. (O autor, Lisandro Otero, é jornalista e escritor cubano, radicado no México)

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