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Os amigos-div

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Quem não tem um amigo (ou amiga) com quem se abre com mais freqüência? Comum na adolescência, o “uso” de uma pessoa conhecida como confidente e conselheira, vai se tornando mais raro conforme a idade chega, mas resiste ao tempo. Para esses amigos que também são divãs nas horas vagas, o fato de saber que outra pessoa confia neles vale pelos choros e lamentações que têm que ouvir.

“Parece que eu atraio pessoas que querem falar sobre seus problemas”, conta a funcionária pública Maria Alice de Castro Ramos, que se considera uma verdadeira “conselheira profissional” desde a juventude. “Na escola, as minhas amigas vinham me falar dos namorados, reclamar das famílias e pediam conselhos”, lembra. O fato nunca a incomodou, ao contrário. “Sempre gostei de dar conselhos, mesmo sabendo que as pessoas nem sempre seguem”, diz.

O universitário André Tchara também é um amigo-divã. “Acho que é a minha cara, sei lá. Já aconteceram casos de pessoas que eu nem conhecia começarem a falar comigo em filas de bancos e contarem a vida... Até coisas íntimas, que eu não falaria para um desconhecido”, comenta.

O mais interessante no caso do estudante, é que suas amigas são as que mais o procuram para pedir conselhos. “Elas dizem que não gostam de falar com outras mulheres porque não confiam nelas”, revela. A habilidade para ouvir outras pessoas - especialmente mulheres - já foi motivo até de brigas com a namorada. “Ela não acreditava muito que as meninas queriam pedir conselhos”, lembra bem-humorado.

Arma contra a solidão

Para a psicanalista Alessandra R. Corrêa, procurar um amigo para se abrir é uma grande arma contra a solidão e a tristeza. “Vivemos cada vez mais apressados hoje em dia, as pessoas estão sempre muito preocupadas com suas coisas. É um privilégio poder contar com um amigo, ou amiga, para compartilhar seus problemas”, afirma.

Segundo a psicanalista, além de servir como uma “válvula de escape”, o amigo, muitas vezes, representa a luz no fim do túnel, aquela opinião que pode fazer a diferença num momento de angústia. Essa capacidade é garantida pela “distância” que o amigo tem dos fatos que está ouvindo. “Um amigo sincero pode dar um bom conselho porque pode analisar a situação de fora e apontar algo que a pessoa não consegue perceber”, explica.

A sinceridade do amigo é importante porque uma pessoa que só “diz sim” e concorda com tudo o que o outro diz não ajuda muito, segundo a psicanalista. Nesse aspecto, por mais estranho que pareça, até um inimigo seria mais útil. “Um inimigo pode fazer com que a pessoa pare para analisar alguns detalhes dela mesma. É só não prestar atenção na maneira como ele diz isso”, afirma.

Por que é bom falar

“Eu gosto de me abrir com minha amigas porque me sinto mais aliviada, não sei”, diz a estudante Kelly Cristina Silva. Sua colega de classe, Patrícia Silva Toledo é da mesma opinião. â€œÉ bom conversar com as amigas porque elas entendem o que você quer dizer”, justifica.

As duas concordam que conversar com pessoas da mesma idade é mais simples do que falar em casa com a mãe ou com um parente qualquer. “Ninguém quer levar bronca, só quer conversar. As mães dão muita bronca”, diz Silva.

Na opinião da vendedora Júlia Canelossi, procurar a opinião de um amigo é bom pela mesma razão das estudantes: a possibilidade de não ter a orelha puxada. “Se você está com um problema, com uma dúvida, ou quer falar alguma coisa, não quer que ninguém fique ‘buzinando’ coisas na sua orelha”, explica.

A quem recorrer?

E quem costuma ouvir as histórias do amigos, se abre com quem? A ironia está nesse detalhe. “Geralmente, guardo as coisas para mim”, confessa Maria Alice Ramos. A razão, conforme a funcionária pública, é até certo ponto óbvia. “As pessoas vêm pedir conselhos e não estão acostumadas com o inverso”, diz.

Os amigos-divã então acabam se transformando em modelos de superamigo que não tem problemas nem defeitos. “Já aconteceu comigo de falar para uma pessoa que precisava de um conselho e ela se espantar. Ela disse: ‘mas você sempre sabe tudo’”, conta a dona de casa Janice Cavalini.

Para Alessandra Corrêa, as pessoas acostumadas a dar conselhos e sempre “saber tudo”, não devem se deixar levar pela impressão de que não são vulneráveis só porque costumam aconselhar ao invés de pedir conselhos. “Ninguém está isento de precisar da ajuda de um amigo”, diz. Se isso acontecer, ela recomenda que a pessoa procure alguém de confiança ou até um profissional para conversar. â€œÉ melhor do que guardar tudo para si”, avalia.

Não abuse

ò O amigo, por mais paciência que tenha, também precisa cuidar da vida dele. Olhe sempre no relógio antes de ligar para pedir um conselho.

ò Ficar dependente de alguém para tomar decisões pessoais não é nada positivo. Pedir opinião é importante, inclusive para pesar os prós e os contras de uma atitude. Só que ficar esperando que os outros decidam por você é até cômodo, mas muito ruim.

ò Quem precisa de um ombro amigo também tem de estar disposto a “dar colo” quando o outro precisar. Não se trata de “obrigação”, mas de respeito e consideração.

ò O mais importante de uma relação entre confidentes é a certeza de que seus sentimentos serão mantidos em segredo. Só se abra com quem tenha plena confiança.

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