Cultura

Rap é o som

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 3 min

O produtor musical Fernando “TRZ” Falcoski finalizou na semana passada a coletânea “Hip Hop Sem Limites”. O trabalho, que reúne músicas de oito grupos de rap de Bauru, mostra que cena local tem muito potencial.

O álbum independente será o primeiro do selo Sammacô Produsons. Mesmo gravado em um estúdio “artesanal” e sem nenhum investimento, o resultado impressiona pela qualidade. De acordo com Falcoski, outros lançamentos devem ocorrer, firmando Bauru como pólo alternativo de produção musical.

Seguindo o mandamento do hip hop de buscar inspiração na realidade, o que confere o caráter político do movimento, as músicas espelham a vida dos bauruenses das periferias.

Os oito grupos envolvidos no projeto integram a ONG Quilombo do Interior, que busca dar condições de profissionalização dos rappers.

“A coletânea é o primeiro passo para divulgar em todo Brasil o hip hop de Bauru”, afirma Falcoski. Ele diz que pretende produzir um CD inteiro de pelo menos três dos oito grupos envolvidos na coletânea.

Gravado e editado em quatro meses, o álbum “Hip Hop Sem Limites” dá oportunidade para alguns rappers que mesmo com dez anos de estrada ainda não tiveram oportunidade de mostrar sua música. “Existe um potencial até econômico sendo desperdiçado. Muito disso por preconceito contra o estilo e contra os rappers”, opina Falcoski.

O MC (vocalista) Antenor Smoke concorda: “Falta apoio para mostrarmos o nosso trabalho. A sociedade não abre as portas. Representamos a cultura da periferia”, reclama Antenor, que além de rapper também é poeta. “O rap pode ser uma profissão para nós, seria uma saída para a guerra do cotidiano violento que vivemos”, explica.

Segundo Antenor, a coletânea é uma batalha vencida. “Estamos na luta. O rap é uma esperança para a periferia, nossa mensagem é um estímulo para a juventude”, completa.

Faixas marcantes

A coletânea dos baruenses tem várias músicas com potencial para tocar nas rádios. A maioria tem refrão e melodia bem elaboradas, fugindo um pouco do rap convencional.

Quase todas as bases foram produzidas a partir de samples, mas receberam overdub de instrumentos, o que conferiu mais musicalidade ao trabalho.

A coletânea teve a participação especial de João Lima e Mara Rita, vocalistas do grupo de samba-rock Segura a Nêga, e do trompetista Célio Jones. O teclado Falcoski também aparece em várias faixas.

O disco abre com “Bauru City (Das Vilas)”, do Desacato Verbal & Força Interior”. Na música, o MC Daniel destila seu ritmo e poesia entre a citação de vários bairros da cidade.

A segunda faixa, “Terror na Atmosfera”, assinada pelo DQuebra, abusa dos graves, aproximando o som de grupos como o Cypress Hill, para narrar o atentado terrorista de 11 de setembro.

“Agora é Só União”, do Código de Rua, tem um refrão poderoso e um clima meio soturno. Na seqüência, aparece a bonita Pra que Chorar, Tem que Sorrir”, estruturada em forma de um desabafo, mas longe de ser piegas.

“Nada Mais que Isso”, do Profetas de Rua, retoma a linha dançante, com base matadora e letra idem. A sexta faixa é “Automáticas”, do RR16, música mais gangsta da coletânea.

O Mente Abissal comparece com “Voz da Quebrada” e Antenor Smoke fecha o disco com “Avenida”. Carregada na melodia, o destaque da última música é a batida trip hop produzida no computador. Uma nova escola de rap está fundada.

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