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Colômbia: e agora?


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A eleição de Alvaro Uribe, em primeiro turno, com 53,4% dos votos, representa um alívio para a maioria dos colombianos. Agora, já sabem quem vai enfrentar os gravíssimos problemas nacionais da crise em que se encontra o país, na qual os problemas resistem a desaparecer. As decisões para corrigi-los convertem-se agora num enigma. O sólido triunfo deve ser analisado no contexto de uma abstenção superior a 50%, causada pela indiferença e pelo perigo de se votar em certas zonas dominadas pela guerrilha ou pelos paramilitares.

Por outro lado, quase a metade dos eleitores optou pelas candidaturas que de início já eram vistas como perdedoras, mas que seus seguidores não abandonaram até a última hora. O voto de aproximadamente um terço do eleitorado efetivo recebido por Serpa, candidato oficial do Partido Liberal, é digno de consideração. Mais importante do que os cerca de 5% recebidos pela ex-chanceler Noemí Sanín, são importantes os 6% obtidos pelo candidato da esquerda, o sindicalista Lucho Garzón. Entretanto, o que conta em definitivo é o mandato de Uribe, candidato dissidente do Partido Liberal, que agora deverá enfrentar as expectativas do sólido bloco que o apoiou. E por que o fez?

Os eleitores escolheram Uribe pelas promessas de severidade e resultados instantâneos. De uma posição obscura (embora tenha sido prefeito de sua cidade natal, Medellín) e de uma aparência de professor ou médico de cabeceira, ao máximo cargo de um estratégico país à beira do colapso, Uribe passou por cima da máquina dos partidos e surgiu como um salvador irresistível. Ao mesmo tempo, não conseguiu o apoio dos que consideram que seus planos ou promessas somente agravariam a situação.

Três eixos básicos de sua campanha ficam na mesa de discussões. Por um lado, Uribe não estava de acordo com a tática de seu antecessor, Andrés Pastrana, quanto ao tratamento dado às guerrilhas das Farc, às quais, como incentivo para a negociação, cedera um território desmilitarizado. Tardiamente, Pastrana viu-se obrigado a romper o trato. Por outro lado, Uribe prometera dobrar o número de soldados que, segundo todos os analistas, são insuficientes para derrotar uma guerrilha favorecida por uma geografia intrincada e uma rede de narcotráfico que lhe permite autonomia. Finalmente, pretendia envolver na agenda nacional mais de um milhão de cidadãos aos quais designaria como uma espécie de xerifes-informantes, armados ou controlados pelas forças de segurança.

Naturalmente, nunca se esclareceu como esses planos poderiam ser pagos, em uma economia destroçada e em uma sociedade onde os impostos são aleatórios. Para conseguir reforçar seu aparato de segurança não poderia mais do que obter o apoio e a autorização dos Estados Unidos para poder usar a ajuda militar dada para a luta contra o narcotráfico diretamente na luta contra a guerrilha.

Com o fim de pagar os necessários programas de reconstrução econômica, com a falta de carência de recursos próprios, somente a comunidade internacional (principalmente a Europa) é a fonte alternativa. Em um clima de guerra, em ebulição pelas expectativas de severidade, não se observa sinal algum de que os doadores internacionais compareçam em massa, sobretudo se se levar em conta que as promessas européias ficaram em apenas US$ 300 milhões, destinados a empréstimos e projetos de alcance local.

Na frente interna, além de ter de lidar com a intransigência das Farc, que têm muito a perder com a paz, que as privaria dos “negócios” do narcotráfico e de seqüestro, Uribe deverá ter uma política inteligente para suavizar a outra formação guerrilheira, o ELN. De outro lado, deverá encarar a neutralização dos paramilitares da Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), para erradicar a percepção de serem seus aliados. Um aumento de sua influência converteria a Colômbia em dois grupos irreconciliáveis. A ajuda norte-americana e européia seria impossível.

Por último, é preciso ver o que acontece com os partidos tradicionais. Saído do liberalismo, o triunfo de Uribe pode significar o surgimento de um partido de liberais na oposição e de outros no governo, com o qual o hipotético apoio da Internacional Socialista (na qual teoricamente o Partido Liberal está enquadrado) se tornaria virtualmente impossível. Enquanto isso, os conservadores (que não apresentaram candidato) desapareciam do mapa. Os 6% de Garzón são uma incógnita sobre o surgimento de uma esquerda ativa.

São muitas as perguntas para as expectativas dos eleitores de Uribe. Por sua vez, a maioria dos colombianos, que quer a paz, estará com a alma em suspense, perambulando do campo para a cidade, fugindo dos horrores dos combates ou pedindo visto de entrada para os EUA ou um país da Europa. (O autor, Joaquín Roy, é catedrático de Relações Internacionais e pesquisador sênior do Centro Norte-Sul da Universidade de Miami (jroy@miami.edu)

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