Bariri - A Subdelegacia do Ministério do Trabalho, em Bauru, interditou ontem o alojamento de trabalhadores rurais da chamada Fazenda Velha, em Bariri. No local, cerca de 100 lavradores vindos do município de Minas Novas (MG) viviam em condições subumanas. â€œÉ um depósito de genteâ€, afirmou Sérgio Branco, delegado regional do Ministério do Trabalho.
Os lavradores foram recrutados em sua cidade de origem, localizada no norte de Minas Gerais, para trabalhar no corte de cana de fazendas que comercializam com a Usina Della Coleta, de Bariri. Alguns locais, no entanto, como a fazenda em que os trabalhadores estavam alojados, podem pertencer à usina, segundo Branco.
De acordo com lavradores ouvidos pelo JC, eles teriam sido contratados para trabalhar na Usina Diamante, em Jaú, com a promessa de que teriam bons alojamentos e pagamento adequado. Chegando à região, porém, foram mandados para Bariri, onde estariam desde 13 de abril. “A gente foi enganadoâ€, afirma o lavrador Marcelo Gomes de Macedo.
O responsável pela vinda dos trabalhadores é José Roberto da Silva, dono da empresa Jacuba, de Pederneiras. No jargão, Silva é o chamado “gatoâ€, isto é, a pessoa que contrata os cortadores de cana que fazem o trabalho para as usinas. Ele também seria o responsável por transportar, alojar e pagar os trabalhadores.
Em Minas Novas, o contrato para a empresa Jacuba não teria sido feito por Silva, mas por dois homens identificados por Noel Severino de Oliveira e Clemente Costa Ferreira, que trabalhariam para ele, conforme revelou Takao Akashi, auditor fiscal da Subdelegacia.
A denúncia sobre as condições subumanas de alojamento e irregularidades no pagamento dos trabalhadores foi feita por Abel Barreto, diretor da Federação dos Empregados Rurais de São Paulo. Ele recebeu ligações de lavradores da Fazenda Velha informando o que estava ocorrendo no local. Para Barreto, os lavradores estão vivendo em regime de “semi-escravidãoâ€.
Segundo Barreto, no entanto, podem haver alojamentos ainda piores na região. No ano passado, teria acontecido um caso semelhante em Itapuí.
Alojamentos dignos
Por volta das 16h30 de ontem, o delegado Branco, Akashi e Barreto chegaram à Fazenda Velha, na estrada que liga Bariri a Itaju. Sabendo da chegada deles, os lavradores não foram trabalhar. Após inspecionar alojamentos, banheiros e cozinha, e ouvir o relato dos lavradores, Branco decidiu interditar o local.
Silva, o “gatoâ€, chegou à fazenda durante a vistoria da Subdelegacia. A princípio, ele disse apenas que “toma conta†do local, e alegou não saber para quem estava trabalhando.
Já em conversa com o delegado, Silva contou que era dono da empresa Jacuba - ou “empreiteiraâ€, como dizem os lavradores - e trabalhava para a Usina Della Coleta na terceirização da mão-de-obra. Questionado sobre a condição dos trabalhadores, Silva ainda tentou argumentar. “Mas quantidade de banheiro... todas essas coisas, eu achei que estava bom; talvez não esteja...â€, ponderou.
Com a interdição, Silva está obrigado a providenciar “alojamentos dignosâ€, refeições e pagamento correto aos lavradores, conforme determinou o delegado Branco. Se houver descumprimento, Silva pode responder criminalmente por desobediência à determinação do Ministério do Trabalho.
Segundo o auditor Akashi, se a empresa Jacuba não tiver condições econômicas de obedecer à decisão, a Usina poderá ser responsabilizada. “A Usina não deixa de ser co-responsávelâ€, afirmou.
Além do alojamento precário, os lavradores estavam recebendo, em média, de R$ 80,00 a R$ 100,00. De acordo com Branco, o piso para esse tipo de serviço em São Paulo é de R$ 250,00. Como agravante, os cortadores de cana eram obrigados a pagar R$ 90,00 por mês pela comida, o que deixava alguns, inclusive, devendo dinheiro à Silva. “Eles estão trabalhando pela comidaâ€, lamentou Branco.
Procurados pelo JC, os responsáveis pela Usina Della Coleta não foram localizados.