Ser

Sentimento de culpa

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Falhar em uma prova, magoar uma pessoa querida, perder um objeto valioso. O ser humano pode se sentir culpado pelas mais diferentes situações. A culpa é parte de nossas vidas. Convivemos com ela desde que nascemos - segundo a crença Católica, com o pecado original de Adão e Eva - e nunca mais a deixamos. Talvez não exista um sentimento humano tão próximo e ao mesmo tempo tão complicado de se lidar como esse.

“Essa é uma coisa que a gente nunca quer sentir, mas é quase impossível. Nós sempre nos sentimos culpados por alguma coisa”, diz a professora aposentada Maria Alice Vianna. Ela classifica como a maior culpa de sua vida, o fato de ter permanecido solteira. “Não me casei quando era moça porque não quis. Tive muitas oportunidades. Hoje me arrependo de não ter tido filhos e sei que a culpa foi minha”, avalia.

Assumir uma culpa dessa maneira não é uma tarefa fácil. Muitos indivíduos (talvez a maioria) preferem jogar a responsabilidade dos seus infortúnios em outras pessoas. É uma maneira de, aparentemente, se enganar, para poder conseguir viver melhor. É o caso da mulher que é traída, e acredita que a culpada pela sua desgraça é a amante do seu parceiro; e do frustrado profissionalmente, que coloca a crise econômica como responsável pelo seu fracasso. E assim a culpa é jogada de mão em mão.

â€œÉ difícil assumir a responsabilidade, mas também há os que assumem uma culpa indevida, como no caso do suicídio”, diz a psicóloga Maria Lúcia Biem. Na sua opinião, ninguém é culpado por este ato, além do próprio suicida, que não teve estrutura para conviver com seus conflitos, por isso não haveria razão para outras pessoas se sentirem culpadas.

Desde cedo

Segundo a psicóloga Cláudia Manaia, vários fatores podem fazer o ser humano se sentir culpado. Ainda na infância, é comum que a criança sinta-se má ou culpada, geralmente nas relações com os pais ou irmãos. Nessa época, frases como: “você é má”, “isto é feio”, ou “por sua causa eu briguei com o seu pai”, já fazem com que a criança carregue um sentimento de culpa mesmo que ela só vá perceber isso com mais intensidade no futuro.

Aspectos sociais, como a religião (e a noção de pecado), também ajudam a reforçar a idéia de culpa. “Às vezes a sociedade cobra demais. Tudo é pecado. Parece que até ser feliz é pecado. O ser humano mantém muitas vezes suas culpas, não somente por um ato no presente, mas é que este ato se reafirma com culpas trazidas no inconsciente”, explica a psicóloga.

Em resumo, parece que tudo somado contribui para que o ser humano seja um poço de culpa, e sua luta maior é livrar-se dela, para ser mais feliz. A culpa esconde, no fundo, um desejo humano de ser perfeito mesmo sabendo que isso é impossível, por isso os conflitos são inevitáveis.

Alma doente

Quando o sentimento de culpa está muito presente na vida de uma pessoa, ele pode prejudicar sua auto-realização e até provocar doenças de ordem emocional ou psicológica, explica Manaia. “O ser humano com boa auto-estima, autoconhecimento, consegue se livrar da culpa, de maneira, muito mais eficaz, pois consegue se responsabilizar na medida certa (sem exageros) pelo seus atos, não tornando isto um martírio para si mesmo”, diz a psicóloga.

Para Biem, a melhor forma de não se carregar uma culpa é não responsabilizar alguém indevidamente, é encarar os atos cometidos racional e honestamente, para não fazer de bode expiatório quem é inocente e não ser algoz de si mesmo por uma causa inexistente. Segundo Manaia, o autoconhecimento, a auto-estima, são fundamentais para se ter uma dimensão certa da culpa (quando ela existe realmente). Para a psicóloga, as pessoas deviam se perdoar mais, além de cobrar menos de si mesmas e dos outros.

Ela explica que é difícil para o ser humano aceitar que sente inveja, raiva, etc., sentimentos que não correspondem com o ser ideal que ele busca.

“Estamos nos relacionando o tempo todo e vivenciando situações que nos levam sentir emoções negativas. O importante é estar sempre observando o quanto isto pode ser melhorado, ou o por que que se sente isso, para poder ir lapidando esses sentimentos, e conseqüentemente nos livrar deles”, ensina.

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