Cultura

Sobre mundos - Falar é muito fácil...

Por Padre Beto | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 4 min

Na excelente produção de Terry Gilliam “O Pescador de Ilusões” (1991), o ator Jeff Bridges faz o papel de um locutor de rádio de grande popularidade. O interessante em seu show é o diálogo que mantém, ao vivo, com seus ouvintes.

Sempre com respostas irônicas e provocativas, Jack consegue atrair a atenção de seu público e manter uma grande audiência. Tudo caminha bem até o dia em que um ouvinte psicótico é encorajado pelas palavras de Jack a cometer uma tragédia. A partir deste dia, Jack descobre o poder que a palavra possui em transformar a realidade.

É praticamente impossível separar o ser humano da linguagem. A linguagem é algo que pertence à nossa estrutura que é essencialmente comunicativa. Sem ela nós simplesmente não existimos. É por isso que o filósofo Heidegger coloca a linguagem como o caminho para o “ser”, pois à medida que existimos estamos automaticamente comunicando algo e dando significado ao mundo.

A linguagem é a casa do ser, onde o homem existe. Entre os muitos instrumentos de comunicação surgiu entre a espécie humana a “palavra”. Para o homem primitivo a palavra era muito mais que um meio para transmitir uma idéia, ela continha uma força mágica ou divina.

O nome dado à principal divindade hindu é “Brahman”, nome este que originalmente significava “palavra sagrada”, e aqueles que proclamam a “palavra” são chamados pelos hindus de brahmane.

Os egípcios da Antiguidade acreditavam na força criadora que habita na palavra. Através dela, o deus Ptah chama todas as coisas à existência. Para os gregos, a lei que rege o universo era o “Logos” (palavra, razão) e no início do Evangelho segundo João, o Cristo é apresentado como o próprio “verbo” que se fez carne, ou seja, a “Palavra de Deus” no mundo.

Enfim, durante todo o transcorrer da história, a palavra foi sempre utilizada para modificar, de forma quase que mágica, o universo.

As pessoas sempre a utilizaram para criar o bem (benção) ou o mal (maldição), para concretizar seus desejos em relação aos outros e diante de determinadas situações.

Neste sentido afirmou Rousseau que “não é a fome ou a sede, mas o amor ou o ódio, a piedade, a cólera, que aos primeiros homens lhes arrancaram as primeiras vozes...”

Graças à linguagem que Aristóteles, em sua obra “Política”, define o homem como um “animal político”, isto é, um ser essencialmente social. Os outros animais, escreve o filósofo, possuem voz (phone) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e com ela, exprime o bom e o mau, o justo e o injusto.

Este poder da linguagem é descrito de modo especial em duas passagens bíblicas: a “Torre de Babel” e “Pentecostes”. Na primeira, a ganância conduz à diversidade de línguas, ao desentendimento, ao caos (“Babel” vem da raiz hebraica “bll” que significa “confundir”).

Já em Pentecostes, o Espírito de Deus leva os homens a superar as diversidades, dando a eles o dom de falar línguas. Estas não são enigmáticas ou fantásticas, mas sim meios eficientes de comunicação.

O grande milagre de Pentecostes foi a capacidade dos discípulos de Jesus fazerem-se entender por todos. Pentecostes é o oposto de Babel, apesar da diversidade há a comunicação e o entendimento, objetivos essenciais da linguagem humana (At. 2, 1-11).

Outra função importante da palavra é a transformação do universo em que vivemos. Através da palavra, podemos denominar e conceituar objetos e fenômenos dando um sentido a todos eles. Ao chamarmos um determinado material de “ouro” ou “plástico” este não só recebe um nome, mas com ele uma valoração.

Aqui está um poder incrível do ser humano: criar e recriar seu universo. Como conceituamos e denominamos o mundo no qual vivemos, uma pessoa pode entrar em estado de “graça” ou “desgraça” através de nossas palavras.

Simplesmente com elas, podemos transformar toda a história de uma pessoa “marcando-a” pelo resto de sua vida. Muitas vezes, não pensamos neste poder que possui a palavra utilizando-a levianamente. Entre nós, tornou-se moda, o direito de falar e de expressar como pensamos como sinal de transparência e autenticidade.

Esquecemos, porém, que as palavras, por mais verdadeiras que pareçam ser, podem agredir ou até mesmo destruir aqueles que as ouvem. Através da palavra construímos um determinado mundo.

Este pode tornar-se agradável, vulgar, justo, agressivo ou harmonioso dependendo das palavras que escolhemos para expressar o que pensamos ou desejamos. Já dizia Confúcio,“a honestidade sem as regras de decoro, transforma-se em grosseria”.

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

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