Nós, os seres humanos modernos, pertencemos a uma espécie maravilhosamente inventiva, que nos últimos dois séculos transformou o Planeta com inovações técnicas que facilitam a vida. Porém, apesar deste assombroso êxito, deixamos de enfrentar vários desafios essenciais da humanidade. Nosso nível de vida material se elevou, mas nossa qualidade de vida coletiva caiu por causa de nossa busca por invenções técnicas sem objetivos que alcancem algo além do lucro ou da conveniência econômica.
Nossa renúncia em dar prioridade à inovação social revela profundo ceticismo sobre a possibilidade de que possamos melhorar as relações humanas, e está unida à nossa inquebrantável confiança em que podemos inventar nosso caminho para sair de qualquer dificuldade. E nossa negativa em reconhecer qualquer limite ao nosso domínio sobre o mundo material nos leva a negar toda necessidade de modificar nossas próprias atitudes. “Eu não preciso mudarâ€, dizemos a nós mesmos. E acrescentamos: “em lugar disso, mudarei o mundoâ€. Nós estamos perdendo rapidamente o controle dos acontecimentos, exatamente porque nos recusamos a assumir responsabilidades diante de nossas próprias ações e emoções fora de controle.
Aqui é onde as invenções sociais podem fazer uma grande diferença. Técnicas para a solução e o manejo de conflitos já estão silenciosas mas efetivamente, reduzindo os níveis de violência em famílias e estabelecimentos de ensino, locais de trabalho e comunidades, bem como em guerras internacionais. Os programas para a solução de conflitos continuam sendo relativamente poucos quanto ao seu número, porém, inclusive em sua fase experimental, são muito mais efetivos para acalmar a violência do que o enfoque dominante que consiste em coerção e repressão.
Muitas invenções sociais desenvolvem mais habilidades em matéria de relações básicas para a sobrevivência humana e o bem-estar do que a leitura, a escrita e a aritmética, consideradas como a base do ensino elementar. Outras compreendem inovações técnicas com um propósito social. Poderíamos desviar melhor nosso curso de colisão com a alteração climática, por exemplo, tanto modificando nossas atitudes e ações (aprendendo a desfrutar mais da vida e a consumir menos) quanto adotando tecnologias (energia solar, eólica, proveniente do hidrogênio) que reduziriam espetacularmente nossa dependência das fontes não-renováveis de energia. Enquanto alguns avanços tecnológicos socialmente benéficos (como a dessanilização da água do mar) subsistem há décadas, outros, como a energia eólica e a solar, somente requerem uma oportuna injeção de dinheiro para que possam ser rapidamente difundidos.
Uma ampla gama de incentivos públicos e privados, entre eles subsídios, isenção de impostos, capital de risco, compras em volume, estimula as inovações tecnológicas com fins lucrativos. Mas poucas desses incentivos estão à disposição para estimular inovações socialmente construtivas. O capitalismo é estupendamente especialista em facilitar as inovações para o lucro privado e a gratificação pessoal de alguns poucos afortunados. Até agora, no entanto, se mostrou curiosamente inepto para estimular as inovações dirigidas às necessidades não-atendidas de um público mais amplo. Inclusive na medicina, onde os benefícios sociais são mais evidentes, os extravagantes lucros obtidos pelos laboratórios farmacêuticos não fazem mais do que reforçar o modelo. Se nossa concepção de lucro fosse ampliada para beneficiar tanto a nós quanto aos outros, nossas invenções poderiam causar um impacto muito mais benéfico no mundo.
Como tão pouco engenho foi até agora aplicado para atender necessidades humanas universais, abundam as oportunidades para conseguir avanços espetaculares em matéria de inovações sociais. Nossos inventores não se sentem inclinados a criar tecnologias triviais ou destrutivas. Por isso, se lhes forem dadas as instruções e os incentivos adequados, poderiam aplicar igualmente bem seu gênio para obter inventos amplamente benéficos.
Há um século, o último índio californiano “selvagemâ€, Ishi, saiu da floresta para encontrar-se com o mundo moderno. Ishi viveu apenas mais cinco anos, antes de cair vítima das doenças da modernidade. Antes de sua morte, um repórter perguntou-lhe o que pensava da civilização ocidental, e ele traçou uma sutil, mas fundamental, distinção que nós, os modernos, ainda temos de captar. “Vocês são vivos, mas ainda não são sábiosâ€, disse.
Nosso engenho está fora de discussão. Mas, agora, a sabedoria deve guiar o impulso criativo. O próximo grande salto do progresso humano será dado somente quando comprometermos nosso gênio para inovar com um propósito social mais elevado e benéfico. (O autor, Mark Sommer, é ensaísta e colunista, dirige o Mainstream Media Project)